Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Clarice Lispector

O Que Eu Estou Lendo? Só Sei Que Foi Assim, Octávio Santiago

Como é construído um estereótipo? Quando o Nordeste passou a ser retratado como sinônimo de atraso, miséria e ignorância? E por que essa imagem, injusta e imprecisa, persiste no imaginário? Essas são algumas das perguntas que movem  Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste  , do jornalista e pesquisador Octávio Santiago.  Resultado da pesquisa de doutorado do autor, realizada na Universidade do Minho, em Portugal, a obra revela como o preconceito contra os nordestinos foi construído historicamente a partir de interesses políticos, econômicos e simbólicos. Nesse manual antirracista, Santiago trilha a trajetória do preconceito contra os nordestinos desde a fundação do Brasil, revê a herança maldita da ditadura militar e analisa obras de nomes como Euclides da Cunha e Clarice Lispector, sem esquecer as telenovelas. Um livro para ajudar a reenquadrar um país.

Perspectivas Acerca do Envelhecimento na Sociedade Brasileira Wellington Ribeiro, redação nota mil (2)

Na obra "Feliz aniversário, a escritora Clarice Lispector aborda,  dentre outros aspectos, a realidade de exclusão vivenciada por grande parte dos idosos brasileiros, os quais, de acordo com a autora, só são lembrados por seus familiares em datas comemorativas. Ao transpor o viés literário, percebe-se a acentuação dessa problemática, a qual aborda a falta de perspectiva social perante ao envelhecimento existente no Brasil contemporâneo. À vista desse conceito, é ideal analisar o passado nacional e o descaso governamental como desafios para a plena longevidade da sociedade. Diante desse cenário, nota-se que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado, de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi construído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de...

Apenas Um Cisco no Olho, crônica de Clarice Lispector

E de repente aquela dor intolerável no olho esquerdo, este lacrimejando, e o mundo se tornando turvo. E torto: pois fechando um olho, o outro automaticamente se entrefecha. Quatro vezes no decorrer de menos de um ano um objeto estranho agrediu meu olho esquerdo: duas vezes ciscos não identificados, uma vez um grão de areia, outra um cílio. Das quatro vezes tive que procurar um oftalmologista de plantão. Da última vez que perguntei àquele que realiza a sua vocação através de cuidar por assim dizer de nossa visão do mundo: por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência?   Ele respondeu que não. Que, por mais normal que seja uma vista, um dos olhos vê mais que o outro e por isso é mais sensível. Chamou-o de olho diretor. E este, por ser mais sensível, prende o corpo estranho, não o expulsa.   Quer dizer que o melhor olho é aquele que é a um só tempo mais poderoso e mais frágil, atrai problemas que, longe de serem imaginários, não poderiam ser mais reais que a ...

As Três Experiências, crônica de Clarice Lispector

     Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros,nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.      E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estud...

Se Eu Fosse Eu, Clarice Lispector

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu...

Clarice Lispector - Dia Nacional da Tulipa

  “A  sempre-viva é sempre morta.Sua secura tende à eternidade.O nome em grego quer dizer sol de ouro.  A margarida é florzinha alegre.É simples e à tona da pele,Só tem uma camada de pétalas.O centro é uma brincadeira infantil. A formosa orquídea é exquise e antipática.   Não é espontânea.Requer  redoma.Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar.Também não se pode negar que é nobre porque é epífita.Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática.Adoro orquídeas.Já nascem artificiais, já nascem arte. Tulipa é tulipa na Holanda.Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo abert o para ser.” Clarice.Água viva .Rio de Janeiro: editora. Artenova,1973 Nota:Na Holanda comemora-se o dia nacional das tulipas no terceiro sábado de janeiro. A temporada de Tulipa nos Países Baixos começa com a celebração espetacular do Dia Nacional de Tulipa na Praça Dam em Amesterdão. O impressio...

Uma Amizade Sincera, Clarice Lispector

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada. Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar a...

As Três Experiências, Clarice Lispector

  Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca. E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me...

Cem Anos de Perdão, Clarice Lispector

 Quem nunca roubou não vai entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.      Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficava no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." "Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.      Começou assim. Numa das brincadeira de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.      Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa vivo. fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E acontece...

Perdoando Deus, Clarice Lispector

Eu ia andando pela avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via. Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenh...

Os Obedientes, Clarice Lispector

  Trata-se de uma situação simples, um fato a contar e esquecer.      Mas se alguém comete a imprudência de parar um instante a mais do que deveria, um pé afunda dentro e fica-se comprometido. Desde esse instante em que também nós nos arriscamos, já não se trata mais de um fato a contar, começam a faltar as palavras que não o trairiam. A essa altura, afundados demais, o fato deixou de ser um fato para se tornar apenas a sua difusa repercussão. Que, se for retardada demais, vem um dia explodir como nesta tarde de domingo, quando há semanas não chove e quando, como hoje, a beleza ressecada persiste embora em beleza. Diante da qual assumo uma gravidade como diante de um túmulo. A essa altura, por onde anda o fato inicial? ele se tornou esta tarde. Sem saber como lidar com ela, hesito em ser agressiva ou recolher-me um pouco ferida. O fato inicial está suspenso na poeira ensolarada deste domingo — até que me chamam ao telefone e num salto vou lamber grata a mão de q...

Nascida em 10 de dezembro: Clarice Lispector.

    Feliz Aniversário        A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em ...