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Mostrando postagens com o rótulo literatura africana

Buganvília 1 , Pepetela

     A buganvília continua a crescer.      Apareceu no alpendre ao lado da casa, mesmo por baixo do meu quarto e ninguém sabe como. António diz que deve ter sido cortada antes do pai comprar a quinta e ter ficado alguma raiz. Eu vi o primeiro ramito aparecer. Era tenrinho, de um verde tenrinho. Mais tarde cobriu-se de espinhos. Outro raminho surgiu e depois mais outro.      Desde o princípio, o Lucapa, o nosso pastor-alemão, tem horror à buganvília. Não é por causa dos espinhos, pois já antes de ela ter os espinhos o Lucapa a odiava. Passava de lado e ladrava para ela. Um dia tentou mesmo esmagar com as patas o único raminho que na época ela tinha. Várias folhas foram arrancadas e ficaram espalhadas pelo chão. O ramo ficou estropiado, mas sobreviveu.      O Lucapa contempla a sua impotência e ladra. Creio que protesta para um ponto qualquer no futura. Em: O Cão e os Caluandas, Pepetela, pág. 17

Amor à Última Vista, conto de Mia Couto

     Enquanto vestia o morto, seu obituado marido, Dona Faulinha mantinha uma conveniente lágrima. Era sempre a mesma lágrima, a única que ela derramara depois que Ananias Xavier se decidira defuntar-se. Se a lágrima merecia desconfiança, o falecimento não era menos fiável. A mulher deitava dúvida em Ananias, mesmo no trespasse fatal. O homem invocara uma suspeitosa doença. Pouco contava, agora, a verdade do motivo. Certo é que a suspeita ruminava em seu peito. Na penumbra da sala, Faulinha recebia as condolências. Para efeito das visitas, ela exibia a lágrima, prova de sua tristeza, rebrilhando no fundo negro do rosto.      Quando ficou sozinha com o cadáver, Faulinha chorou de verdade. Não por pena do falecido. Mas com desgosto de não ter sido ela a levada. Com inveja de o dedo de Deus não ter revirado sua página no livro dos viventes. Que lhe restava, agora? Ser uma réstia, sobra do nada que fora sua vida? Durante o casamento nunca fora feliz. Mas ao...

Dançar, Paulina Chiziane

  "Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar. A vida é uma grande dança." Conheça Paulina Chiziane: Proverbio, o poder da palavra Leia Paulina Chiziane: Balada de Amor ao Vento O Alegre Canto da Perdiz Niketche Ventos do Apocalipse O Canto As Andorinhas

O Ex-futuro Padre e Sua Pré-viúva, conto de Mia Couto

       Era o Benjamim Katikeze. Desde pequeno ele se dedicara a ausências, paralelo ao céu. Os outros brincavam, festejando os ínfimos nadas da infância. Só o Benjamim definhava na catequese, entre santos e incenso. Mesmo os pais, que lhe queria composto e ordeiro, achavam que era por demasia.      - Vai brincar, Ben, Aproveita ser criança. Mas o Benjamim,inaudiente, se desmininava. O corpo mudara, idades além. As noites desfilavam e faziam-se côncavas para proveito de rapazes e raparigas. Só as mãos do mencionado se mantinham juntas, coladas, imaculadas. O Ben seguia mais alto que as almas.      Até que um dia apareceu Anabela, anabelíssima. Era uma rebuçada, capaz de publicar desejos nos mais pacatos olhos. Anabela apaixonou-se por Benjamim. O pobre nem com isso; ao contrário, mais ainda se internava em habilidades de kongolote. A menina enviou bilhetes, mensagens mais suspiradas que biscadas. Na presença dele, Anabela se desembrulhava...

O Perigo de Uma História Única, Chimamanda Ngozi Adichie ( amostra do livro)

Sou uma contadora de histórias. Gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que gosto de chamar "o perigo de uma história única".      Passei a infância num campus universitário no leste da Nigéria. Minha mãe diz que comecei a ler aos dois anos de idade, embora eu ache que quatro deva estar mis próximo da verdade. Eu me tornei leitora cedo, e o que lia eram livros infantis britânicos e americanos.      Também me tornei escritora cedo. Quando comecei a escrever, lá pelos sete anos de idade- textos escritos a lapis com ilustrações feitas com giz de cera que minha pobre mãe era obeigada a ler -, escrevi exatamente o tipo de história que lia: todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis, brincavam na neve, comiam maçãs e falavam muito sobe o tempo e sobre como era bom o sol ter saído.      Escrevia sobre isso apesar de eu morar na Nigéria. Eu nunca tinha saído do meu país. Lá, não tinha neve, comíamos mangas e nunca fal...

O Pescador Cego, conto de Mia Couto

      O Barco de cada um está em seu próprio peito  ( provérbio macúa) Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas      Tudo isto escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta. Por causa de Maneca Mazembe, o pescador cego. Deu-se o caso de ele vazar os ambos olhos, dois poços bebidos pelo sol. Maneira como perdeu as vistas é assunto de acreditar. Há essas estórias que, quanto mais se contam, menos se conhece. Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio.      Aconteceu em certa pescaria: Mazembe se perdeu nos senfins. A tempestade assustara o pequeno concho e o pescador se infindou, invindável. Passaram as horas, chamadas pelo tempo. Sem ...

Mayombe, Pepetela (10 primeiras páginas)

  A Missão       O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, tinha escorregado numa pedra e esfolara profundamente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera:       — Somos dezasseis. Ficaremos catorze.       Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente. De mau grado, o Comandante deu ordem de avançar. Vinha por vezes juntar-se a Teoria, que caminhava em penúltima posição, para saber como se sentia. O professor escondia o sofrimento. E sorria sem ânimo.       À hora de acampar, alguns combatentes foram procurar lenha seca, enquanto o Comando se reunia. Pangu-Akitina, o enfermeiro, aplicou um penso no ferimento do professor. O joelho estava muito inchado e só com grande esforço ele podia avançar.       Aos ...

O Planalto e a Estepe, Pepetela

  Os olhos dele continham o céu do Planalto. Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere. Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da estepe mongol. Tons sobre o castaño. Entremos primeiro no azul. Os continentes são convenções, apenas existem terras separadas por mares. Nos bolsos dos seres marinhos sempre há montes de terra seca. Nós desconseguimos de chegar aos bolsos aferrolhados. Na loucura do pôr do Sol, gaivotas gritam avisando rotas. Uns poucos sabem traduzir os gritos das gaivotas. Esses chegam a terra firme. Pessoas têm vidas paralelas, seguem juntas sem se cruzarem. Outras, convergentes, acabam se encontrando num canto do mundo. Explicar a razão é gesto vazio, como cabaça depois de feita a manteiga. No entanto, na cabaça de manteiga não se faz hidromel. Nem as vacas nem as abelhas deixariam. Nem só a Lua é redonda, nem só a Lua cheia é bela. Flores existem, pássaros de cores de fogo. Pessoas têm a beleza interior atribuída aos santos. Os verdadei...

Tudo de Bom Vai Acontecer, Sefi Atta

De início eu acreditava em tudo o que me diziam sobre bom comportamento, até mesmo em mentiras deslavadas, embora tivesse meus próprios critérios. Em uma idade na qual as outras meninas nigerianas gostavam de brincar de ten-ten - brincadeira típica em que as crianças batem com os pés no chão em movimento ritmado e tentam vencer os adversários com joelhadas inesperadas -, minha distração favorita era ficar sentada no pequeno deque e fingir que estava pescando. Mas detestava quando minha mãe gritava da janela da cozinha, "Enitan, venha me ajudar aqui". Era obrigada a voltar correndo para casa.     Nós morávamos junto à lagoa de Lagos. Nossa propriedade tinha uma área de pouco mais de mil metros quadrados, limitada por uma cerca de madeira com farpas que machucavam os dedos. Eu brincava despreocupadamente só do lado oeste do quintal, pois o leste dava para mangue do parque Ikoui, onde já vi uma cobra-d'água. Os dias eram quentes, lembro-me bem, ensolarados e com pouca brisa....

À Reconquista, Agostinho Neto.

Não te voltes demasiado para ti mesma Não te feches no castelo das lucubrações infinitas Das recordações e sonhos que podias ter vivido Vem comigo África de calças de fantasia desçamos à rua e dancemos a dança fatigante dos homens o batuque simples das lavadeiras ouçamos o tam-tam angustioso enquanto os corvos vigiam os vivos esperando que se tornem cadáveres vem comigo África dos palcos acidentais descobrir o mundo real onde os milhões se irmanam na mesma miséria atrás das fachadas de democracia de cristianismo de igualdade Vem comigo África de colchões de molas e reentremos na casinha de latas esquecidas no musseque da Boavista até onde já nos empurram ao nos quebrarem as casas de meia água de Cayette e à volta de fogo consolador das nossas aspirações mais justas examinaremos a injustiça inoculada no sistema vivo em que giramos. Vem comigo África de colchões de esmola regressemos à nossa África onde temos um pedaço da nossa carne calcado sob as botas dos magala – a nossa África Vem c...