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Mostrando postagens com o rótulo Ficção

Menina de Vermelho a Caminho da Lua, conto de Marina Colasanti

     Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: “Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar… endereço… etcétera”.      Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, p...

O Livro da Vida, conto de Natascha Duarte

     Dois seres distintos encontram-se, pela primeira vez, num cenário épico, grandioso, como tudo por ali.           -  Choveu, foi?           - Ainda chove, não vê?      - É que estou dormindo e acho que não vou acordar, ouço apenas o barulho.      - E como é isso de não acordar?      - Bem, não sinto dor e... Aonde você vai? Falávamos sobre a chuva.      O gigante dera as costas ao homem, de repente, e bradou:      - Não tenho muito tempo e tenho muita pressa, sou como o vento sem trégua, seguindo por uma rota inespecífica, mesmo aqui - a voz do gigante se distanciava.      - Se tinha pressa, por que foi que veio? - o homem gritou.      - Porque um banho muda tudo e agora é hora do seu, espere...      - No céu se toma baaanho?      - Sim, aqui tambééémmm.     Seguiu-se um...

Nada Mais, conto de Ednice Peixoto ( Novos Talentos )

O primeiro objeto que Rita encontrou foi um par de brincos sob o travesseiro. Duas argolas prateadas. Não se assustou. Certamente Mariana, sua sobrinha de dez anos, tinha deixado os brincos ali na hora de brincar de gente grande. Colocou-os na estante para devolver, não sem antes fazer Mariana entender que não apressasse o tempo da infância. Domingo na hora de ir à missa, ao procurar o rosário, encontrou na gaveta um sutiã vermelho um número menor que o seu. Do sutiã vinha um perfume de sândalo misturado a cheiro de bebida que uma mancha bem no peito não deixava dúvida. Chateada, porque aquela coisa escarlate deveria ser de Rosana, a irmã destrambelhada que tem, jogou o sutiã sobre o cabide para entregar depois. Ao acordar naquela segunda-feira, a cabeça lhe dói como bebedeira de véspera. Mas nada bebera além das duas taças de vinho, quantidade mínima para provocar tamanho enfado. A dor, a água fria do banho alivia o suficiente para se apresentar à mesa, onde todos se encontram, esmiu...

A Espingarda de Alexandre, conto de Graciliano Ramos

     – Os senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei outro dia? perguntou Alexandre às visitas, um domingo, no copiar. Ora muito bem. Olhem aquele monte ali na frente. É longe, não é?      – Muito longe, respondeu o cego preto Firmino.      – Como é que o senhor sabe, seu Firmino? grunhiu o narrador. O senhor não vê.      – Não sei não, seu Alexandre, voltou o negro. Eu disse que era longe porque o senhor é o dono da casa e deve saber. O senhor achou que era longe e eu concordei. Não está certo?      – Está, resmungou Alexandre. Mas eu quero a opinião dos outros. Que distância vai daqui àquele monte, seu Libório?      Seu Libório arriscou meia légua. Mestre Gaudêncio afastou o monte para duas léguas. E Das Dores afirmou que ele devia estar a umas cinquenta:      – É o que eu digo, meu padrinho. Cinquenta léguas, daí para cima. Alexandre, moderadam...

O Quarto Anjo, conto de José Eduardo Agualusa

     Após criar o primeiro anjo, Deus ofereceu-lhe um poderoso par de asas. Explicou-lhe que aquilo era mais um aparato de fé do que de voo. – Os pássaros – assegurou-lhe – voam por convicção. O anjo viu como voavam os pássaros, batendo as asas e recolhendo as pernas, e imitou-os.   Ao fim de cinco meses tinha ganho uma certa prática e até já conseguia fazer algumas piruetas, incluindo voo picado seguido de um duplo mortal invertido. Não era ainda uma águia, mas também não poderia ser confundido com uma galinha. Enfim, voava. – Agora tira-as. – Disse-lhe então Deus, que o observara, em silêncio, a uma distância discreta, durante todos aqueles dias. – Tira as asas e voa. O anjo olhou para Ele incrédulo. Protestou: – E eu lá sou doido, ó Deus?! Tiro porra nenhuma! Deus, o qual, como se sabe, é brasileiro, não estranhou nem que o anjo falasse português, nem sequer o forte sotaque carioca. A língua e o sotaque, aprendera-as com Ele. Compreendeu, todavia, que lhe faltava ...

Assim Termina o Livro Que eu Terminei

      Eu, Joana Camelo, uma alma brasileira, emprego travessia por baixo do mar, furo  terra e sou liberta, vejo os mortos e adivinho dos vivos, tenho a companhia das princesas do mar e dos lagos, ando por onde quiser sem medo, com a flecha certeira de fogo que clareia a floresta mais escura. sou livre neste mundo e posso abrir qualuer caminho, mas escolho, porque quero, toda vereda que me leve ao estado de amor. O amor, o fogo mais antigo. A única força que dissolve e recria o tempo. Oração Para Desaparecer , Socorro Acioli Cia da Letras 2023 - 208 páginas. 

O Grande Encontro dos Desaparecidos, Moacyr Scliar

Por muitos anos, Moacyr Scliar escreveu na folha de São Paulo. A partir de uma manchete real publicada no citado jornal, o escritor criava um conto.   O texto abaixo, com a manchete em que se baseou, é um exemplo.   “Sem destino: 102,2 mil desapareceram em 6 meses. ” Cotidiano, 10 jul. 1999      Uma vez ao ano os desaparecidos se reúnem. Sempre em data diferente e em local diferente: às margens de um grande rio, no meio da floresta, no alto de uma montanha. Ninguém falta. Por certos mecanismos de comunicação, do qual só os desaparecidos têm conhecimento, a notícia chega a todos e a cada um deles.      No dia aprazado lá estão. Usam máscaras, naturalmente. Alguns – precaução adicional – colocam vendas sobre os olhos: não querem ver os rostos, mesmos disfarçados, dos outros desaparecidos.      O encontro é, sobretudo, de trabalho. Para isso, os desaparecidos são divididos em comissões temáticas, que têm como objetivo respond...

Mayombe, Pepetela (10 primeiras páginas)

  A Missão       O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, tinha escorregado numa pedra e esfolara profundamente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera:       — Somos dezasseis. Ficaremos catorze.       Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente. De mau grado, o Comandante deu ordem de avançar. Vinha por vezes juntar-se a Teoria, que caminhava em penúltima posição, para saber como se sentia. O professor escondia o sofrimento. E sorria sem ânimo.       À hora de acampar, alguns combatentes foram procurar lenha seca, enquanto o Comando se reunia. Pangu-Akitina, o enfermeiro, aplicou um penso no ferimento do professor. O joelho estava muito inchado e só com grande esforço ele podia avançar.       Aos ...

Primeira Leitura do Ano: Incidente Em Antares, Érico Veríssimo - 27 a 31 de março

 O romance se estrutura em duas partes. A primeira, “Antares”, conta a história dessa cidade fictícia, do início dos tempos até o presente dos fatos. A segunda, “O incidente”, narra os acontecimentos do final de 1963 e dos anos seguintes, durante e após o golpe militar de 1964. Antares começa como o “Povinho da Caveira”, nome dado por um viajante francês que, já naqueles tempos, ali encontra um representante da família Vacariano. Depois da Guerra dos Farrapos, por volta de 1860, aparece o primeiro Campolargo, representando a família rival na disputa pelo controle político do lugar. Os dois clãs viverão em conflito ao longo de gerações. A cidade obtém sua emancipação após a Guerra do Paraguai.      Ganham as ruas a campanha abolicionista e a propaganda republicana, em meio a lutas entre as famílias, que sempre tomam partidos opostos. Há mortes e episódios de truculência inominável. Mas Antares muda. Surgem jornais, usina elétrica, automóveis, o futebol conquista o se...

Nairobi, Odjaki

     Quando se aproximou, a mulher trazia vestida no corpo a carga de uma notícia. Eu não quis acreditar. Pensei que (eu) estivesse a ler sinais inexistentes.      Mas é sabido: há sinais inconfundíveis. Há factos que nos encontram. No mar ou no deserto. Na escuridão ou na maresia.      Havia ruído. A mulher teve o cuidado de esperar que a multidão se dissipasse. Eu sabia que não esperava nada. E quando não espero nada, posso estar muito tempo assim. Ela esperava não sei o quê. Mas esperou.      É verdade que se aproximou devagar e que esteve um largo pedaço de tempo à espera que a multidão seguisse seu destino. Não deixa de ser curioso que duas pessoas sentadas no aeroporto, e paradas, podem fazer a vez de um polícia sinaleiro ou de uma esquina. Tanto um sinaleiro como uma esquina dão caminho a multidões.      "Se não é pesado o silêncio não incomoda", começou a mulher. Disse-o como quem fala para quem quis...

Meus Favoritos do Ano

 De tanto minha filha falar, e porque colocando minhas leituras de 2020 lá no Goodreads notei que tive sorte e lí muito bons livros. E até li não-ficção, coisa que quase nunca faço.  Bem, isso tudo pra dizer meus favoritos  de 2020. Ficção: O Pecado de Porto Negro - Norberto Morais Ed. Leya, 2015 - 416 páginas. Em Porto Negro, capital da ilha de São Cristóvão, todo mundo conhece Santiago Cardamomo, o bom malandro que trabalha na estiva, tem muitos amigos e adora mulheres, de preferência feias, raramente passando uma noite sozinho. O seu sucesso com o sexo oposto, aliás, provoca inveja naqueles a quem a sorte nunca bateu à porta, sobretudo o enfezado Rolindo Face, que há muito alimenta esperanças pelo amor de Ducélia Trajero – a filha que o patrão açougueiro guarda como um tesouro. Até que, no dia em que ensaiava pedir a mão da doce jovem, Rolindo assiste sem querer a um pecado impossível de perdoar, e que acabará por alterar a vida de incontáveis porto-negrinos, incluind...

O Rosto da Maçã, Fernando Farias

     No princípio, eu criei os céus e a Terra. A terra era sem forma e vazia. Havias trevas sob a face do abismo.Então eu disse: faça-se a luz .E a luz se fez.      Então comecei meu trabalho.Elétron por elétron, átomo por átomo, fazendo vibrar a matéria e dando formas e nomes às coisas.      Levei sete trilhões de anos para fazer o universo. Mas vocês dizem que foram apenas sete dias. Não foi fácil. Desenhar, redesenhar, rasgar, jogar fora, começar de novo, aprovar, recusar. Os animais deram muito trabalho, milhões de espécies. Programar as patinhas das centopeias para não tropeçarem, fazer a bundinha do vagalume acender e apagar ou fazer a lagosta ver doze cores.      E foi assim que fui aprendendo, sozinho, a arte de criar seres vivos. Estava pronto para realizar minha obra mais perfeita. Quando terminei de fazer todos os animais da Terra criei a mulher. À minha imagem e semelhança.Tão feminina quant...