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Mostrando postagens com o rótulo Ilusões do mundo

Os Cães da Aclimação, Cecília Meireles

     A primeira noite que passei nestes arredores da Aclimação foi uma noite de assombros. Descobri que havia verão em São Paulo: que a cidade da garoa desaparecera; que aqui, como no Rio, se podia sentir um calor sufocante, sob um céu sem promessas de chuva. Mas o assombro maior seria mais tarde, quando depois do apito do guarda-noturno, levantou-se nos ares um enorme alarido de cães, alarido que, a princípio, parecia uma simples exibição de vozes, um ensaio de sons, como quando as orquestras experimentam seus instrumentos - e que pouco a pouco se foi acomodando em lugares determinados, separando  essa espécie de sopranos, contraltos, tenores e barítonos, quem sabe sob a reg6encia de um maestro invisível.      Eram vozes extremamente numerosas e de qualidades variadíssimas; umas para efeito profundos e solenes; outras leves e fúteis, risonhas e brincalhonas. E, entre esses dois pólos, elevam-se as de timbre sentimental  e aveludado, as metálicas ...

Depois do Carnaval, Cecília Meireles

          Terminado o carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.      À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.      Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pesso...