Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo poesia brasileira.

Menino do Mato, Poema I, Manoel de Barros

Desenho de Martha Barros   I. Eu queria usar palavras de ave para escrever. Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem nomeação.  Ali a gente brincava de brincar com as palavras tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra! A Mãe que ouvira a brincadeira falou: Já vem você com suas visões! Porque formigas nem têm joelhos ajoelháveis  e nem há pedras de sacristia por aqui. Isso é traquinagem da sua imaginação. O menino tinha no olhar um silêncio de chão e na sua voz uma candura de Fontes. O Pai achava que a gente queria desver o mundo para encontrar nas palavras novas coisas de ver assim: eu via a manhã pousada sobre as margens do rio do mesmo modo que uma garça aberta na solidão de uma pedra. Eram novidades que os meninos criavam com suas palavras. Assim Bernardo emendou nova criação: Eu hoje vi um sapo com olhar de árvore. Então era preciso desver o mundo para sair daquele  lugar imensamente e sem lado. A gente queria encontrar imagens de aves abenç...

Ser Criança Em Noite de Natal, Cyl Gallindo

Tantas vezes a fadiga se desmancha na mão que faz aurora e faz orvalho e fez a vida fez o homem e faz verdade. Tantas vezes a aurora se levanta expondo as manhãs como crianças nas peripécias sutis da claridade. Tantas vezes a vida se acorda e se joga a fazer a coisa feita que para colhê-la ao homem bastaria lançar o coração feito uma rede a diluir entre nós essa parede de indiferença erguida a cada dia. Mas se os dias se vestem destes fatos dada a colheita de frutos imediatos tracemos novos rumos sem segredos que a partir dum crepúsculo universal igualitários na posse dos brinquedos sejamos crianças em Noite de Natal. Imagem: Maud Lewis

Corpo Estranho, Flora Figueiredo

Percebo um corpo estranho a me rolar pelas entranhas. Não sei bem onde está: se no peito, na garganta, se do lado esquerdo, ou do direito, ãs vezes se acomoda, às vezes se agiganta. Esse corpo estranho já perdura o tempo certo de cristalizar. Se ele veio mesmo pra ficar, me dê licença. Preciso de compressa e água benta, pois se a dor aperta, a febre aumenta, a terra esquenta sob a trilha dos meus pés. Quero também a bula detalhada para não usar a sensação de forma errada, caso isso seja um novo amor, mais uma vez. Conheça Flora Figueiredo . Outras poesias da autora, aqui Imagem: Templo Cultural Delfos

Bingo! Está Nascendo um Novo Autor

     Final do ano passado informei sobre o lançamento de um livro de poesias: Vencidas As Primaveras Insípidas ,  de Francisco Borges Neto.      Frank, como nós chamamos, é um amigo virtual e participante-fundador da comunidade Livro Errante no Orkut. Reluto em informar ou indicar  livro que ainda não li, somente por ser amiga do autor ou pelo pedido deste.  Com Francisco Borges Neto, foi diferente. Baseada nas leituras que autor fazia em nosso grupo, na forma de expressar-se e na seriedade com que entregou-se à sua primeira produção, chegando a quase desaparecer de nosso convívio, deixei de lado minha chatice, dei crédito ao jovem, pedi para anunciar o lançamento e comprei o livro.     Pedi autorização para publicar um dos poemas aqui , pouco depois de iniciar a leitura.       Não lí de imediato. Apesar de ter poucas páginas, gastei vários dias para terminar. P...

Retrospectiva 2011:a blogueira esqueceu (2) Adélia Prado

Amor Feinho Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja. Tudo que não fala, faz. Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada. Amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher. Amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança: eu quero amor feinho. Amor Feinho deveria ter sido postado em agosto e eu esqueci de programar.

Quarta-feira em poesia

Não Me Peçam Por Um Jardim Gramado   Ladyce West -   Não me peçam por um jardim gramado, Por um tapete verde, cobertor esperançoso, Alfombra ondulada que revele As curvas sensuais do meu terreno. Este sítio de sopé, Que acaba num riacho tortuoso, Borbulhante, cascateado, Ao fundo do alqueire -- Este meu domínio -- Já é sedutor suficiente, Insinuante e dissimulado, Amante insincero e encantador. Grama aparada, curtinha, fechada, Tecida na terra vermelha, Para mim é coisa estrangeira, De campo de golfe, ou de mansão inglesa. Não mostra toda a riqueza de textura, Das plantas que verdejam nossos quintais. Prefiro as forrações de terreno tropicais, Densas na trama, rebeldes, sem frescuras.