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Mostrando postagens com o rótulo Platão

Menino Malunguinho, Marcílio Godoi

Quando nasci, nasci menino forte, pra mais de cinco quilos. Era um tempo em que a beleza era medida pelas dobras de gordura nos punhos e os automóveis eram recebidos na roça como naves espaciais. Quem me apanhou do ventre amoroso e obstinado de minha mãe foi dona Anália, parteira dos meus outros oito irmãos, crianças que, como se ouvia naquele tempo, não tinham "querer". Mas que eram recebidas com muita alegria, pois, apesar de serem mais uma boca no mundo, mais um fio pra criar, poderiam ser também mais um bom parzinho de braços para a lavoura. Entre lençóis fartos, alvos e alvejados de placenta, a experiente mestre de cerimônias da vida me acolheu. Como cartão de visitas, apresentei-lhe um xixi imenso, antes mesmo de chorar. Era um tempo sem medicina diagnóstica, quando os prognósticos de saúde ou de doença ainda versavam como matéria da sorte, do destino insondável ou apenas de santos superprotetores mesmo. Se isso mudou, infelizmente mudou pouco, como não ...

O filósofo Platão, Alcântara Machado

(Senhor Platão Soares) Fechou a porta da rua. Deu dois passos. E se lembrou de que havia fechado com uma volta só. Voltou. Deu outra volta. Então se lembrou de que havia esquecido a carta de apresentação para o diretor do Serviço Sanitário de São Paulo. Deu uma volta na chave. Nada. É verdade: deu mais uma. - Nhana! Nhana! Nhana! Nhana apareceu sem meias no alto da escada. - Estou vendo tudo. - Ora vá amolar o boi! Que é que você quer? - Na gaveta do criado-mudo tem uma carta. Dentro de um envelope da Câmara dos Deputados. Você me traga por favor. Não. Eu mesmo vou buscar. Prefiro. - Como queira. E foi buscar. Saiu do quarto e parou na sala de jantar. - Ainda tem geléia ai, Nhana? - No armário debaixo de uma folha de papel. - Obrigado. Escolheu cuidadosamente o cálice. Limpou a colherinha no lenço. Nhana ia passando com o ferro de passar. Mas não se conteve. - Platão, Platão, você não vai falar com o homem, Platão? - Calma. Muita calma....