A primeira noite que passei nestes arredores da Aclimação foi uma noite de assombros. Descobri que havia verão em São Paulo: que a cidade da garoa desaparecera; que aqui, como no Rio, se podia sentir um calor sufocante, sob um céu sem promessas de chuva. Mas o assombro maior seria mais tarde, quando depois do apito do guarda-noturno, levantou-se nos ares um enorme alarido de cães, alarido que, a princípio, parecia uma simples exibição de vozes, um ensaio de sons, como quando as orquestras experimentam seus instrumentos - e que pouco a pouco se foi acomodando em lugares determinados, separando essa espécie de sopranos, contraltos, tenores e barítonos, quem sabe sob a reg6encia de um maestro invisível. Eram vozes extremamente numerosas e de qualidades variadíssimas; umas para efeito profundos e solenes; outras leves e fúteis, risonhas e brincalhonas. E, entre esses dois pólos, elevam-se as de timbre sentimental e aveludado, as metálicas ...