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Mostrando postagens com o rótulo bagunça

A Secretária, Rubem Braga

                                           Procuro um documento de que  preciso com urgência.  Não o encontro, mas me demoro a decifrar minha própria letra, nas notas de um caderno esquecido que os misteriosos movimentos na papelada pelas minha gavetas fizeram vir à tona.      Isso é que dá encanto ao costume de gente ter tudo desarrumado. Tenho uma secretária que é um gênio nesse sentido. Perdeu, outro dia, cinquenta páginas de uma tradução.      Tem um extraordinário senso divinatório, que a leva a mergulhar no fundo do baú do quarto da empregada os papéis mais urgentes; rasga apenas o que é estritamente necessário guardar mas conserva com rigoroso carinho o recibo da segunda prestação  de um aparelho de rádio,que comprei em São Paulo em 1941. Isso me fornece algumas emoções líricas inesperadas: quem não se comove de repen...

Criado - Mudo,Mário Prata

     Tudo começou quando resolvi me mudar do décimo para o quarto andar, aqui mesmo, neste edifício da Alameda Franca. Um carrinho de supermercado seria o suficiente. Queria fazer lá embaixo um lar, já que isso aqui virou um vício. Lá no quarto andar, tem quatro apartamentos.Eu não conhecia ainda os vizinhos quando o fato se deu. Passei o dia levando coisas lá para baixo. Há dois dias faço isso, ajudado pela Cristina.      Uma das últimas viagens e lá ia eu com a Cris ao lado, descendo pelo elevador. Carregávamos o criado-mudo. O criado-mudo tem uma gavetinha. Quando a porta se abriu, havia duas famílias esperando. Meus vizinhos. Pai, mãe, crianças e até uma avó. Foi quando eu estendi o braço para me apresentar como o novo vizinho que tudo aconteceu. E foi muito rápido. Muito.      Quando eu tirei a mão do movelzinho para cumprimentar aqueles que agora são meus vizinhos, a gavetinha deslizou. Eu ainda tentei uma gingada c...

Trovoa - Maurício Pereira

Minha cabeça trovoa sob meu peito te trovo e me ajoelho destino canções pros teus olhos vermelhos flores vermelhas, vênus, bônus tudo o que me for possível ou menos(mais ou menos)me entrego, ofereço reverencio a tua beleza física também mas não só não só graças a Deus você existe acho que eu teria um troço se você dissesse que não tem negócio te ergo com as mãos sorrio mal mal sorrio meus olhos fechados te acossam fora de órbita descabelada diva súbita…súbita…seja meiga, seja objetiva seja faca na manteiga pressinto como você chega ligeira vasculhando a minha tralha bagunçando a minha cabeça metralhando na quinquilharia que carrego comigo(clipes, grampos, tônicos):toda a dureza incrível do meu coração feita em pedaços…minha cabeça trovoa sob teu peito eu encontroa calmaria e o silênciono portão da tua casa no bairro famílias assistem tevê(eu não)às 8 da noite eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você eu sei quer dizer eu acho que sei…eu ...