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Mostrando postagens com o rótulo Ednice Peixoto

Cansaço, conto de Ednice Peixoto

      Joga o sapato e se perde. O cansaço impregna até o ar que respira. A toalha molhada lhe enxuga o corpo aquecendo as lágrimas que durante todo o dia conteve. Nua e descalça estira a alma na cama. Fecha os olhos, abrindo-se para um mar calmo, nuvens ao longe, gaivotas pousando sobre um passadiço de navio que somente sua imaginação vê. Besteira. De repente, sobressaltada, pula da cama. Abre a bolsa, tira a chave. Abre a vida e se joga. Em: Vidas de Algodão, Ednice Peixoto.

Trânsito,conto de Ednice Peixoto

     Obrigado a parar no sinal. Está atrasado como sempre, impacienta-se porque não vê carro nenhum no cruzamento, a presença da câmara o impede de continuar, cortar o sinal para compensar o atraso de ter acordado tarde. Um carro prateado para ao seu lado. Percebe uma mulher na direção e tem a impressão de ver asas. O sinal não abre, escuta o bater de uma porta e estranha. Olhando em direção ao carro de antes, não encontra mulher alguma, apenas um casaco preto repousa no banco do motorista. Tenta olhar em todas as direções, mas o cinto de segurança lhe impede os movimentos. Vira-se e destrava o cinto no mesmo instante em que o sinal abre. No para-brisa do carro, a mulher ergue a mão, estilhaça o vidro e o leva em direção ao céu.

Recomendo: Vidas de Algodão, contos de Ednice Peixoto

     Em dezembro fiz uma pequena viagem muito valiosa:  revi a encantadora Natal (RN) e estive no lançamento do livro de Ednice Peixoto, que eu só conhecia virtualmente.        Comecei assim, mas não vou falar da capital potiguar. Vim falar de Vidas de Algodão que comecei a ler ainda no hotel e terminei em casa:  São 39 contos que a autora selecionou entre os tantos que escreveu ao longo dos anos e que resolveu, agora sem timidez, mostrar ao público.        O livro caiu bem com o que gosto. Contos fáceis de ler, sem finais óbvios nem elaborados... nada do que chamo "sessão da tarde".  Conto realista, triste, engraçada, do tipo "nada a ver" como dizem os mais jovens. Ednice, que conheci grande leitora no velho e querido Orkut, sempre soube, escrevia muito bem.  Acho que ela também sabia disso, mas só recentemente perdeu a timidez e resolveu se lançar. Fez muito bem! Vidas de Algodão é um livro que eu rec...

Nada Mais, conto de Ednice Peixoto ( Novos Talentos )

O primeiro objeto que Rita encontrou foi um par de brincos sob o travesseiro. Duas argolas prateadas. Não se assustou. Certamente Mariana, sua sobrinha de dez anos, tinha deixado os brincos ali na hora de brincar de gente grande. Colocou-os na estante para devolver, não sem antes fazer Mariana entender que não apressasse o tempo da infância. Domingo na hora de ir à missa, ao procurar o rosário, encontrou na gaveta um sutiã vermelho um número menor que o seu. Do sutiã vinha um perfume de sândalo misturado a cheiro de bebida que uma mancha bem no peito não deixava dúvida. Chateada, porque aquela coisa escarlate deveria ser de Rosana, a irmã destrambelhada que tem, jogou o sutiã sobre o cabide para entregar depois. Ao acordar naquela segunda-feira, a cabeça lhe dói como bebedeira de véspera. Mas nada bebera além das duas taças de vinho, quantidade mínima para provocar tamanho enfado. A dor, a água fria do banho alivia o suficiente para se apresentar à mesa, onde todos se encontram, esmiu...

Minhas Leituras de 2025

Três escritoras brasileiras que me deram orgulho. Seus  livros  são: Meu Nome É Meu , Natascha Duarte  São contos inteligentes e de fácil leitura. Natascha tem uma escrita leve e muito agradável. Lançado pela editora Urutau, pode ser adquirido clicando aqui Siga Natascha Duarte no Intagram O Lugar Das Coisas Possíveis , Nadezhda Bezerra  Minha segunda leitura dessa autora formidável.  O Lugar das Coisas Possíveis é um livro de crônicas cotidianas, doces e bem escritas. O livro pode ser adquirido pela Editora Ópera Siga a autora no Instagram Vidas de Algodão , Ednice Peixoto Primeiro livro dessa formidável escritora potiguar, lançado em dezembro em Natal. São 49 contos bem trabalhados. Uns são realistas outros nem tanto. Todos, porém,  sem finais previsíveis. Leitura muito agradável e que eu recomendo. Siga a autora no Instagram O Lugar das Coisas Possíveis,Nadezhda Bezerra Vidas de Algodão, Ednice Peixoto

Eu Conto Um Conto Por Semana - 6

RENDIÇÃO Ednice Peixoto      Mal percebe as pessoas a sua volta. A alta umidade acentua a sensação claustrofóbica da sala abarrotada de flores. Olha em torno e vê tudo através de densa névoa. A sensação de flutuação permanece como se estivesse prestes a cair. De repente, lembra-se: há oito horas que não ingere nada sólido, um açude de dor alimentando sua vida sedenta, insalubre e insípida. Uma mosca bate-lhe no rosto e num aceno rápido tenta alcançar-lhe, afastando-a. Inútil. A mão não obedece ao seu comando, dormentemente assentada sobre o peito. Tentando movimentar o braço, de repente as lembranças lhe jogam a um passado que pensara esquecido.A sopa esfria sem fome depois que a mosca sentara na beira do prato insinuando-se sem pudor. Toma o café, escolhendo o pão mais queimado da cesta sobre a mesa. Todos à mesa calados, exceto o pai. Os irmãos não ousam nada dizer, a mãe ocupa-se em dar colheradas à irmã menor que mal alcança a altura da mesa. O pai seguind...