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Mostrando postagens com o rótulo Modernismo

Cão Sem Plumas, João Cabral de Melo Neto (poema na íntegra)

A cidade é passada pelo rio como uma rua é passada por um cachorro; uma fruta por uma espada. O rio ora lembrava a língua mansa de um cão, ora o ventre triste de um cão, ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão. Aquele rio era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul, da fonte cor-de-rosa, da água do copo de água, da água de cântaro, dos peixes de água, da brisa na água. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. Sabia da lama como de uma mucosa. Devia saber dos polvos. Sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras. Aquele rio jamais se abre aos peixes, ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes. Jamais se abre em peixes. Abre-se em flores pobres e negras como negros. Abre-se numa flora suja e mais mendiga como são os mendigos negros. Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro. Liso como o ventre de uma cadela fecunda, o rio cresce sem nunca explodir. Tem, o rio, um parto fluente e invertebrado como o de uma cadela. E jamais o vi ...

Ode ao Burguês, Mário de Andrade

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem-feita de São Paulo! O homem-curva! o homem-nádegas! O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco! Eu insulto as aristocracias cautelosas! Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros! que vivem dentro de muros sem pulos; e gemem sangues de alguns mil-réis fracos para dizerem que as filhas da senhora falam o francês e tocam os “Printemps” com as unhas! Eu insulto o burguês-funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs! Olha a vida dos nossos setembros! Fará Sol? Choverá? Arlequinal! Mas à chuva dos rosais o èxtase fará sempre Sol! Morte à gordura! Morte às adiposidades cerebrais! Morte ao burguês-mensal! ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi! Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano! “- Ai, filha, que te darei pelos teus anos? – Um colar… – Conto e quinhentos!!! Mas nós morremos de fome!” Come! Come-te a ti mesmo, oh ge...

Sobre Mulheres Feministas do Passado... Você sabia Que...

...O mais valioso quadro brasileiro foi pintado por uma mulher? TARSILA DO AMARAL - Ela é autora da pintura brasileira mais valorizada da história, o Abaporu. Tarsila é um dos nomes centrais da primeira fase do modernismo artístico no Brasil e foi uma das responsáveis pela organização da revolucionária Semana da Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo. ABAPORU - criado por Tarsila do Amaral em 1928, encontra-se no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (MALBA) e está avaliado em US$40 milhões. O nome da tela foi dado por Oswald de Andrade (para quem a obra foi pintada) e Raul Bopp.  Segundo eles: Aba (homem) - Pora ( gente) - Ú (comer) da língua Tupi. Homem que come gente, tinha relação com o movimento antropofágico da época: Movimento Modernista. ...O primeiro livro feminista do país foi escrito lá em 1832? NISIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA- Outra precursora do feminismo no Brasil, ela é autora do mítico livro “ Direitos das Mulhe...

Hoje é dia de Volpi

       Volpi não era escritor, todos nós sabemos. Está aqui hoje porque através de Ana Maria Machado e de Nereide S. Santa Rosa / Ângelo Bonito  as crianças poderão conhecer o grande pintor ítalo-brasileiro que hoje faria 117 anos. Theozinho: quando você passar da fase de ler com os dentinhos, nós vamos ver esses dois livrinhos, palavra de Regivó,combinado?  Crianças Famosas - Volpi Autor:   Nereide Schilaro Santa Rosa Autor: Ângelo Bonito Coleção: Crianças Famosas Editora: CALLIS Era Uma Vez Três Autor: Ana Maria Machado Autor: Alfredo Volpi Coleção: Arte para criança Editora: Berlendis & Vertecch 6 Perguntas Sobre Volpi Autor: Rodrigo Naves Autor: Lorenzo Mammi Autor: Sonia Salzstein Editora: IMS Assunto: Artes - Teoria e história  (Adulto)

Juca Mulato (2) A Serenata

A Serenata 1 Canta, Juca Mulato... Ele pega na viola: seu dedo nervoso os machetes esfrola. Solta um gemido o aço vibrado como um grito de dor de um peito esfaqueado. É tão suave a canção, tão dolente e tão langue que cada nota lembra uma gota de sangue a fluir e a pingar dos lábios de uma chaga. É noite. A brisa sopra uma carícia vaga. A turba espera. O terreiro tem brilhos quando, de chapa, a lua esplende nos ladrilhos e, sentindo a paixão estuar-lhe a garganta, Juca Mulato canta: "Veio coleante, essa mágoa arrastas triste e submisso; também choro, veio dágua, sem que ninguém dê por isso... Saltas nos seixos de chofre. Choras. No mundo inclemente, só não chora quem não sofre só não sofre quem não sente... Procuras dentre os abrolhos ver o céu que astros povoaram. Eu também procuro uns olhos que nunca me procuraram... Os céus não vêem tua mágoa, nem estas ela advinha... Veio d’água, veio d’água, Tua sorte é ig...

Juca Mulato (1) Germinal

Germinal 1 Nuvens voam pelo ar como bandos de garças, Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas de ouro fosco. Num mastro, apruma-se a bandeira de São João, desfraldando o seu alvo losango. Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango, o narcótico do ar parado, esse veneno que há no ventre da treva e na alma do silêncio. Um sorriso ilumina o seu rosto moreno. No piquete relincha um poldro; um galo álacre tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre, clarina a recolher entre varas de cerdos e mexem-se ruivos bois processionais e lerdos e, num magote escuro, a manada se abisma na treva. Anoiteceu. Juca Mulato cisma. 2 Como se sente bem recostado no chão! Ele é como uma pedra, é como a correnteza, uma coisa qualquer dentro da natureza, amalgamada ao mesmo anseio, ao mesmo amplexo, a esse desejo de viver grande e complexo que tudo abarca numa força de co...