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Mostrando postagens com o rótulo primavera

Desenho, poema de Cecília Meireles

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam. Isso era num lugar de sol e nuvens brancas, onde as rôlas, à tarde, soluçavam mui saudosas... O eco burlão, de pedra em pedra saltando, entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas. Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas, que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas, pois a vida completa e bela e terna ali já estava. Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! E o papagaio como ficava sonolento! O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmaticos fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros, e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. Maripôsas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes moravam nos jardins sussurrantes e eternos. E minha avó c...

Sentido da Primavera, crônica de Vinicius de Moraes

      Ao acordar, naquele dia preliminar da Primavera, senti imediatamente que alguma coisa tinha acontecido de muito fundamental na ordem do mundo. Eu, homem de despertar difícil, pulei da cama tão bem-disposto e leve que, por um momento, assustei-me com a sensação indizível que sentia. Ao pegar o copo habitual para a minha água matutina, notei que se achava cheio de uma substância volátil, penetrada de uma linda cor violeta. E não sei por que bebi do copo vazio, estranguladamente, o ar da Primavera, de gosto azul e fragrância fria, com um peso específico de sonho.      Durante alguns minutos nada me aconteceu. Tomei meu café, fumei um cigarro e dei uma olhada nas coisas. Mas de repente senti que em mim a matéria começava a se transformar. Palpitações violentas confrangeram-me o coração e eu mal conseguia respirar. Vi minha filhinha Susana distorcer-se à minha frente como ante um espelho côncavo e logo em seguida penetrou-me um cheiro tão monumental que pe...

O Embondeiro Que Sonhava Pássaros, Mia Couto

Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada. Esse homem sempre vai ficar de sombra: nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu astro não era o Sol. Nem seu país não era a vida.  Talvez, por razão disso, ele habitasse com cautela de um estranho. O vendedor de pássaros não tinha sequer o abrigo de um nome. Chamavam-lhe o passarinheiro. Todas manhãs ele passava nos bairros dos brancos carregando suas enormes gaiolas.  Ele mesmo fabricava aquelas jaulas, de tão leve material que nem pareciam servir de prisão. Parecia eram gaiolas aladas, voláteis. Dentro delas, os pássaros esvoavam suas cores repentinas.  À volta do vendedeiro, era uma nuvem de pios, tantos que faziam mexer as janelas: - Mãe, olha o homem dos passarinheiros! E os meninos inundavam as ruas.  As alegrias se intercambiavam: a gritaria das aves e o chilreio das crianças.  O homem puxava de uma muska (Muska - nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.) e harmonica...

Terceira Idade, Miryan Lucy Rezende

     Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão.      Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar.      O mê...

Nascido Com a Primavera: Gonzaguinha. Começaria Tudo Outra Vez

(Simone e Daniel Gonzaga) Começaria tudo outra vez Se preciso fosse, meu amor A chama em meu peito Ainda queima, saiba Nada foi em vão A cuba-libre dá coragem Em minhas mãos A dama de lilás Me machucando o coração Na sêde de sentir Seu corpo inteiro Coladinho ao meu E então eu cantaria A noite inteira Como já cantei, cantarei As coisas todas que já tive Tenho e sei, um dia terei A fé no que virá E a alegria de poder Olhar prá trás E ver …

História Infantil:Rainha da Primavera

      Numa terra muito distante chamada Florislândia, havia todos os tipos de flores, de todas as idades e de todos os estilos. As mais velhas eram mais sábias e cuidavam das mais jovens, as mais novas costumavam ser mais vaidosas e viviam enfeitando suas pétalas. As flores mães cuidavam das tarefas do lar e dos filhos, os pais saíam para trabalhar nas plantações de novas flores, os bebês brotinhos brincavam com suas folhas e tentavam tocar seus caules, as flores avós tinham suas pétalas enrugadas e seus caules tremiam sem parar, elas se apoiavam em pequenos gravetos para andar e não dispensavam seus óculos.      Uma vez por ano a cidade se enfeitava para o Baile da Primavera. Este baile escolheria a flor mais bela da cidade e a vencedora receberia o título de Miss Rainha da Primavera, ganharia uma viagem ao Jardim do Éden e ganharia muitos presentes dos patrocinadores da festa. Todas as flores jovens e bonitas se inscreviam pa...

A Primavera da Lagarta, Ruth Rocha

     Grande comício na floresta! Bem no meio da clareira, debaixo da bananeira!       Dona formiga convocou a reunião.       -Isso não pode continuar!      -Não pode não! Apoiava o camaleão.      -É um desaforo. A formiga gritava.       -É um desaforo!      -É mesmo. O camaleão concordava.      A joaninha que vinha chegando naquele instante perguntava: Qual é o desaforo, hein?      -É um desaforo o que a lagarta faz!      -Come tudo o que é folha! Reclamava o Louva-a-deus.      -Não há comida que chegue!      A lagartixa não concordava: -Por isso não que as senhoras formigas também comem.      -É isso mesmo! Apoiou o camaleão que vivia mudando de opinião.      -...

Árvore, Manoel de Barros

“Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore. meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho. No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, de céu e de lua mais do que na escola”. Manoel de Barros “No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo mais do que os padres lhes ensinavam no internato. Aprendeu com a natureza o perfume de Deus”. Manoel de Barros “Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul. E descobriu que uma casa vazia de cigarra,esquecida no tronco das árvores só serve para poesia”. Manoel de Barros No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos”. Manoel de Barros “Meu irmão agradecia a Deus aquela permanecia em árvore porque fez amizade com as borboletas”. ...

Cajueiros de Setembro, Joaquim Cardozo

Cajueiros de Setembro, Cobertos de folhas cor-de-vinho, Anunciadores simples dos estios Que as dúvidas e as mágoas aliviam Àqueles que como eu vivem sozinhos. As praias e as nuvens e as velas de barcaças Que vão seguindo além rumos marinhos Fazem com que por tudo se vislumbrem Luminosos domingos em setembro, Cajueiros de folhas cor-de-vinho. Presságio, amor de noites perfumadas Cheias de lua, de promessas e carinhos, Vivas canções serenas e distantes, Cajueiros de sombras inocentes Debruçados à beira dos caminhos.   In:CARDOZO, Joaquim, Poesias Completas, Ed.Civilização Brasileira 1979  

Primavera, Olegário Mariano

Jarra com margaridas e anémonas, Van Gogh, Paris 1887 Terra florida. Estação nova. Tanta Vida em redor. Ser fôlha quem me dera! Cada arbusto que vejo é uma garganta, Um grito de entusiasmo à Primavera! Bendito o sol que no alto céu flameja E desce fogo pelas serranias... O sol é um velho sátiro que beija Sôfregamente as árvores esguias. Anda, tonto pelo ar, espanejante, Umenxame fntástico de abelhas Que estonteadoramente paira diante De corolas e pétalas vermelhas. Vida para o trabalho! Ouve-se o côro Dos lavradores e das raparigas... Ondula ao sol, como um penhacho de ouro, A cabeleira fulva as espigas. Primavera! No teu aspecto antigo, Alucinante e triste muitas vêzes, Quando chegas pelo ar trazes contigo Calma e fartura para os camponeses. Dás arrepios fortes e desejos... Teu nome é seiva, é fôrça, é mocidade... A terra anda a clamar pelos teus beijos Que são sementes de fecundidade. (In Toda Uma Vida de Poesia, vol 1 ) (Nota: o blog manteve a g...

Setembro Chegou. O Que Faço Com Ele?

                  Ainda sem ter o que  postar hoje, vou caminhar e ver se clareio a mente.... Setembro Olavo Bilac Coro de crianças: Passem os meses, desfilando! Venha cada um por sua vez! Dancemos todos, escutando O que nos conta cada mês! Setembro: Eu trago a primavera; Trago a aprazível era De universais festins; Mais belas, mais viçosas, Surgem sorrindo as rosas E as dálias nos jardins. Sou o jovial setembro! E as brasileiros lembro A data sem rival, Em que o Brasil potente, Ficou independente  Do velho Portugal. As vozes elevemos Em hinos, e beijemos O pavilhão gentil, Que nos seu lema encerra O ideal da nossa terra,  A glória do Brasil! Coro de crianças: Adeus, setembro! Já descubro, Cheio de flores, a cantar, Lépido e alegre, o mês de Outubro, Que em nossa roda quer entrar!

Conversinha com Theo, Regina Porto

Theo,     Estou aqui na sua casa desde sábado. Gosto de vir para cá, embora   não goste exatamente de sua cidade. Sobre isso a gente conversa daqui mais adiante. Temos tempo. Encontrei, ainda no aeroporto com Vô Murica e Vorinha,que é como provavelmente você vai chamar os pais de sua mãe tão logo passe   a fase de trocar o V pele B, do simpático bobô e bobó.                         Viemos com alguma antecedência para auxiliar sua mãe em alguns afazeres. Só não sei se estamos sendo eficientes porque o que mais fazemos é conversar.     Theozinho, você não faz ideia   do que   e do tanto que se conversa à beira da mesa de sua sala de jantar. Sem dúvida que você é o assunto principal , mas   falamos das coisas mais malucas também. Rimos muito, muito mesmo.           ...