Estou deitada, baixo do céu estreloso, lembrando meu pai. Nesse há muito tempo, nós nos dedicávamos, À noite, a apanhar frescos. O céu era uma ardósia riscada por súbitos morcegos, desses caçadores de perfumes. —Pai, eu quero ter uma estrela! —Estrela, não: é muito custosa de criar. Eu insistia. Queria possuir estrela como as outras meninas tinham brinquedos, bonecos, cachorros. Aqui, no rés da terra, eu não podia ter nada. Ao menos, lá no infirmamento, se autenticassem minhas posses. —Mas, pai: o senhor diz que faz criação de estrelas. —Fazia, tive que entregar todas. Eram dívidas, paguei com estrelas. —Eu sei que sobrou uma. Meu pai não respondia nem sim nem talvez. Era um homem vagaroso e vago, sabedor de coisas sem teor. Dedicava se a serviços anónimos, propicio a nenhum esforço. Dizia: —Sou como o peixe, ninguém me viu transpirar. E me alertava: veja o musgo, que é o modo do muro ser planta. Quem o rega, quem o aduba? Nada, ninguém. Há coisas que só paradas é que crescem. —É, minh...
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