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Mostrando postagens com o rótulo desabafo

Liberta-te! Poema de Paulina Chiziane

  I Desperta! Lava os olhos no banho da liberdade Busca as tuas pegadas nas frias cinzas da História Regressar às raízes é isto: percorrer caminhos sinuosos Até descobrir o teu brilho no espelho do mundo As campanhas coloniais colocaram-te uma venda nos olhos Resiste. Não te deixes apagar e luta com o que te ofusca Reconhece-te. Estás presente em todas as maravilhas do mundo. A maior intenção da escravatura era esta Reduzir-te. Animalizar-te. Diabolizar-te O interesse do colonialismo, racismo, era este Apagar-te para que nunca te levantes do chão Reconheça-te, africano, nas religiões que dominam o mundo Na riqueza do mundo. Nas matérias-primas de todas as tecnologias Mata os fantasmas e anula o estigma com que te descrevem Que determinava a raça de Deus e o espaço geográfico da sabedoria. II Regressa às raízes e descobre-te. estuda-te Quantos escravos foram vendidos e para onde foram? Não sabes? E por que não procuras saber? Espera que os agressores te deem informação? E como te da...

Vende-se Tudo, Desapego. Marta Medeiros

No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou: - Que coisa triste ter que vender tudo que se tem. - Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida. Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa. Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convida...

Jacaré da Beira Rio, Regina Porto

      Neste ano o bloco faz 10 anos. Começou quando eu cheguei no bairro da Madalena. Era uma coisinha de nada, saía de noite dava uma voltinha por aqui. Fui atrás. Como todos os blocos do Recife, saiu sem cordão  de isolamento. Anos seguintes, descendo pras ruas mais próximas, apenas olhei sem seguir o simpático bloco, já demonstrando crescimento e aceitação dos moradores.  Nos últimos dois anos que antecederam a pandemia, deixei a cidade no carnaval. Queria sossego. Bobagem que só entendi esse ano: sossego devo buscar na semana pré que é quando tem várias festas no clube ao lado. Como hoje. Como agora ...       Há pouco, começou a passagem de som da orquestra de frevo. Ouço de casa e da janela vejo os preparativos do Parabéns pra você. Confesso, me emocionei. Eu detesto "Vassourinhas" o frevo mais recifense e conhecido fora daqui. Sim, sou chata e detesto Vassourinhas. Levanta a multidão, é atemporal, abre sorrisos. Mas não mexe comigo. Pois é. ...

Quadrinha de António Aleixo dedicada a Salazar. (Mas válida para tantos...)

Esta quadrinha foi escrita pelo autor em 1945, quando Salazar em Portugal prometeu "eleições tão livres como na livre Inglaterra". Ao sentir tremer o trono, P'ra o mundo não fez segredo: Prometeu, talvez por medo, Que dava o seu a seu dono Este sujeito é capaz De nos fazer mil promessas... Mas faz-nos tudo às avessas Das promessas que nos faz! Mas eu não sou quem procuras... Sei, contra tua vontade, Que me mentes, quando juras Que me dizes a verdade. Prometem ao Zé Povinho Liberdade, Lar e Pão... Como se o mundo inteirinho Não soubesse o que eles são. Em: "Inéditos", António Aleixo Ed. de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta), Loulé 1978 Fonte: Uivemos Juntos Imagem: estátua  em frente ao Bar Calcinha frequentado pelo autor, na cidade de Loulé, no Algarve.

Melhor Idade É A Puta Que Te Pariu, Ruy Castro

Melhor idade é a puta que te pariu – a melhor idade é de 18 aos 40 anos… A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" – algo entre os 60 anos e a proximidade da morte. Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica. Privilégios da "melhor idade" ...

Confidência de Um Itabirano, Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil, este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! Imagem: sobrado onde C.D.A viveu até os 13 anos de idade.

O Poço da Panela, Olegário Mariano

 Igreja Nsa.Sra. da Saúde no Poço da Panela - Imagem: Regina Porto Num remanso bucólico e sombrio Onde atenua a marcha o grande rio, À sombra de recurvas ingàzeiras, Batem roupa,cantando as lavadeiras. Trago ainda nos olhos: é bem ela, A Paisagem do Poço da Panela: A igreja, a casa grande,as gameleiras E ao fundo o pátio verde e as ribanceiras que afagam, num lúbrico arrepio, A corpo adolescente e alvo do rio. Do outro lado da margem - capinzais Da olaria e do sítio de Morais. Morais Pilôto - um português antigo, Compadre de meu Pai, seu grande amigo, A quem seguia como um cão de fila Através da política intranqüila. Homens, éramos dois. Completamente Diferentes em tudo.Eu, manso e doente, Meu irmão insubmisso e insuportável Como um potrinho de expressão saudável Cometendo distúrbios... Meu irmão Levava surras como um boi ladrão. Mas vingava-se em mim. O quanto eu tinha Era nas suas mãos como farinha. Animais de madeira, leões, camelos, Até a minha coleção de selos Êle queimou...