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Mostrando postagens com o rótulo Carlos Heitor Cony

Uma Carta e o Natal, Carlos Heitor Cony ( última crônica)

     Este será o primeiro Natal que enfrentaremos, pródigos e lúcidos. Até o ano passado conseguimos manter o mistério —e eu amava o brilho de teus olhos quando, manhã ainda, vinhas cambaleando de sono em busca da árvore que durante a noite brotara embrulhos e coisas. Havia um rito complicado e que começava na véspera, quando eu te mostrava a estrela onde Papai Noel viria , com seu trenó e suas renas, abarrotado de brinquedos e presentes.      Tu ias dormir e eu velava para que dormisses bem e profundamente. Tua irmã, embora menor, creio que ela me embromava: na realidade, ela já devia pressentir que Papai Noel era um mito que nós fazíamos força para manter em nós mesmos. Ela não fazia força para isso, e desde que a árvore amanhecesse florida de pacotes e coisas, tudo dava na mesma. Contigo era diferente. Tu realmente acreditavas em mim e em Papai Noel.

O Menino Das Meias Vermelhas, Carlos Heitor Cony

.                                      Ele era um garoto triste. Procurava estudar muito. Na hora do recreio ficava afastado dos  colegas, como se estivesse procurando alguma coisa.      Todos os outros meninos zombavam dele, por causa das suas meias vermelhas.       Um dia, o cercaram e lhe perguntaram porque ele só usava meias vermelhas.       Ele falou, com simplicidade: “no ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo.      Colocou em mim essas meias vermelhas. Eu reclamei. Comecei a chorar. Disse que todo mundo iria rir de mim, por causa das meias vermelhas.           Mas ela disse que tinha um motivo muito forte para me colocar as meias vermelhas. Disse que se eu me perdesse, bastaria ela olhar para o chão e quando visse um m...

Reunião de Mães, Carlos Heitor Cony

      A  Menina traz o  bilhete do  colégio: reunião das mães na quinta-feira. Assunto: tratar da primeira comunhão da turma B-74. As circunstâncias da vida - ou, segundo o poeta Drummond, os balanças da vida - haviam-no reduzido a um  estado  híbrido: pai e mãe ao mesmo  tempo.      Não há de ser nada, pensou  ele, já houve tempo pior, quando  a garota precisava ir ao  banheiro do  cinema e ele não podia levá-la ao  reservado dos homens, e, em  compensação, não podia entrar no  sagrado átrio das mulheres. O  jeito  era levar a guria até a porta e recomendá-la a alguma ocupante potencial  e responsável.      Esse tempo passara, felizmente, e a garota agora sabia se virar sozinha nessas e outras encruzilhadas, mas aí estava o  inesperado: a primeira comunhão. O consentimento já fora dado, por escrito, mas isso não  basta...