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Mostrando postagens com o rótulo DaltonTrevisan

A Faca no Coração, conto de Dalton Trevisan

– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço. – Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar. – Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito. – Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto. – Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos? – A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho. – No começo eles tomam o partido da mãe. – Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada. – A outra filhinha? – Também do lado da mãe. – E o filho? – Esse é o maior inimigo. – Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver. – Se ela está vendo… Tudo! – Vendo o quê? – É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete? – … – Meu filho, sinto uma pena de você! – Ó Maria, mal de cada d...

Penélope, Dalton Trevisan

     Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.            Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba      Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do m...