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Mayombe, Pepetela (10 primeiras páginas)

 


A Missão 

     O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, tinha escorregado numa pedra e esfolara profundamente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera:

      — Somos dezasseis. Ficaremos catorze. 

     Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente. De mau grado, o Comandante deu ordem de avançar. Vinha por vezes juntar-se a Teoria, que caminhava em penúltima posição, para saber como se sentia. O professor escondia o sofrimento. E sorria sem ânimo.

      À hora de acampar, alguns combatentes foram procurar lenha seca, enquanto o Comando se reunia. Pangu-Akitina, o enfermeiro, aplicou um penso no ferimento do professor. O joelho estava muito inchado e só com grande esforço ele podia avançar. 

     Aos grupos de quatro, prepararam o jantar: arroz com corned-beef. Terminaram a refeição às seis da tarde, quando já o Sol desaparecera e a noite cobrira o Mayombe. As árvores enormes, das quais pendiam cipós grossos como cabos, dançavam em sombras com os movimentos das chamas. Só o fumo podia libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas e as lianas, dispersando-se rapidamente no alto, como água precipitada por cascata estreita que se espalha num lago. 

     Eu, O Narrador, Sou Teoria. 

    Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não, para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta. 

     O Comissário Político, alto e magro como Teoria, acercou-se dele. — O Comando pensa que deves voltar ou esperar-nos aqui. Dentro de três dias estaremos de volta. Ficará alguém contigo. Ou podes tentar regressar à Base aos poucos. 

     Depende do teu estado. 

    O professor respondeu sem hesitar:

   — Acho que é um erro. Posso ainda andar. Temos pouca gente, dois guerrilheiros a menos fazem uma diferença grande. O plano irá por água abaixo.

    - É pouco, mas talvez chegue.

    — Posso discutir com o Comando?

     — Vou ver. 

   O Comissário voltou para junto do Comandante e do Chefe de Operações. Momentos depois, fazia sinal a Teoria. O professor levantou-se e uma dor aguda subiu-lhe pelo joelho até ao ventre. Sentiu que não poderia ir muito longe. A escuridão relativa escondia-lhe as feições e ninguém se apercebeu da careta. Procurou andar normalmente e aproximou-se dos três responsáveis. 

     O Comandante Sem Medo contemplou-o fixamente, enquanto o professor se sentava, gritando calado para esconder as dores insuportáveis. Estou arrumado, pensou. 

    — É inútil armares em forte – disse Sem Medo. – Topa-se bem que estás à rasca, embora tentes esconder. Não vejo qual é o mal de reconheceres que não podes continuar. Serás um peso-morto para nós. 

     Teoria esboçou um gesto de irritação. 

     — Eu é que sei como me sinto. Afirmo que posso continuar. Já fui tratado e amanhã melhoro. É evidente que nada está partido, é só um esfolamento sem gravidade. Mesmo o perigo de infecção está afastado. 

     — Se amanhã encontramos o inimigo – disse o Comissário – e for necessário retirar rapidamente, tu não poderás correr. 

     — Querem que corra aqui para provar que poderei?

     — Sou contra a tua participação – repetiu o Comissário. – Não vale a pena insistir. 

    O Chefe de Operações contemplava as sombras das árvores, deitado na lona. Ouvia a conversa dos outros, pensando na chuva que iria cair dentro de momentos e na casa quente de Dolisie, com a mulher a seu lado. 

     — É evidente que a razão objetiva está do lado do Comissário – disse o Comandante. 

     — No entanto, eu compreendo o camarada Teoria... Por mim, se ele acha que pode continuar, não me oponho. Mas objetivamente, o Comissário tem razão...

     — E subjetivamente? – perguntou o Comissário. 

     — Subjetivamente... sabes? Há vezes em que um homem precisa de sofrer, precisa de saber que está a sofrer e precisa de ultrapassar o sofrimento. Para quê, porquê? Às vezes, por nada. Outras vezes, por muita coisa que não sabe, não pode ou não quer explicar. Teoria sabe e pode explicar. Mas não quer, e acho que nisso ele tem razão. 

     — O problema é que se trata duma operação de guerra e não dum passeio. Num passeio, um tipo pode agir contra toda a razão, só porque lhe apetece ir pela esquerda em vez de ir pela direita. Na guerra não tem esse direito, arrisca a vida dos outros... 

   — Neste caso? Não, aqui só arrisca a sua, e mesmo isso... Sei que se for necessário bater o xangui, Teoria parecerá um campeão. Não tem a perna partida, também não exageremos. O enfermeiro diz que a coisa não é grave, só dolorosa. Passará depressa. 

     Porque não dar-lhe uma possibilidade? 

     — Mas possibilidade de quê? Isso é que não compreendo! 

     — Pois não! Possibilidade de... sei lá! Ele é que sabe. Mas com certeza não quererá dizer, e concordo com ele. O camarada Teoria tinha duas hipóteses: ir ou não ir. Escolheu a primeira. Talvez mal, talvez sem muito refletir, mas escolheu. E ele é homem para não voltar atrás na sua escolha. Se foi por teimosia ou não, isso só ele o sabe. O que sei é que os homens teimosos são-no geralmente até ao fim, sobretudo quando há um risco. Se quer partir a cabeça, se escolheu partir a cabeça, devemos dar-lhe a liberdade de partir a cabeça. 

     Isso é liberalismo! 

     — Lá vens tu com os palavrões! É possível que seja liberalismo. Mas eu não sou Comissário Político. É a ti que compete politizar-nos e defender a posição política justa. 

     Posso ser liberalista de vez em quando, pois tenho-te sempre como anjo-da-guarda para me guiar. 

    O Comissário sorriu. Dez anos mais velho do que ele, o Comandante comportava-se agora como um miúdo para desviar a discussão. Era claro que Sem Medo já tinha uma ideia na cabeça. 

     — E tu, camarada Chefe das Operações, o que pensas? – perguntou o Comandante. 

     — Penso que tem razão – respondeu distraidamente o outro. 

     — Bem, estou em minoria – disse o Comissário. 

     –  A responsabilidade é tua, Comandante. Espero que não suceda nada. 

     — Mais uma ou menos uma responsabilidade! – disse Sem Medo. 

     — Nada sucederá – replicou Teoria, sem saber se devia estar contente ou não: não se perguntara. 

     O Chefe de Operações adormeceu. Teoria foi deitar-se. Em breve acordariam com a chuva miudinha que primeiro só molharia a copa das árvores e começaria a cair das folhas quando já tivesse parado de chover. Tal é o Mayombe, que pode retardar a vontade da Natureza. 

  O professor pouco dormiu. A perna molhada doía-lhe atrozmente. Para que insistira? A sua participação não modificaria em nada as coisas. Sabia que não era um guerrilheiro excepcional, nem mesmo um bom guerrilheiro. Mas insistira. 

     Era o seu segredo. Da mesma maneira que impusera ao Comando a obrigatoriedade de ele fazer guarda como os outros guerrilheiros, embora o seu posto de professor da Base o libertasse dessa tarefa. Teoria era mestiço e hoje já ninguém parecia reparar nisso. Era o seu segredo. Segredo doloroso, de que o Comissário se não apercebia, de que o Chefe de Operações se não interessava. Só Sem Medo, o veterano da guerra e dos homens, adivinhara. 

     Sem Medo, guerrilheiro de Henda. Antes chamava-se Esfinge, ninguém sabia porquê. Quando foi promovido a Chefe de Seção, os guerrilheiros deram-lhe o nome de Sem Medo, 7 por ter resistido sozinho a um grupo inimigo que atacara um posto avançado, o que deu tempo a que a Base fosse evacuada sem perdas. Uma das muitas operações em que rira do inimigo, sobre ele lançando balas, gracejos e insultos.

     Teoria sentia que o Comandante também tinha um segredo. Como cada um dos outros. E era esse segredo de cada um que os fazia combater, frequentemente por razões longínquas das afirmadas. Porquê Sem Medo abandonara o curso de Economia, em 1964, para entrar na guerrilha? Porquê o Comissário abandonara Caxito, o pai velho e pobre camponês arruinado pelo roubo das terras de café, e viera? Talvez o Comissário tivesse uma razão mais evidente que os outros, sim. Porquê o Chefe de Operações abandonara os Dembos? Porquê Milagre abandonara a família? Porquê Muatiânvua, o desenraizado, o marinheiro, abandonara os barcos para agora marchar a pé, numa vida de aventura tão diferente da sua? E porquê ele, Teoria, abandonara a mulher e a posição que podia facilmente adquirir? Consciência política, consciência das necessidades do povo! Palavras fáceis, palavras que, no fundo, nada diziam. Como age em cada um deles essa dita consciência?

     Os companheiros começavam a mexer-se, despertando, e o professor não tinha afastado esses pensamentos. O Mayombe não deixava penetrar a aurora, que, fora, despontava já. As aves noturnas cediam o lugar no concerto aos macacos e esquilos. E as águas do Lombe diminuíam de tom, à espera do seu manto dourado. À frente, descendo o Lombe, a menos de um dia de marcha, devia estar o inimigo.

       Eu, O Narrador, Sou Teoria. 

     Manuela sorriu-me e embrenhou-se no mato, no mato denso do Amboim, onde despontava o café, a riqueza dos homens. O café vermelho pintava o verde da mata. Assim Manuela pintava a minha vida.

     Manuela, Manuela onde estás tu hoje? Na Gabela? Manuela da Gabela, correndo no mato do Amboim, o mato verde das serpentes mortais, como o Mayombe, mas que pare[ce] o fruto vermelho do café, riqueza dos homens. 

    Manuela, perdida para sempre. Amigada com outro, porque a deixei, porque Manuela não foi suficientemente forte para me reter no Amboim e eu escolhi o Mayombe, as suas lianas, os seus segredos e os seus exilados. 

     Perdi Manuela para ganhar o direito de ser «talvez», café com leite, combinação, híbrido, o que quiserem. Os rótulos pouco interessam, os rótulos só servem os ignorantes que não veem pela coloração qual o líquido encerrado no frasco. 

     Entre Manuela e o meu próprio eu, escolhi este. Como é dramático ter sempre de escolher, preferir um caminho a outro, o sim ou o não! Porque no Mundo não há lugar para o talvez? Estou no Mayombe, renunciando a Manuela, com o fim de arranjar no Universo maniqueista o lugar para o talvez.

     Fugi dela, não a revi, escolhi sozinho, fechado em casa, na nossa casa, naquela casa onde em breve uma criança iria viver e chorar e sorrir. Nunca vi essa criança, não a verei jamais. Nem Manuela. A minha história é a dum alienado que se aliena, esperando libertar-se.

      Criança ainda, queria ser branco, para que os brancos me não chamassem negro. Homem, queria ser negro, para que os negros me não odiassem. Onde estou eu, então? E Manuela, como poderia ela situar-se na vida de alguém perseguido pelo problema da escolha, do sim ou do não? Fugi dela, sim, fugi dela, porque ela estava a mais na minha vida; a minha vida é o esforço de mostrar a uns e a outros que há sempre lugar para o talvez.

     Manuela, Manuela, amigada com outro, dando as suas carícias a outro. E eu, aqui, molhado pela chuva-mulher que não para, fatigado, exilado, desesperado, sem Manuela. 

     Sem Medo foi lavar-se perto do Comissário. Admirou o torso esguio mas musculado do outro. 

     — Estás em forma. Eu começo a ficar com barriga. 

     — É a vida do exterior – disse o Comissário. 

     – Há quase seis meses que não fazes uma ação... O que me chateia é avançar sem saber ao certo o que se vai fazer. O plano não me agrada. O Comandante sentou-se numa pedra. — Esperemos que o Das Operações tenha razão. Ele é que fez o reconhecimento.

     — Reconhecimento! – disse o Comissário. – Desceu o rio, encontrou a picada de exploração de madeira. Chamas a isso um reconhecimento? Nem sequer sabe se os tugas têm tropa na exploração.

      — Vamos saber agora. O que é preciso é começar. Metemos a Base no interior, já foi um passo em frente. Acabada a guerra de fronteira! Agora vamos estudando as coisas no terreno e decidindo aos poucos. De qualquer modo, esta operação está dentro das tuas teorias: ação política mais que militar. Não sei de que te queixas... 

     — Não é isso, Comandante. Se impedirmos essa exploração de continuar a roubar a nossa madeira, é um golpe económico dado ao inimigo, está porreiro. Além disso, vamos atacar num sítio novo, o que é bom em relação ao povo, que nem sequer pensa em nós... pelo menos, aparentemente. Mas é o lado militar que me preocupa. Não sabemos onde está o inimigo e qual o seu efetivo. Somos tão poucos que não podemos permitir-nos o luxo de sermos surpreendidos. Nenhuma outra vitória justifica essa derrota.

     O Comandante ensaboou a cara e mergulhou-a na água fresca do rio. Depois ficou a observar os primeiros peixes que apareciam. 

      — Como sempre, tens razão. Pois é esse lado ignorado da operação que me agrada. Não gosto das coisas demasiado planificadas, porque há sempre um detalhe que falha. Reconheço ser um erro, que queres? É a minha natureza anarquista, como dirias. Como conhecer o inimigo? Só fazendo-o sair dos quartéis, pois que informações não temos. Esta inércia, esta apatia, têm de acabar. É preciso dinamizar as coisas. Já estivemos parados demasiado tempo, àespera de instruções. É a nós de tomarmos a decisão. Só a ação pode pôr a nu as faltas ou os vícios da organização. Porque é que nas outras Regiões a guerra progride e aqui não cessa de recuar? Porque não temos estado à altura, nós, o Movimento. Culpa-se o povo, que é traidor. Desculpa fácil! É o povo daqui que é traidor ou somos nós incapazes? Ou as duas coisas? Para o saber, temos de agir, fazer mexer as coisas, partir as estruturas caducas que impedem o desenvolvimento da luta.

     O Comissário vestiu a camisa. Sentou-se numa pedra e ficou a observar Sem Medo. Outros guerrilheiros lavavam-se mais adiante. 

     — Estou de acordo que é preciso agir. Não acredito nessa estória de que o povo é traidor, a culpa foi nossa. Mas acho que é preciso estudar mais as coisas, não agir à toa. Sobretudo agora que fazemos uma guerra sem povo, que estamos isolados... 

     — Náufragos numa ilha que se chama Mayombe – disse Sem Medo. 

   — Sobretudo agora que somos fracos, que temos um efetivo ridículo, devemos ser prudentes. Os nossos planos têm de ser perfeitos. Ação sim, só ela agudiza as contradições que fazem avançar, mas ação consciente. Somos cegos, pois não temos os olhos e as antenas, que são o povo. 

     Se somos cegos, então apalpemos o caminho antes de avançar, senão caímos num buraco. 

    Tinham acabado de se lavar. Sem Medo acendeu um cigarro. Até eles chegava o cheiro de matete para o mata-bicho. O Comissário tossiu e disse:

     — Tu és o Comandante, o que quiseres é lei... 

    — Somos três no Comando, camarada. Se vocês os dois não estiverem de acordo, eu inclino-me. Não sou ditador, bem sabes. 

    — Somos três? Vocês são dois! Sem Medo fixou-o. Uma ruga cavou-se-lhe entre os olhos.

    -Que queres dizer?

   -Simplesmente que, desde que tu e eu nào estejameos de acordo, você são dois e eu um: O Das Operações vai sempre pelo teu lado. Até parece que nunca reparaste!

     - Sim, reparei. Por que faz ele isso? 

    - Não tens ideia? 

    — Tenho duas: ou porque sou o Comandante, ou porque tu és o Comissário. 

   — Estás a gozar! 

   — Não estou nada. Ou porque sou o Comandante e deve apoiar-se para estar bem comigo e poder subir... ou porque tu és o Comissário, cargo logo a seguir ao dele, e deve estar contra ti, destruir-te, mostrar os teus erros, para apanhar o teu lugar. 

    — Pensas assim? 

   — E certo! 

   — Também me parece que sim – disse o Comissário. – É pena! É um bom militar, no meu entender. Sobretudo quando eu não participo numa operação e, assim, as suas boas ideias não podem vir ajudar o meu prestígio. Quando eu estou, ele comete erros só para me contradizer. Não porque eu tenha sempre razão, mas às vezes também tenho... 

    O Comandante deu-lhe uma palmada no ombro.

   — Tens de te habituar aos homens e não aos ideais. O cargo de Comissário é espinhoso, por isso mesmo. O curioso é que vocês, na vossa tribo, até esquecem que são da mesma tribo, quando há luta pelo posto. 

     — O que não quer dizer que não há tribalismo, infelizmente. Aliás, não me venhas dizer que com os kikongos não se passa o mesmo.

      — Eu sou kikongo? Tu és kimbundo? Achas mesmo que sim? 

    — Nós, não. Nós pertencemos à minoria que já esqueceu de que lado nasce o Sol na sua aldeia. Ou que a confunde com outras aldeias que conheceu. Mas a maioria, Comandante, a maioria? 

     — É o teu trabalho: mostrar tantas aldeias aos camaradas que eles se perderão se, um dia, voltarem à sua. A essa arte de desorientação se chama formação política!

    E foram tomar o matete. 

   Eu, O Narrador, Sou Teoria. 

     Os meus conhecimentos levaram-me a ser nomeado professor da Base. Ao mesmo tempo, sou instrutor político, ajudando o Comissário. A minha vida na Base é preenchida pelas aulas e pelas guardas. Por vezes, raramente, uma ação. Desde que estamos no interior, a atividade é maior. Não atividade de guerra, mas de patrulha e reconhecimento. Ofereço-me sempre para as missões, mesmo contra a opinião do Comando: poderia recusar? Imediatamente se lembrariam de que não sou igual aos outros. 

     Uma vez quis evitar ir em reconhecimento: tivera um pressentimento trágico. Havia tão poucos na Base que o meu silêncio seria logo notado. Ofereci-me. É a alienação total.

     Os outros podem esquivar-se, podem argumentar quando são escolhidos. Como o poderei fazer, eu que trago em mim o pecado original do pai-branco?

     Lutamos não estava de acordo com a proposta do chefe de grupo Verdade. Mal o Comandante surgiu, Lutamos disse:

     — Camarada Comandante, o camarada Verdade acha que devíamos apanhar os trabalhadores da exploração e fuzilá-los, porque trabalham para os colonialistas. Diz que é isso o que se decidiu fazer. 

     O Comandante sentou-se e meteu a colher na tampa da gamela, sem responder. O Comissário encostou-se a uma árvore, comendo, observando o grupo.

     — Deixa lá, pá! – disse Muatiânvua. – Esses trabalhadores são cabindas, é por isso que te chateias. Mas são mesmo traidores, nem que fossem lundas ou kimbundos... 


Mayombe
Ed. Leya
Páginas:248
Ano:2013



 


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