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Mostrando postagens com o rótulo hospital

Mationã, crônica de Rachel de Queiroz

     Ele chegou num avião da FAB, mandado pelos rapazes da Proteção aos Índios, numa derradeira tentativa de salvação. É um dos pouquíssimos remanescentes de uma tribo que se acaba - fala-se em meia dúzia de indivíduos - os turumais.      Mationã, o índio, tem uns oito anos; pareceia um bichinhonmoribundo quando o vi pela primeira vez, deitado num leito branco, de uma magreza espantosa, o olhar vidrado, comatoso, um gemido monocórdio lhe saindo da boca chagada de febre, a mãozinh seca feito uma garra de pássaro abrindo-se e fechando no ritmo do gemido. Segurei-lhe a mão e ele cerrou com força os meus dedos. Gemeu mais alto. Sei que saí dali chorando.      No dia seguinte passávamos pelo hospital, vimos uma luz no necrotério. O doutor ao meu lado calculou que seria o índio. Mas não era. Semana atrás semana, parecia ainda que seria ele o ocupante da sinistra capelinha; nunca se viu um ataque tão violento de febre maligna num corpinho tão débil....

O Paciente Improvável, Alonso Alvarez

         Eles não podiam perder tempo. A fila de macas era longa e interminável, dando voltas pelos corredores. Fazia calor. Noite quente de outono. ⠀⠀⠀⠀⠀Lúcio suava por debaixo da cebola. Cebola, era assim que ele chamava o traje que vestia todos os dias ao entrar no turno. Os colegas zombavam de seu excesso de proteção. Ele não ligava. Tirava dinheiro do próprio bolso para comprar EPIs numa pequena importadora de produtos chineses onde a namorada trabalhava. Vestia três proteções a cada turno. ⠀⠀⠀⠀⠀Já Orlando, colega de enfermaria, vestia o EPI padrão, fornecido pelo hospital, com a logomarca da prefeitura. Nesta noite de quarta-feira, ele estava virado, emendara o seu turno com o anterior, pois fora escalado para substituir Adriana, que havia sido internada com o teste positivo do vírus. Antes de vestir o EPI e iniciar a longa jornada de 24 horas, ele passou na capela do hospital para orar pela amiga. ⠀⠀⠀⠀⠀Estava com muita sede. Fazia horas que não bebia nem ...

Morro de Inveja dos Cronistas, Regina Porto

    Maçada fenomenal  e  acabei de ler Feliz Por Nada, na sala de espera do médico.  Se eu tivesse a habilidade da autora, daquela tarde teria feito uma crônica. Iria imaginar, o que levou cada paciente a aguardar mais de duas horas para ser atendido, se não foi a  vontade de validar o nome paciente, com que são consideradas cada pessoa que pacientemente espera...      Talvez pudesse inventar que o médico da sala 2, fosse cliente ( não paciente porque esse não espera) do médico da sala 1 onde vou ser atendida.  E como seria essa consulta?  O  mais novo explicando ao de cabelos branquinhos o que este já sabe e que aprendeu primeiro...      A moça que faz os eletrocardiogramas, afere  pressão, peso, altura e mede a circunferência da cintura comentou sobre o Ronaldinho, fenômeno: tem 107cm de circunferência e  tenta perder peso no programa domingueiro Fantástico. - Ela falou por f...

De Volta Ao Primeiro Beijo, Moacyr Scliar

  "O primeiro beijo é uma coisa muito falada. Sem dúvida é uma experiência muito marcante, inesquecível. O primeiro beijo é uma maturação, uma descoberta. Ao mesmo tempo, para alguns, ele pode ser um monstro assustador", diz o cineasta Esmir Filho, diretor de "Saliva". O filme conta como Marina, uma garota de 12 anos, é pressionada a dar o seu primeiro beijo no experiente Gustavo.      Tinha acabado de ler a matéria sobre o primeiro beijo, no pequeno apartamento em que morava desde que ficara viúvo, anos antes, quando (coincidência impressionante, concluiria depois) o telefone tocou. Era uma mulher, de voz fraca e rouca, que ele de início não identificou: - Aqui fala a Marília -disse a voz. Deus, a Marília! A sua primeira namorada, a garota que ele beijara (o primeiro beijo de sua vida) décadas antes! De imediato recordou a garota simpática, sorridente, com quem passeava de mãos dadas. Nunca mais a vira, ainda que freqüentemente a recordasse - e agor...