Dava gosto morar na rua Santa Gata. No tempo em que a palavra “bucólico” ainda estava em uso, aplicava-se perfeitamente àquele trecho da cidade: três quarteirões arborizados, casas cheirando a jasmim e sossego. O gato Ismael, “propriedade” coletiva dos moradores, orgulhava-se por ter uma irmã em pelo e gaticidade elevada ao panteão das almas sem mácula. Gata milagreira, a quem os humanos atolados “neste vale de lágrimas” encaminhavam súplicas. Contritos, os residentes pronunciavam a jaculatória: “Santa Gata, rogai por nós”. Ismael fazia o mesmo, em miaus fervorosos, antes das escapadas por becos, muros e telhados, no período da noite avançada que os ingleses chamam “ungodly hours” – horas sem reverência a Deus. Sua devoção o protegia de atropelamentos, quedas, chutes, balas perdidas, comida envenenada. Salve, Santa Gata, irmã de misericórdia e esperança nossa. Salve! Um espírito de porco – pois espírito de ga...
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