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Mostrando postagens com o rótulo Mia Couto

O Fazedor de Luzes, conto de Mia Couto

Estou deitada, baixo do céu estreloso, lembrando meu pai. Nesse há muito tempo, nós nos dedicávamos, À noite, a apanhar frescos. O céu era uma ardósia riscada por súbitos morcegos, desses caçadores de perfumes. —Pai, eu quero ter uma estrela! —Estrela, não: é muito custosa de criar. Eu insistia. Queria possuir estrela como as outras meninas tinham brinquedos, bonecos, cachorros. Aqui, no rés da terra, eu não podia ter nada. Ao menos, lá no infirmamento, se autenticassem minhas posses. —Mas, pai: o senhor diz que faz criação de estrelas. —Fazia, tive que entregar todas. Eram dívidas, paguei com estrelas. —Eu sei que sobrou uma. Meu pai não respondia nem sim nem talvez. Era um homem vagaroso e vago, sabedor de coisas sem teor. Dedicava se a serviços anónimos, propicio a nenhum esforço. Dizia: —Sou como o peixe, ninguém me viu transpirar. E me alertava: veja o musgo, que é o modo do muro ser planta. Quem o rega, quem o aduba? Nada, ninguém. Há coisas que só paradas é que crescem. —É, minh...

O Perfume, conto de Mia Couto

- Hoje nós vamos ao baile!    Justino assim se anunciou, estendendo em suas mãos um embrulho cor de presente. Glória, sua esposa, nem soube receber. Foi ele quem desatou os nós e fez despontar do papel colorido um vestido não menos colorido. A mulher, subvivente, somava tanta espera que já esquecera o que esperava. Justino guardava ferrovias, seu tempo se amalgava, fumo dos fumos, ponteiro encravado em seu coração.  Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrara o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerremes.  O amor, afinal, que utilidade tem?    De onde o espanto de Glória, deixando esparramar o vestido sobre seu colo. Que esperava ela, por que não arranjava? O marido, parecia ter ensaiado brincadeira. Que lhe aconteceu? O homem sempre dela se enciumara, quase ela nem podia assomar à janela, quanto mais. Glória se levantou, ela e o vestido se arrastaram mutuamente para o quarto. Incrédula e sonambulenta, a...

A Praça dos Deuses, conto de Mia Couto

                  (Ao Che Amur que me contou a versão que serve de caroço a esta estória)      1926: foi o ano da data. Aconteceu a estória do comerciante Mohamed Pangi Patel, homem poderoso que despendeu vida e riqueza na Ilha de Moçambique. Comportadamente decorriam os tempos e Mohamed Pangi dava graças a Deus pela amabilidade do mundo e das suas belezas. O ismaelita vivia engordado de seu próprio nome, cheio de disposição. Mais satisfeito ele ainda se instaurou quando seu filho único lhe veio anunciar a decisão do casamento.         -Sabe, filho? A vida é um perfume!      E iniciaram os imediatos preparativos do matrimónio. Festa igual nunca mais se iria ver naquelas paragens. Vieram músicos de Zanzibar, convidados de Mombaça, gentes de Ibo e Angoche. A festa demorou trianta dias de tempo. Em cada um desses dias, a praça se cobriu de mesas, recheadas de refeiçoes. De manhã à noite, se ...

O Pecado do Rio, poema de Mia couto

Na igreja, Rosarinho se confessou: engravidei do rio, senhor padre. Com gesto de água arredondou o ventre. O padre se enrugou: ela que não usasse desculpa para os seus mortais pecados. A ofensa tremia na voz dela quando retorquiu: - Desculpe, padre, mas Nossa Senhora não emprenhou de um feixe de luz? Para mais, acrescentou Rosarinho, o senhor padre nem nunca, nem jamis viu esse rio. E rematou com lânguida saudade: aquele ondear, as tonturas que ele traz... Pegou o padre pela mão e o convidou para descer o vale. Agora, todas as noites o padre se banha nas águas do rio pecador. Mia Couto Poemas Escolhidos, cia das Letras 2016 págs. 44-45 em: págs. 44-45

Amor à Última Vista, conto de Mia Couto

     Enquanto vestia o morto, seu obituado marido, Dona Faulinha mantinha uma conveniente lágrima. Era sempre a mesma lágrima, a única que ela derramara depois que Ananias Xavier se decidira defuntar-se. Se a lágrima merecia desconfiança, o falecimento não era menos fiável. A mulher deitava dúvida em Ananias, mesmo no trespasse fatal. O homem invocara uma suspeitosa doença. Pouco contava, agora, a verdade do motivo. Certo é que a suspeita ruminava em seu peito. Na penumbra da sala, Faulinha recebia as condolências. Para efeito das visitas, ela exibia a lágrima, prova de sua tristeza, rebrilhando no fundo negro do rosto.      Quando ficou sozinha com o cadáver, Faulinha chorou de verdade. Não por pena do falecido. Mas com desgosto de não ter sido ela a levada. Com inveja de o dedo de Deus não ter revirado sua página no livro dos viventes. Que lhe restava, agora? Ser uma réstia, sobra do nada que fora sua vida? Durante o casamento nunca fora feliz. Mas ao...

Errar, poema de Mia Couto

Na escolinha, a menina, propícia a equívocos, disse: - Masculino de noiva é navio. Repreenderam, riscaram, descontaram. Mas ela estava certa. Noivados são mares de barcos pares. Em: Mia Couto (poemas escolhidos) Cia das Letras, 2016, pág. 42

O Ex-futuro Padre e Sua Pré-viúva, conto de Mia Couto

       Era o Benjamim Katikeze. Desde pequeno ele se dedicara a ausências, paralelo ao céu. Os outros brincavam, festejando os ínfimos nadas da infância. Só o Benjamim definhava na catequese, entre santos e incenso. Mesmo os pais, que lhe queria composto e ordeiro, achavam que era por demasia.      - Vai brincar, Ben, Aproveita ser criança. Mas o Benjamim,inaudiente, se desmininava. O corpo mudara, idades além. As noites desfilavam e faziam-se côncavas para proveito de rapazes e raparigas. Só as mãos do mencionado se mantinham juntas, coladas, imaculadas. O Ben seguia mais alto que as almas.      Até que um dia apareceu Anabela, anabelíssima. Era uma rebuçada, capaz de publicar desejos nos mais pacatos olhos. Anabela apaixonou-se por Benjamim. O pobre nem com isso; ao contrário, mais ainda se internava em habilidades de kongolote. A menina enviou bilhetes, mensagens mais suspiradas que biscadas. Na presença dele, Anabela se desembrulhava...

A Cantadeira, conto de Mia Couto

     Acabei a minha sessão de canto, estou triste, flor depois das pétalas. Reponho sobre meu corpo suado o vestido de que me tinha libertado. Canto sempre assim, despida. Os homens, se calhar, só me vêm ver por causa disso: sempre me dispo quando canto. Estranha-se? Eu pergunto: a gente não se despe para amar? Porque não ficar nua para outros amores? A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.      Outros cantadores, quando atuam em público, se trajam de enfeites e reluzências. Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenitinha, destamanhada. Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.      Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida. Dizem mas, para mim, a voz serve-me para outras finalidades: cantando eu convoco um certo homem. Era um a...

O Pescador Cego, conto de Mia Couto

      O Barco de cada um está em seu próprio peito  ( provérbio macúa) Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas      Tudo isto escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há essas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio.      Aconteceu em certa pescaria: Mazembe se perdeu nos senfins. A tempestade assustara o pequeno concho e o pescador se infindou, invindável. Passaram as horas, chamadas pelo tempo. Sem ...