Às vezes eu penso que ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém abre meu fecheclér - ops, ninguém me chama de Baudelaire. Que ninguém liga pra mim. Aí me lembro de que há quem ligue, sim. Todos os dias. Alguém de São Paulo. Que me ama em segredo, em silêncio, como um rio subterrâneo, com a delicadeza sonora das girafas. Que insiste, dia após dia, mas ainda não consegue dizer o indizível, falar do seu amor infalível que todo dia a faz digitar meu número e encontrar conforto em ver meu nome no visor do telefone. Eu, insensível, fujo desse afeto impossível. Mas ela/e/o cria um novo número a cada dia. Hoje ligou do 011 3556 4850. Ontem, do 011 3215 1350. Anteontem, do 011 3201 0663. Tresantontem, do 011 2162 3051. Não sei o que vem antes do tresantontem, mas dia 20 foi do 011 97659 0484 Dia 19, do 011 5601 9732. Dia 18, do 011 3469 7700. E assim, como a águia tentando provar a Prometeu o seu insaciável desejo, como a pedra lembrando Sísifo de que há uma razão para viver, os números se...