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Mostrando postagens com o rótulo justiça

Mulher da Vida, poema de Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã. De todos os tempos. De todos os povos.De todas as latitudes. Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada dos mais torpes sinônimos, apelidos e apodos: Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher à-toa. Mulher da Vida, minha irmã. Pisadas, espezinhadas, ameaçadas. Desprotegidas e exploradas. Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito. Necessárias fisiologicamente. Indestrutíveis. Sobreviventes. Possuídas e infamadas sempre por aqueles que um dia as lançaram na vida. Marcadas. Contaminadas, Escorchadas. Discriminadas. Nenhum direito lhes assiste. Nenhum estatuto ou norma as protege. Sobrevivem como erva cativa dos caminhos, pisadas, maltratadas e renascidas. Flor sombria, sementeira espinhal gerada nos viveiros da miséria, da pobreza e do abandono, enraizada em todos os quadrantes da Terra. Um dia, numa cidade longínqua, essa mulher corria perseguida pelos homens que a tinham maculado. Aflita, ouvindo o tropel dos perseguidores e o ...

A Lei, Lima Barreto

     Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei. Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.      O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.       Vê-se bem que na intromissão da “curiosa" não houve nenhuma espécie de interesse subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma terrível situação.       Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.      Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei...

Um Cinturão, Graciliano Ramos

     As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.      Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer.    Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causa...

Senhoras, Anton Tschecov

                                                            Feodor   Petrovitch, diretor dos educandários do município N..., que se tinha na conta de homem justo e generoso, certo dia recebia em seu escritório o professor Vremenski.      - Não, senhor Vremenski – dizia ele – a aposentadoria é inevitável. Com uma voz como a sua é impossível continuar no emprego de professor. Mas como foi que sumiu sua voz?      - Tomei cerveja gelada, estando suado... rouquejou o professor.     - Mas que lástima! Um homem trabalha e serve catorze anos, e de repente um azar destes! É o diabo, a pessoa ter de quebrar uma carreira por causa de um...