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Mostrando postagens com o rótulo crônica brasileira

Bons Dias, crônica de Machado de Assis

     Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.      Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.      No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendi...

Mationã, crônica de Rachel de Queiroz

     Ele chegou num avião da FAB, mandado pelos rapazes da Proteção aos Índios, numa derradeira tentativa de salvação. É um dos pouquíssimos remanescentes de uma tribo que se acaba - fala-se em meia dúzia de indivíduos - os turumais.      Mationã, o índio, tem uns oito anos; pareceia um bichinhonmoribundo quando o vi pela primeira vez, deitado num leito branco, de uma magreza espantosa, o olhar vidrado, comatoso, um gemido monocórdio lhe saindo da boca chagada de febre, a mãozinh seca feito uma garra de pássaro abrindo-se e fechando no ritmo do gemido. Segurei-lhe a mão e ele cerrou com força os meus dedos. Gemeu mais alto. Sei que saí dali chorando.      No dia seguinte passávamos pelo hospital, vimos uma luz no necrotério. O doutor ao meu lado calculou que seria o índio. Mas não era. Semana atrás semana, parecia ainda que seria ele o ocupante da sinistra capelinha; nunca se viu um ataque tão violento de febre maligna num corpinho tão débil....

A Nova Casa, crônica de Carlos Eduardo Novaes

Meu amigo Luiz está se mudando. Mês que vem deixa a casa dos 70 e de mala e cuia se muda para a casa dos 80. Luiz pretende viver uns bons anos na nova casa, mais próxima do fim da rua. Ele sabe que estou morando lá há mais de dois anos e perguntou-me se gostei da mudança. Ora, não se tratou de gostar ou não. Terminou meu tempo na casa dos 70 depois de 10 anos, e saí feliz porque podia ter sido despejado antes do final do contrato. Assim como a casa dos 20 lembra uma universidade, a casa dos 60, um posto do INSS, a casa dos 80 lembra uma clínica geriátrica. Lembrava! Quando entrei na casa a primeira surpresa foi vê-la cheia de “cabeças brancas”. Na época da minha avó alcançar a casa dos 80 era uma façanha olímpica, para poucos. A segunda e maior surpresa foi ver a “rapaziada”, pulando, malhando, correndo, namorando, como se não houvesse amanhã.  De uns anos para cá a casa dos 80 foi aumentada com vários puxadinhos, para abrigar tanta gente. E não é só! Da minha janela vejo que estã...

Agora, Fome, Não Tinha. Ziraldo ( Ziraldo para adultos - 1)

  Eu acho que o mundo era justo naquele tempo — e olha que foi ontem! Seo Zé da dona Rita morava no pé da serra — tinha uma situação lá — e criava uns porcos pro meu pai: capado à meia. Eu me lembro que ele chegava lá em casa e informava ao dono dos porcos — o capitalista — que tinha matado o porco. Nem perguntava se podia. Matava. E trazia a banda que nos cabia. Como era ele que criava o porco — numa relação de capital e trabalho — a banda melhor ficava com ele: o bucho, os miúdos, as tripas para linguiça, o sangue para murcia. O capitalista ficava com a banda lisa. Pode? Desde quando a melhor parte fica para quem trabalha? Em Caratinga, Minas, era assim, quando eu era menino e tem pouco mais de quarenta anos. Minha mãe gostava de falar dessas mudanças. Diante das tristes notícias dos jornais, ela dizia: “No meu tempo, fome era só vontade de comer”. A região onde morávamos era muito fértil mas pobre (só hoje percebo isso, pois, voltando lá, vejo a precariedade das velhas sedes das...

O Momento do Amor, crônica de carnaval de João do Rio

  Em fevereiro de 1916, o jornalista João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, mais conhecido como João do Rio, assinava através de outro pseudônimo,  Joe ,  na  Revista da Semana ,  uma crônica sobre o carnaval, dialogando com um certo conselheiro, personagem ficcional, sobre as implicações morais da festa. O Momento do Amor, Joe                                                                                                                        O conselheiro é um homem encantador. Baudelaire dizia: “Cá temos um homem que fala do seu coração – deve ser um canalha”. O conselheiro não fala do seu coração, mas é um homem sensível. Com 75 anos, teso, bem ve...

O Pé de Flamboyant, o Mosteiro e os Fantasmas, Bernadette Lyra

Convento de São Francisco - Vitória ES      Hoje estou meio que adormecida sobre o lado esquerdo do peito.O lado do coração. Mas não temam por mim, os preocupados. E os delicados que não se apoquentem. Não é nada grave, nada "da idade" como gostam de dizer aqueles que estão na tocaia, ansiosos para detectar os sinais de mazelas humanas. Nem é nada que o tempo me tenha trazido, como ele traz as dores na batata da perna quando o frio exaspera, ou o brilho de uma estrela que só na memória persiste, ou os fiapos de perfume de rosas encrespadas pelo vento do sul. É só uma lassidão que me rouba até a vontade de escrever uma crônica.      Começou com uma batida lenta nas têmporas. Fechei os olhos embalada por esse batimento secreto e deixei que o silêncio como um fruto maduro pesasse. Então tudo rutilou como dentro de um cubo de cristal invertido.      Como podem ver voc6es, que até no escuro enxergam fios pratados da literatura, é só uma lassidão, ...

Essa Eu Conheço, Leandro Karnal

 “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor.” Você sorriu e cantarolou esses versos? Provavelmente possui certa idade. Músicas revelam muita coisa da nossa trajetória e idade. Por que uma música de 1966 - que não está entre as mais elaboradas de Chico Buarque - tem o poder de me fazer sorrir? Gosto dialoga com memória, sempre. Os pratos da minha infância embasam minhas afinidades afetivas com a culinária. Minha mãe seria uma sofisticada chefe de cozinha, capaz de assombrar os grandes mestres de Paris? Não, com certeza, porém os cozinheiros franceses não me serviram feijão em um prato fumegante com um sorriso na Rua São João, em São Leopoldo (RS). Se eu tivesse sido exposto a escargots à provençal na primeira infância, teria o mesmo apreço? Não sei... Na minha infância, as lesmas nunca subiam à mesa.   Como aprendemos com Marcel Proust e sua cena famosa dos bolinhos Madeleine, o cheiro de uma comida evoca recordações e reconstró...

A Minha Salamandra, Fernando Sabino

Certa vez, escrevendo uma novela, precisei saber se  uma salamandra tinha quatro ou seis pernas. Já não me lembro em que episódio novelesco pretendia envolver as pernas da minha salamandra, mas a verdade é que precisava saber “e não fiquei sabendo.      Que sei eu a respeito de minhas próprias pernas”, pensava então, deixando que elas me levassem para outros caminhos, fora da ficção.      Um ficcionista às vezes precisa saber coisas muito esquisitas. A experiência própria nem sempre ajuda. Passei, por exemplo, a minha infância nos galhos de uma mangueira, chupando manga o dia todo, e não soube responder a um meu amigo, excelente romancista, quanto tempo levava para germinar um caroço de manga.      Contou-me ele, na época, que andou precisando saber este pormenor, em razão de uma história que estava escrevendo. Depois de perguntar a um e outro, e não obtendo senão respostas vagas, telefonou para a repartição do Ministério da Agricultura ...

Católico Apostólico Piauiense, Carlos Castelo

Fui uma criança educada sob o catolicismo apostólico piauiense. O cristianismo do Meio Norte difere do romano apenas em um aspecto: o fervor.  O que é coerente com a temperatura média do estado, sempre beirando os 40 graus. A grande mentora da minha espiritualidade foi a avó materna. Dona Alzira, pelas minhas contas, só perdeu em número de leituras da Bíblia para Johannes Gutenberg – pai do famoso Livro Sagrado produzido em tipos móveis. Fora a sua exegese bíblica, ainda havia os terços diários, os rosários apressados e os jejuns. Minha mãe reproduzia, de modo mais suave, as práticas místicas. Era devota de Santa Teresinha do Menino Jesus. E, como boa meio-nortista, com grande fervor. Nosso pastor alemão, para que o leitor tenha ideia, se chamava Tom: era xará do cachorro de Teresa de Lisieux. Era natural que eu tivesse influências das duas. Até os 11 anos, quando me perguntavam o que queria ser quando crescer, respondia, sem titubear: “papa”. Quando estava com 16 anos, em pleno M...

Meu Carnaval, Lima Barreto

     Mas fôste mesmo recrutado?      – Fui; e comi fogo que não foi graça.      – Como foi a história?      – Aproximava-se o carnaval. Como era meu costume, vim para a oficina, onde trabalhava. Eu morava em Santa Alexandrina, pelas bandas do Largo do Rio Comprido.      – Ao chegar à oficina, na Rua dos Inválidos, o mestre me disse: “Valentim, você hoje tem um serviço externo. Você vai até Caxambi, no Méier, para assentar as caixas d’água de um prédio novo.” Deu-me o dinheiro das passagens e parti. Conhecia aquela zona e, a fim de poupar níqueis, desprezei o bonde e fui a pé. Passava eu por uma rua transversal à Imperial, quando fui abordado por três ou quatro tipos fardados, do mais curioso aspecto. Eram de diversas cores, formando uma escolta, cujo comandante, um cabo, era um preto. E que preto engraçado! Desengonçado, pernas compridas e arqueadas, pés espalhados – era mesmo um macaco. A farda, blusa e calça, e...

O Amor Atrapalha o Sexo, Arnaldo Jabor

     Sábado, fui andar na praia em busca de inspiração para meu artigo de jornal. Encontro duas amigas no calçadão doLeblon. “Teu artigo sobre  amor   deu o maior auê...” – me diz uma delas. “Aquele das mulheres raspadinhas também... Aliás, que que você tem contra as mulheres que  barbeiam’ as partes?” – questiona a outra. “Nada... – respondo – acho lindo, mas não consigo deixar de ver ali nas ‘partes’ dessas moças um bigodinho sexy... não consigo evitar... Penso no bigodinho do Hitler, do Sarney – lembram um sarneyzinho vertical nas modelos nuas... Por isso, acho que vou escrever ainda sobre  sexo ...” Uma delas (solteira e lírica) me diz: “Sexo e amor são a mesma coisa...” A outra (casada e prática) retruca: “Não são a mesma coisa não...” “Sim, não, sim, não” – nasceu a doce polêmica ali à beira-mar. Continuei meu cooper e deixei as duas lindas discutindo e bebendo água-de-coco. E resolvi escrever sobre essa antiga dualidade: sexo...

Melhor Idade É A Puta Que Te Pariu, Ruy Castro

Melhor idade é a puta que te pariu – a melhor idade é de 18 aos 40 anos… A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" – algo entre os 60 anos e a proximidade da morte. Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica. Privilégios da "melhor idade" ...