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Mostrando postagens com o rótulo ironia.

Menino Mau, conto de Osman Lins

     Chove. Os prados, os campos, os telhados, ruas, tudo enfim, banha-se de uma só vez no banho universal da criação.      Os trovões sucedem-se e parecem rebolar na serra como um Titã colossal, assustadoramente, num rimbobar alucinante e satânico.      O sol deve estar no zênite, pois os ponteiros se cruzam sobre as doze. Mas quem o vê? Ninguém. Só a chuva, fustigante, torrencial, desce das nuvens plúmbeas e compactas que escondem tristemente o azul do céu.      Mas apesar de tudo, Luizinho está na rua. Tiritante, com a roupa ensopada em água, colada ao corpo magro, brinca, com os pés molhados sobre a lama fria e pastosa.      Na sua casa humilde e sem conforto, sua madrasta, magra e raquítica talvez mais do que ele, fala sem parar. Menino mau! Chovendo, e ele na rua! Também, pouco se importava ela. Se aquele cão morresse, melhor para ela. É um de menos na casa pequena e sem cômodos. Como ela sofria por causa d...

Descobrindo antigos autores: José J. Veiga. Aquele Mundo de Vasabarros

      Conheça o mundo e a gente de Vasabarros, trazidos até nós por José J. Veiga neste relatório muito fiel sobre aquela comunidade incomparável mas não de todo impossível.  Conheça o S Simpatia D. Estêvão IV, o Mijão, quando mais não seja para evitar passar perto dele caso algum pesadelo nos transporte para lá uma noite.      Teoricamente o Simpatia é a autoridade máxima do lugar, mas a verdade pura e simples é que esse D. Estêvão não manda muito. Mas ele precisa de um derivativo para essa frustração, e os senescas de Vasabarros, seus ministros, permitem que ele faça alguma coisa: que mende gente humilde para os castigos do tico-tico, do diagrama, do triângulo, da barrica e até da barrica-com-araponga.      Vale a pena conhecer também o senesca bate-pau Gregóvio, o homem sem pescoço, que toma chá de cavaco, gosta de aplainar tabuinhas de jacarandá e é tão forte que imobiliza um cavalo segurando-o pelo rabo. É preciso ter cuidado com Gr...

Pé, Fraga

     Segundo reza a lenda sem pé nem cabeça, o Homem começou a sua evolução com o pé direito.      No início era uma dúzia de pés-rapados, mas logo se organizaram socialmente em das castas: os pés-de-boi e os pés-quentes. Aos primeiros cabia não arredar pé do pé-de-pilão; aos segundos, cuidar do pé-de-meia.       Cada grupo cumpria ao pé da letra a sua tarefa. Afinal, o lucro era dividido em pé de igualdade. Não havia  ódios e todos faziam pé firme no regime.       A sociedade cresceu, porque dava pé. E evoluiu: inventaram o pedal (depois, a roda); o pé-de-moleque revolucionou a culinária; encontraram a cura pro pé-de-atleta; apareceram as ciências (Pediatria, para tratar dos pezinhos dos nenês, e Pedagogia, para educar do pé-de-chumbo ao pé-de-porco); nas letras, fizeram sucesso os versos de pé-quebrado; construiram-se os famosos jardins suspensos dos igarapés; o Homem sonhava com o futuro, ...