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Mostrando postagens com o rótulo carlos Drummond de Andrade

Enquanto Os Mineiros Jogavam, crônica de Carlos Drummond de Andrade

      Domingo, à tarde, na forma do antigo costume, eu ia ver os bichos do Parque Municipal (cansado de lidar com gente nos outros dias da semana), quando avistei grande multidão parada na avenida Afonso Pena. Meu primeiro pensamento foi continuar no bonde; o segundo foi descer e perguntar as causas da aglomeração. Desci, e soube que toda aquela gente estava acompanhando, pelo telefone, o jogo dos mineiros na capital do país. Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção.       Quando chegou a notícia da vitória dos nossos patrícios, depois de encerrado o expediente, isto é, depois de terminado o segundo tempo, vi, claramente visto, chapéus de palha que subiam para o ar e não voltavam, adjetivos que se chocavam no espaço com explosões inglesas de entusiasmo, botões que se desprendiam dos paletós, lenços que palpitavam como asas, enquanto ga...

Águas e Mágoas do Rio São Francisco, poema de Carlos Drummond de Andrade

Está secando o velho Chico. Está mirrando, está morrendo. Já não quer saber de lanchas-ônibus, nem de chatas e seus empurradores. Cansou-se de gaiolas e literatura encomiástica e mostra o leito pobre, as pedras, as areias desoladas onde nenhum caboclo-d’água, nenhum minhocão ou cachorrinha-d’água, cativados a nacos de fumo forte, restam para semente de contos fabulosos e assustados. Ei, velho Chico, Já te estranham, meu Chico. Desta vez, encolheste demais. O cemitério de barcos encalhados se desdobra na lama que deixaste. O fio d’água (ou lágrimas?) escorre entre carcaças novas: é brinquedo de curumins, os únicos navios que aceitas transportar com desenfado. Mulheres quebram pedra no pátio ressequido que foi teu leito e esboça teu fantasma. Não escutas, ó Chico, as rezas músicas dos fiéis que em procissão imploram chuva? São amigos que te querem, companheiros que carecem de teu deslizar sem pressa (tão suave que corrias, embora tão artioso que muitas vezes tiravas a terra de um lado e ...

Irmão, Irmãos, poema de Carlos Drummond de Andrade.

Cada irmão é diferente. Sozinho acoplado a outros sozinhos. A linguagem sobe escadas, do mais moço, ao mais velho e seu castelo de importância. A linguagem desce escadas, do mais velho ao mísero caçula. São seis ou são seiscentas distâncias que se cruzam, se dilatam no gesto, no calar, no pensamento? Que léguas de um a outro irmão. Entretanto, o campo aberto, os mesmos copos, o mesmo vinhático das camas iguais. A casa é a mesma. Igual, vista por olhos diferentes? São estranhos próximos, atentos à área de domínio, indevassáveis. Guardar o seu segredo, sua alma, seus objectos de toalete. Ninguém ouse indevida cópia de outra vida. Ser irmão é ser o quê? Uma presença a decifrar mais tarde, com saudade? Com saudade de quê? De uma pueril vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre. A Diogo, meu irmão e um pouco meu pai, homem do bem, que plantou o bem e se foi deixando, como excelente pessoa que foi, "uma pueril vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre".

Rio Em Flor de Janeiro, Carlos Drummond de Andrade

A gente passa, a gente olha, a gente pára e se extasia. Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia? O Rio de Janeiro virou flor nas praças, nos jardins dos edifícios, no Parque do Flamengo nem se fala: é flor é flor é flor, uma soberba flor por sobre todas, e a ela rendo meu tributo apaixonado. Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde é Baby Vignoli, é Léa Távora. (Homem nenhum sabe nomes vegetais, porém mulher se liga à natureza em raízes, semente, fruto e ninho.) Iúca! Iúca, meu amor deste verão que melhor se chamara primavera. Yucca gloriosa, mexicana dádiva aos canteiros cariocas. Em toda parte a vejo. Em Botafogo, Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá, a ostentar panículas de pérola, eretos lampadários, urnas santas, de majestade simples. Tão rainha, deixa-se florir no alto, coroando folhas pontiagudas e pungentes. A gente olha, a gente estaca e logo uma porção de nomes populares brota da ignorância de nós todos. Essa gorda baiana me sorri: ? Círio de Nossa Senhora? (ou de I...

Perde o Gato, Carlos Drummond de Andrade

     Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos,pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.      Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu — e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.      Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tã...

Conversa de Casados, Carlos Drummond de Andrade

Ora, dá-se que o jovem casal completou trinta e seis anos de união, e eu resolvi entrevistá-lo. Quem sabe se os dois teriam alguma receita de felicidade? Levei um questionário indiscreto. Primeira pergunta: — Como é que vocês conseguiram passar tanto tempo juntos? Os dois, a uma voz: — Não foi tanto assim. Um terço (doze anos), dormindo oito horas por dia. — Mesmo assim, meus caros! Ela esclareceu: — Havia o trabalho dele, que nos separava durante a maior parte do dia. — E ela passou a maior parte da vida no cabeleireiro — completou ele. Eu: — Cabeleireiro, trabalho e sono: será isso a vida em comum? — Não — disse ela sorrindo. — Há os intervalos. — De qualquer maneira, trinta e seis anos! É um latifúndio. Ela: — Bem, brigamos o necessário. — Está satisfeito agora? Eu: — Ainda não. Brigas feias, dessas de atrair vizinho? Ele ponderou: — Como quer você que uma briga seja bonita? Brigamos como foi possível. Confesso que a iniciativa geralmente era minha. Ela, porém, provocava sempre. — ...

No Ônibus, Carlos Drummond de Andrade

  A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e  cadernos indispensáveis para a aquisição das preliminares da sabedoria. (Quando chegarem ao ensino médio, terão de carregar uma papelaria e uma biblioteca?) O ônibus não cabia mais ninguém. A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas. – Deixa que eu carrego – falei na direção de um dos braços a meu alcance. Na qualidade de passageiro sentado, é irresistível minha inclinação para carregar embrulhos alheios. Estou sempre a oferecer préstimos, movido talvez pelo remorso de viajar sentado, e de só ceder lugar a pessoas mais idosas do que eu – pessoas que raramente aparecem no ônibus, de sorte que… – Eu carrego pra vocês – insisti, executando um movimento complicado, para enxergar os rost...

Dia do Beijo: poemas de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade

  ❝ Esta noite Os teus beijos ardentes, Teus afagos mais veementes, Guarda, guarda-os, anjo meu; Esta noite entre mil flores, Um sonho todo de amores Nos dará de amor um céu! “ Machado de Assis, no livro “Toda poesia de Machado de Assis” Beijo-Flor Carlos Drummond de Andrade O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca? Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?) Na boca das meninas e é lá que eles estão suspensos invisíveis. Nota: Encontrei duas datas para o beijo: 13 de abril e 6 de julho. Não encontrei explicação para nenhuma delas.

Morte das Casas de Ouro Preto, Carlos Drummond de Andrade

Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens, que viram fugir o ouro, que viram finar-se o reino, que viram, reviram, viram, já não veem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro, menos rudes que orgulhosas na sua pobreza branca, azul e rosa e zarcão, ai, pareciam eternas! Não eram. E cai a chuva sobre rótula e portão. Vai-se a rótula crivando como a renda consumida de um vestido funerário. E ruindo se vai a porta. Só a chuva monorrítmica sobre a noite, sobre a história goteja. Morrem as casas. Morrem, severas. É tempo de fatigar-se a matéria por muito servir ao homem, e de o barro dissolver-se. Nem parecia, na serra, que as coisas sempre cambiam de si, em si. Hoje, vão-se. O chão começa a chamar as formas estruturadas faz tanto tempo. Convoca-as a serem terra outra vez. Que se incorporem as árvores hoje vigas! Volte o pó a ser pó pelas estradas! A chuva desce, às canadas. Como chove, como pinga no país d...

O Sobrevivente, Carlos Drummond de Andrade

Impossível compor um poema a essa altura de evolução da humanidade. Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia. Um sábio declarou que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto. Os homens não melhoram e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria como um segundo dilúvio. (Desconfio que escrevi um poema). Imagem: Trem das Gerais

Confidência de Um Itabirano, Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil, este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! Imagem: sobrado onde C.D.A viveu até os 13 anos de idade.

Postagens Mais Lidas em 2020

          Sempre me surpreendo quando, no final do ano, procuro ver quais postagens foram mais acessadas. Os textos mais simples, às vezes singelos mesmo, são os preferidos há, pelo menos, 5 anos.                     Em 2020 os três mais acessados foram postadas no blog em 2012!! A Formiga Boa, Monteiro Lobato  Olhos de Preá, Carlos Drummond de Andrade Era Uma Vez... Adivinha Advinhão , Luís da Câmara Cascudo

Presépio, Carlos Drummond de Andrade

Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. Se fosse à igreja, o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, não veria o namorado.       É difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa. E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.      Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe de que será capa...

Flor, Telefone,Moça. Carlos Drummond de Andrade.

     Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos. Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga — bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores — ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.      — Sei de um caso de flor que é tão triste!      E sorrindo:      — Mas você não vai acreditar, juro.      Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.      — Era uma moça que morava na rua General Polidoro, começ...

Furtei Uma Flor, Carlos Drummond de Andrade

      Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.      Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz.   O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.      Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição.    Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.      Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores.  Eu a furtara, eu a via morrer.      Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.      – Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!...