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Fingimento, conto de Ednice Peixoto


     Quando Tonha resolveu namorar Quincas às escondidas, resolveu também que teria de encontrar uma forma de manter o namoro adiantava falar com Quincas sobre qual maneira seria a melhor, porque sem que as pessoas de casa, principalmente o pai, descobrissem. Não para ele o melhor era fugir e acabar logo com essa história. O pai dela pensava o que, que ele era um cabra safado querendo a riqueza dele? Ele ia mostrar muito bem do que era capaz. Cuidava do gado, cumpria todas as ordens, mas não era uma rês para andar de cabeça baixa. Estudava, estava terminando o Ensino Médio na escola da cidade, ia encontrar outro tipo de trabalho e casar com Tonha.

     A melhor maneira de enganar os de casa era se fingir de triste por ter sido obrigada a acabar o namoro, deixar até de comer. Nem mesmo em Lucinda, a irmā mais velha, poderia confiar. Diabo que só vivia para xeretar a vida dos outros em vez de arranjar uma costela para casar logo, deixando o caminho livre. Mas quem, quem iria aturar aquele demônio feito cobra? Os de casa só aguentavam por obrigação, imagine um homem para casar! Encalhada a irmã, Tonha sabia que não tinha jeito e o melhor seria se concentrar no próprio problema.
 
     Continuava com os encontros às escondidas. Depois da aula mpre dizia à mãe que ia à biblioteca da Prefeitura e lá entre as estantes Paixão, mas sim pelo medo de serem surpreendidos. Quincas agora
conversava menos e beijava mais, os corações aos pulos não tanto pela queria falar com o doutor Severo, o nome de doutor era só enfeite daquele povo temeroso do seu dinheiro e de suas posses de terras, enfrentar logo o patrão e contar tudo. Isso fazia Tonha tremer. Be sabia do que o pai era capaz. Ainda mais quando descobrisse que caçula namorava um empregado seu.

     Nesses encontros às escondidas, pensaram em inventar un código simples, mas não tão fácil que os outros compreendessem se pegassem os bilhetes, Pensaram em fazer um que utilizasse consoantes, mas viram que ficava fácil demais. Embaralhar letras números seria trabalho em dobro, precisariam atribuir a cada letra um número. Porém, pensando bem, talvez fosse a solução, pois escreveriam uma chave de correção para decifrar as mensagens E ainda poderiam colocar algumas palavras em inglés que conheciam. Resolveram confiar em Lourdinha, prima de Quincas que trabalhava na cozinha da fazenda, como auxiliar de Zefa, a cozinheira, para o leva e traz de mensagens.

 Tonha continuava se fingindo de triste. O corpo de magu não precisava fingir, já fino de tanta tristeza fingida e fome com mesa farta. A mãe aumentou a reclamação, agora porque tinha que consertar pano, o corpo dançando nas roupas de tanta magreza. Até Quincas reclamou que ela estava exagerando. Será que não dava para comer um tanto mais e ser triste só por fora? Não, não dava. Tonha queria convencer que tinha acabado o namoro com Quincas e todos deveriam acreditar que a triste magreza era real.

     Tonha acordava cansada e mal assistia às aulas, pensando naquela rede largada no alpendre de casa. Era uma delícia ir-se no balanço, espiar os bichos indo e vindo, o sol derreando a luz la para trás do rio, visto só em uma nesga ao longe. Levantava pouco e o que mais comia era água, descendo fresca garganta abaixo. Tinha preguiça de mastigar e além de água, só comia papa, sopinha, pirão de farinha comida de gente triste, la mostrar ao pai que o melhor era consentir no namoro, se não quisesse vê-la defunta. As aulas não tinham mais bilhetes tão desejados foram ficando esquecidos. 

     Vendo a hora Tonha morrer, Quincas resolveu falar com o doutor Severo. Pegou o cavalo e foi encontrar o homem lá no cercado onde as reses eram marcadas a ferro. Aproximando-se, o que primeiro viu foi a arma na cintura do capanga posto ao lado do dono. Com o chapéu na mão, o coração tamborilando no peito e a uma distância maior que o braço de Seu Severo, Quincas contou o que estava acontecendo. As últimas palavras o doutor Severo nem ouviu, correndo para o cavalo, galopando de volta para casa.

     Puxando as rédeas rudemente, Seu Severo em um pulo estava à beira da rede gritando para Tonha deixar de palhaçada, pois ele já sabia que aquilo tudo era fingimento, que não adiantava aquela encenação, porque com aquele safado do Quincas ela não casaria, agora mais do que nunca. Onde já se viu fingir-se de triste, deixar quase de comer por causa de um moleque daquele! E trate logo de se levantar dessa rede senão eu mesmo corto os punhos, jogando você no chão para acabar de vez com isso.
Tonha, acolhida pela rede, mal ouvia o pai, não entendia o porquê dos gritos, ela não estava obedecendo suas ordens de não namorar o Quincas, então para que isso? Ele não via que ela nem saía mais de casa, passava o tempo na rede olhando para o campo, vendo nada? Não queria se levantar, queria só beber água e olhar aquele sol.

     Parado logo atrás do pai de Tonha, Quincas viu o que os gritos não deixavam o doutor Severo vê: Tonha não tinha mais forças, a amargura tomara de conta e para ela aquela vontade de não comer, viver deitada na rede, não ir à escola ou à biblioteca eram coisas naturais, faziam parte do seu viver. Tonha não fingia mais. Tonha morria de verdade.

Em: Vidas de Algodão, Ednice Peixoto, 2025, págs.57-59


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