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Mostrando postagens com o rótulo faxina

Desato, poema de Viviane Mosé

É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.E não pode mexer jamais depois de a água ser posta. O alho deve fritar no óleo junto com o arroz. Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas. Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo Que não sobra um canto que não tenha sido tocado Por minhas mãos. Depois vou sujando. Com muito gosto. Deixo peças na sala e louças sujas na pia. Não na mesma hora mas um pouco Bastante depois volto limpando. Assim me faço. Nos objetos que me acompanham. Gosto de andar nas ruas e comprar coisas Que vão se arrumando em torno de mim. Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas. Uma camada de livros outra de sapatos. Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto. Tenho camadas de cosméticos e de adereços. Uma camada de nomes e de coisas que vejo. Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo. Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta. Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços. Torneiras em meus por...

Fim e Começo, poema de Wislawa Szymborska (Nobel de 1996)

Depois de cada guerra alguém tem que fazer a faxina. Colocar uma certa ordem que afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulho para o lado da estrada para que possam passar os carros carregados de corpos. Alguém tem que se atolar no lodo e nas cinzas em molas de sofás em cacos de vidro e em trapos ensanguentados. Alguém tem que arrastar a viga para apoiar a parede, pôr a porta nos caixilhos, envidraçar a janela. A cena não rende foto e leva anos. E todas as câmeras já debandaram para outra guerra. As pontes têm que ser refeitas e também as estações. De tanto arregaçá-las, as mangas ficarão em farrapos. Alguém de vassoura na mão ainda recorda como foi. Alguém escuta meneando a cabeça que se safou. Mas ao seu redor já começam a rondar os que acham tudo muito chato. Às vezes alguém desenterra de sob um arbusto velhos argumentos enferrujados e os arrasta para o lixão. Os que sabiam o que aqui se passou devem dar lugar àqueles que pouco sabem. Ou menos que pouco. E por fim nada ...

Envelheci, Regina Porto

     Minhas mãos não são delicadas e, neste momento, nem pintei as unhas.     Olhando para elas vejo manchas que chamo de sardas para creditar ao castigo do sol sobre a pele muito branquinha, a inexorável passagem do tempo. Envelheci.     Aos vinte anos, quando tudo era bonito, inclusive as mãos, fazer 50 era tão distante até parecia jamais chegar.. Chegou. Passou e é bom.      Para minha surpresa não detesto ter envelhecido. Deixar de por rímel porque tenho de tirar os óculos e, tirando, não enxergo meus cílios; ter de esquecer umas roupas que me caiam tão bem, porque a barriguinha resiste bravamente; fios brancos em meus cabelos e a imensa dificuldade de lembrar o nome daquele ator, que fez não sei qual filme com aquela atriz bonita... Nada disso incomoda.     A gente envelhece aos poucos que é para, tanto quanto possível, adaptar a mente à casa e a vida.    O rímel não me faz ...

O Bom Padeiro, Marcos Rodrigues

     N ão havia discordância. Não se consegue um padeiro casado para trabalhar numa ilha com 150 soldados. Mas o coronel Veloso insistiu; ele podia. O anúncio buscava um casal, ele padeiro e ela para serviços de limpeza. Oferecia bom salário, casa com dois cômodos e dois anos de contrato. Apareciam interessados, mas logo na entrevista, quando falavam em 150 soldados, o interesse evanescia. Sobretudo quando esclareciam que era uma companhia formada por três pelotões de 50 soldados cada. O coronel pedia que não usassem a palavra pelotão, que assusta mais que soldado, mas o pessoal esquecia. Foram dois meses seguidos de anúncio no jornal, até que apareceu o Miranda e sua mulher. Surpreendentemente seguro e resoluto. Não pestanejou, o acerto foi rápido e logo foram embarcados. De mala e cuia.      Nem bem chegaram e os pães começaram a sair daquele grande forno, deixado para trás pelos americanos. Na ilha, a vida mudou. Nem tanto pelos pães, qu...