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Mostrando postagens com o rótulo angola

Buganvilia 2, Pepetela

      Estou de férias. E é bom passar as féris na quinta.  Quando quero distrair-me vou a Luanda: são só vinte quilômetros.      Fico a ver os trabalhadores bailundos a tratar das árvores de fruta e a fazer a horta. Depois leio. Como, durmo, vejo os trabalhadores, leio. E brinco com o Lucapa. Não é uma rica vida?      No outro dia veio a Odete visitar-me. ficámos todo o dia a convesar. Ela tem um exame na segunda época, por isso não pode ir passar férias comigo. É uam pena, é a minha melhor amiga.      O António, o mais velho dos trabalhadores bailundos, trouxe-nos as primeiras goiabas. A Odete disse que na zona de Luanda nunca tinha visto goiabas tão boas. O meu pai é da mesma opinião. Vai começar a mandar vendê-las na cidade. As laranjas e as tangerinas ainda não estão maduras.      A bunganvília continua a crescer e um ramo já se agarrou a um arame do alpendre e sobe. Em breve dará flores. De que cor ser...

Buganvília 1 , Pepetela

     A buganvília continua a crescer.      Apareceu no alpendre ao lado da casa, mesmo por baixo do meu quarto e ninguém sabe como. António diz que deve ter sido cortada antes do pai comprar a quinta e ter ficado alguma raiz. Eu vi o primeiro ramito aparecer. Era tenrinho, de um verde tenrinho. Mais tarde cobriu-se de espinhos. Outro raminho surgiu e depois mais outro.      Desde o princípio, o Lucapa, o nosso pastor-alemão, tem horror à buganvília. Não é por causa dos espinhos, pois já antes de ela ter os espinhos o Lucapa a odiava. Passava de lado e ladrava para ela. Um dia tentou mesmo esmagar com as patas o único raminho que na época ela tinha. Várias folhas foram arrancadas e ficaram espalhadas pelo chão. O ramo ficou estropiado, mas sobreviveu.      O Lucapa contempla a sua impotência e ladra. Creio que protesta para um ponto qualquer no futura. Em: O Cão e os Caluandas, Pepetela, pág. 17

Adeus, poema de Ondjaki

no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma. ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma: tudo ardilhado de simplicidade. ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências. aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser emprestada. o mundo, mesmo partilhado é muito a pele de cada qual. na falta de dedos a lesma fez adeus com o corpo. e veio a chuva reaprendemos assim o lugar de nossas almas. Em: Materiais Para Confecção de Um Espanador de Tristezas, Ed. Caminho, 2009

Errar, poema de Mia Couto

Na escolinha, a menina, propícia a equívocos, disse: - Masculino de noiva é navio. Repreenderam, riscaram, descontaram. Mas ela estava certa. Noivados são mares de barcos pares. Em: Mia Couto (poemas escolhidos) Cia das Letras, 2016, pág. 42

A Piscina do Tio Victor, Ondjaki

                                                   Para o tio Víctor que nos dava prendas-do-dia. Para a "Buraquinhos"      Quando o tio Víctor chegava de Benguela, as crianças até ficavam com vontade de fugar à escola só para ir lhe buscar no aeroporto dos voos das províncias. A maka é que ele chegava sempre a horas difíceis e a minha mãe não deixava ninguém faltar às aulas.       Então era em casa, à hora do almoço, que encontrávamos o tio Víctor. E o sorriso dele, gargalhada tipo cascata e trovão também, nem dá para explicar aqui em palavras escritas. Só visto mesmo, só uma gargalhada dele já dava para nós começarmos a rir à toa, alegres, enquanto ele iniciava umas magias benguelenses.       - Isto vocês de Luanda nunca viram - abria a mala onde tinha rebuçados, chocolates ou outras prendas de encanta...

O Planalto e a Estepe, Pepetela

  Os olhos dele continham o céu do Planalto. Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere. Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da estepe mongol. Tons sobre o castaño. Entremos primeiro no azul. Os continentes são convenções, apenas existem terras separadas por mares. Nos bolsos dos seres marinhos sempre há montes de terra seca. Nós desconseguimos de chegar aos bolsos aferrolhados. Na loucura do pôr do Sol, gaivotas gritam avisando rotas. Uns poucos sabem traduzir os gritos das gaivotas. Esses chegam a terra firme. Pessoas têm vidas paralelas, seguem juntas sem se cruzarem. Outras, convergentes, acabam se encontrando num canto do mundo. Explicar a razão é gesto vazio, como cabaça depois de feita a manteiga. No entanto, na cabaça de manteiga não se faz hidromel. Nem as vacas nem as abelhas deixariam. Nem só a Lua é redonda, nem só a Lua cheia é bela. Flores existem, pássaros de cores de fogo. Pessoas têm a beleza interior atribuída aos santos. Os verdadei...

Nairobi, Odjaki

     Quando se aproximou, a mulher trazia vestida no corpo a carga de uma notícia. Eu não quis acreditar. Pensei que (eu) estivesse a ler sinais inexistentes.      Mas é sabido: há sinais inconfundíveis. Há factos que nos encontram. No mar ou no deserto. Na escuridão ou na maresia.      Havia ruído. A mulher teve o cuidado de esperar que a multidão se dissipasse. Eu sabia que não esperava nada. E quando não espero nada, posso estar muito tempo assim. Ela esperava não sei o quê. Mas esperou.      É verdade que se aproximou devagar e que esteve um largo pedaço de tempo à espera que a multidão seguisse seu destino. Não deixa de ser curioso que duas pessoas sentadas no aeroporto, e paradas, podem fazer a vez de um polícia sinaleiro ou de uma esquina. Tanto um sinaleiro como uma esquina dão caminho a multidões.      "Se não é pesado o silêncio não incomoda", começou a mulher. Disse-o como quem fala para quem quis...

Velho Caxombo Sonhou Com O Mar, José Eduardo Agualusa

  Ataque de Quissondes – um dos laboratórios experimentais do ilustre professor Carlos Eduardo Noronha de Mello e Silva Franco, na Quissama, foi completamente devastado por um ataque de formiga vermelha. Segundo o professor Silva Franco, que se encontra em Angola ao serviço da Real Sociedade Britânica de Zoologia, os quissondes devoraram uma colecção de ofídios embalsamados que lhe haviam demorado oito anos a completar. No desastre pereceu ainda o guarda do laboratório. in “A Gazeta de Loanda” de 20 de Março 1901 Na última tarde da sua vida, quando depois do costumeiro almoço de fungi e quizaca se estendeu na esteira para gozar a sesta, o velho Caxombo sonhou com o mar. Mas ao acordar já não se lembrava disso, e mesmo que se lembrasse não teria atribuído ao facto importância alguma. Para ele, que fora criado por um branco e pensava em português, o mar era apenas o mar. Assim, e até quase à hora do sol-pôr, esse dia foi para o velho Caxombo igual a todos os outros. Já há oito anos ...

O Macaco e a Viola (Histórias à Brasileira)

     Antigamente, a cutia tinha rabo mais comprido que o macaco. um dia, os dois estavam na beira da estrada conversando e o rabo dela estava estendido no chão. Veio uma charrete, passou por cima e cortou fora. A cutia ficou cotozinha e começou a chorar:      - Ai! Buá, Buá...      Tem dó       fiquei cotó.      A charrete era de um fazendeiro, que ficou com pena da coitada. E prometeu dar um saco de ouro para compensar o rabo cortado. E disse que todo dia ia mandar dar comida para ela no terreiro da fazenda. E que ia deixar uma mata inteirinha nas terras dele para a cutia correr e fuçar quanto quisesse. Ela podia passar o dia inteiro catando frutas e raízes para comer. Ninguém nunca ia caçar por lá.      A cutia topou, parou de chorar e lá se foi, toda pimpona na charrete com o fazendeiro, receber seu ouro, sua comida e sua mata.      O macaco ficou pensando naquilo. Achou que a cut...

Brincávamos a Cair Nos Braços Um do Outro, Valter Hugo Mãe

brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando, e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor. queríamos o amor um pelo outro sem hesitações, como se a desgraça nos servisse bem e, a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento e não sabíamos que a vida podia parar um dia. eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz, o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo. tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio, tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso. estavas tão  diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho. tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por...

Cuidar dos Pais, Valter Hugo Mãe

 Minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.      Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. ...

O Cão Escapa de Aparecer no Jornal, Pepetela

Imagem: Armindo Lopes      Em artigo de primeira página, ilustrado com duas fotografias, o “Jornal de Angola” informava:      “Ontem, pelas 17 horas, reinava enorme animação na Feira Popular de Luanda, pois as festividades eram destinadas aos pioneiros, por ocasião do Dia Mundial da Criança. Milhares e milhares de crianças da capital tiveram entrada gratuita e divertiam-se, quer com os carrosséis, baloiços, concursos de natação e pólo aquático, torneios de xadrez, tômbola, quer com brinquedos improvisados. Várias orquestras actuavam simultaneamente em sítios diferentes da Feira para dar maior calor e ritmo ao local. Era uma verdadeira festa para os mais novos que se manifestavam ruidosamente, como só eles o sabem fazer, marcando o fim próximo do ano escolar, regozijando ainda mais os que tiveram aproveitamento, compensando, em parte a tristeza dos muitos – infelizmente – que já não têm hipótese.      “ Foi p...