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As Três Experiências, crônica de Clarice Lispector

     Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros,nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.      E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estud...

Entendo Tudo Errado Mas Na Maior Empolgação, Regina Porto

            Deixei de cantar. Não sei desde quando nem o porquê, mas aconteceu. Foi morar longe de mim a pessoa que cantarolava por horas e diariamente e em qualquer lugar.       Afastou-se sem explicação e sem deixar nenhuma nota musical de lembrança. Levou, inclusive, os meus CDs. Corrijo: deixou os CDs mas levou meus ouvidos. Sem me entender tentei forçar o canto, a reaproximação com a música. Não vingou. Larguei de mão.      Talvez noutra oportunidade minh'alma voltasse. Sem partitura, que não sei ler, sem instrumento porque não sei tocar nem caixinha de fósforos ou esquecendo as letras pra me deixar improvisar dizendo barbaridades. É. Talvez voltasse.      Coração apaziguado com a ideia, me detive nas lembranças das desafinações, do meu gosto eclético, de que já não aprecio mais alguns cantores... De como me iniciei na audição de musica instrument...

Mil Dias Em Veneza, Marlena de Blasi

Quando compreendi que era eu, eu mesma, quem tinha de construir a casa com as janelas douradas, pus mãos à obra. Curei dores de amor, aprendi a fazer pão, criei filhos, inventei uma vida que me proporcionava bem-estar. E agora estou escolhendo deixar essa vida para trás. Permito-me recordar meus medos avassaladores quando as crianças eram pequenas, as fases de penúria, as vezes em que pedia aos deuses mais tempo, para ser forte e ter saúde suficiente para cuidar dos meus filhos, para vê-los crescer mais um pouco. Não é isso que as mães solteiras fazem? Temos medo de que alguém mais fortes do que nós leve embora nossos bebês. Temos medo de que alguém julgue gravemente errado o trabalho e as escolhas que fazemos. Já somos exigentes o bastante com nós mesmos. E, mesmo em nossos pontos fortes, os outros apontam nossas falhas. No máximo somos parcialmente boas. Tememos a pobreza e a solidão. Uma Nossa Senhora, com crianças a seus pés. Tememos o câncer de mama. Sentimos os medos d...

Uma Véspera de Natal, Marques Rebelo

     Ventava, mas a noite era quente, luzindo estrelas por cima do recorte dos morros. O grilo cantava no meio da grama, no jardinzinho quieto.      Ele ouvia, pensativo. Quando o grilo sossegou, saiu da janela, acendeu outro cigarro, chegou-se para a poltrona onde ela se reclinava e venceu o silêncio que se prolongara.      - Não te vais vestir?      Continuou com a cabeça loura tristemente apoiada na mão, e respondeu sem entusiasmo:      - Vou. Tem tempo. Que horas são?      - Dez.      - Já?      Mostrou-lhe o relógio-pulseira, chegou-se mais e beijou-a:      - Estás triste?      Deu um suspiro, fitou-o longamente:      -Não. Por quê?      - Não sei.      Não sabia mesmo. Parecia, porém, que estava,tão distante se mostrava. Pegou-lhe na...