Padeci muita caçoada em menino, pela mania de ficar olhando o céu. Companheiros de escola chamavam-me de leso, as caboclas de casa me diziam palerma. Até uma tia velha deu de implicar comigo. As caçoadas malograram: não perdi a mania. Pela rua, a caminho de casa, no fundo do quintal, entregava-me, fascinado, à contemplação das grandalhonas e branquíssimas nuvens que passeavam pelo céu de minha infância. Se valeu a pena? Como valeu. Os tempos passaram, fui crescendo, a mania crescendo comigo, e o resultado foi magnífico.
De fato, magnífico: vivo, hoje, inteiramente alheio à calendários. Talvez pareça presunçosa a afirmativa. Mas apenas parece; não vejo como ficar vaidoso de uma dádiva divina: aprender, desde criança, a entender as falas das nuvens. Dos dons que Deus me deu, o que me deixa mais agradecido é o poder de sentir a poesia, errante e maravilhosa, que existe sobre o mundo. Mas aquele é o que me deixa mais feliz. Das estações do ano, dos meses, das fases da lua, e, sobretudo, de tantas coisas mais, logo fico sabendo: basta-me interrogar as coisas do céu. Tudo graças a meu convívio, cada vez mais fraterno, com as núvens, as estrelas, a lua. E também com as águas, as árvores, e os pássaros. Que pelo aspecto das árvores e pelo jeito de voo ou presença no céu de certos pássaros, é fácil saber em que mês anda a vida, coisa, aliás, que raramente me preocupa.
Em: Um Século em Cem Crônicas, org. Maria Amélia Mello pág.103

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