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Porque Era Frio Nas Horas Mais Ardentes, conto de Marina Colasanti


    Foi na estação das águas, ao repousar contra um tronco, que ela conheceu aquele boa constrictor. Era discreto, persuasivo e muito sedutor. Logo tornaram-se amantes.

     Todas as tardes, quando langor e achaques prendiam os hóspedes em seus quartos, ela ia encontrá-lo no canto mais sombrio do parque. E o mormaço, o beijo bífido, as espirais amorosas que mal permitiam respirar levava-na a delícias nunca pressentidas. 

     A hora da partida forçou a constatação: já não podia abrir mão de prazer tão intenso. Enrolado o boa numa valise, viajou com ele até sua casa, e o instalou no banheiro. Ali ele poderia fugir para o terraço em caso de perigo, ou esquivar-se atrás da banheira. Ali poderiam se amar livre de riscos, sem observância de tempo, trancada a porta da curiosidade.

      Nunca antes tomara ela tanto banho. Queixava-se em voz alta de calor, sujeira, cansaço. E, controlando o passo que sentia urgente, entrava no banheiro. O rodar da chave e um breve apelo bastavam para que o boa  deslizasse em sua direção.  Lisa e fria carne a possuia então, coleando nas suas curvas, escorrendo rija sobre a pele. Ardente, ela cravava as unhas    na felpa do tapete, enquanto a água do chuveiro aberto encobria silvos e suspiros.

     Uma tarde, porém, extemporâneo, entrou o marido no banheiro. E ao som da chave, acreditando tratar-se da amada, o boa sôfrego de amor saiu do esconderijo. Depararam-se os ois num mesmo espanto. Rápido , o homem correu ao quarto, apanhou o revólver. dois estampidos, um filete de sangue. Sobre o branco piso já farfalham escamas. A morte lentamente suga a  força túrgida. Como uma pincelada escura jaz, flácido o corpo de boa. 

     Uma vítima, um troféu. Que o defensor do lar recolheu e enviou a um especialista, a fim de que, tirado e curtido o couro, dele se fizessem sapatinhos de salto alto e um belo cinto para sua mulher.

     Em ocasiões de gala pede-lhe, orgulhoso, que os use. Não sabe que ao rodear a cintura com a pele escamada ela suspira enamorada. E, apertando bem a fivela, está mais uma vez presa no sufocante amplexo do seu amante.


Em: Um Espinho de Marfim, Marina Colasanti, L&PM pocket 2009, págs.89-90

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