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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Estrela, poema de Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta, Vi uma estrela tão fria! Vi uma estrela luzindo Na minha vida vazia. Era uma estrela tão alta! Era uma estrela tão fria! Era uma estrela sozinha Luzindo no fim do dia. Por que da sua distância Para a minha companhia Não baixava aquela estrela? Por que tão alta luzia? E ouvi-a na sombra funda Responder que assim fazia Para dar uma esperança Mais triste ao fim do meu dia. 

Atrás do Tronco, poema de Marina Colasanti

Toda  vez que o nome do meu pai ou essa expressão “meu pai” vem combinada com a palavra "guerra” uma alta palmeira cresce em mim e atrás do tronco há um homem escondido. Um homem escondido que pode ser um morto ou pode ser assassino um homem tão culto quanto oculto é seu destino. É o inimigo ali posto pela voz do meu pai quando lhe perguntei se havia matado muitos nas tantas guerras de que se orgulhava. Na guerra disse ele é impossível saber se o inimigo escondido atrás do tronco aquele em que adotamos em defesa e que não mais se vê está vivo está morto está ferido ou se sequer estava atrás do tronco. Em: Gargantas Abertas, Marina Colasanti, Ed. Rosso, 1998, pág.90

Soneto Já Antigo, Álvaro de Campos

Olha, Daisy: quando eu morrer tá has de dizer aos meus amigos aí em Londres, embora não o sintas, que tu escondes a grade dor da minha morte. Irás de Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes... que eu nada que tu digas acredito), contar àquele pobre rapazito que me deu tantas horas tão felizes, Embora não o saibas, que morro... mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar, nada se importará... Depois vai dar a notícia a essa estranha Cecily que acreditava que eu seria grande... Raios partam a vida e quem lá ande! Em: O Eu Profundo e Os Outros Eus, seleção poética, Fernando Pessoa, 1976 pág.253

Crônica Cantada: Cotidiano, Chico Buarque de Holanda

Todo dia ela faz tudo sempre igual         Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em poder parar Meio-dia eu só penso em dizer não Depois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão Seis da tarde como era de se esperar Ela pega e me espera no portão Diz que está muito louca pra beijar E me beija com a boca de paixão Toda noite ela diz pr'eu não me afastar Meia-noite ela jura eterno amor E me aperta pr'eu quase sufocar E me morde com a boca de pavor Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em...

Chuvas de Março, soneto de Luciano Maia

O arco da chuva disparou mil flechas de água sobre a caatinga de um tom gris. E o camponês ouvir ir pelas frestas da janela a canção - tarde feliz! O seu tosco aposento esguia réstia de lua, vinda a noite, também quis saudar e àquela alma tão modesta mas de crença e virtude as mais sutis. O arco da chuva, nos seguintes dias retesado, outras vezes enviou flechas de água, de verdes e alegrias. E o campônio outra vez o chão lavrou e as suas mãos calosas e vazia o céu daquele março abençoou. Em: Dunas, Livo de sonetos. Luciano Maia. academia Cearence de Letras 1984, pág.180

Quarto de Pensão, poema de Marina Colasnati

Sou pensionista da vida. Na mesma ábua em que durmo escrevo meu trabalho e ela farfalha, embora já sem folhas, só da lembrança de já ter sido tronco. Tenho uma pia no canto que goteja, e é meu lago, meu rio, meu fundo mar. Tenho um rijo cabide à cabeceira para dependurar a pele a cada noite. Me dão café om pão, e às vezes algum vinho. Dizem que só paguei meia pensão. Há uma fome indistinta que me habita enquanto o medo com felpudo passos percorre o labirinto das entranhas. Mas agradeço essas quatro paredes e que me tenham dado uma janela. Pois sei que qualquer hora sem possibilidade de recurso e talvez mesmo sem aviso prévio serei intimada a devolver o quarto. Leia também:  A Morada do Ser, Marina Colasanti

Trapo, poema de Fernando Pessoa

O dia deu em chuvoso A manhã, contudo, esteve bastante azul. O dia deu em chuvoso Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra de chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível, Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afetos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvo...

Acima de Tudo Ame, poema de Rupi Kaur

acima de tudo ame como se fosse a única coisa que você sabe fazerno fim do dia isso tudo não significa nada esta página onde você está seu diploma seu emprego o dinheiro nada importa exceto o amor e a conexão entre as pessoas quem você amou e com que profundidade você amou como você tocou as pessoas à sua volta e quanto você se doou a elas. Sobre a autora: Nascida em Panjabe, Índia Naturalizada: canadense Livros: A Cura pelas Palavras O Que o sol Faz Com as Flores Os Outros Jeitos de Usar a Boca Meu Corpo Minha Casa

Adeus, poema de Ondjaki

no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma. ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma: tudo ardilhado de simplicidade. ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências. aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser emprestada. o mundo, mesmo partilhado é muito a pele de cada qual. na falta de dedos a lesma fez adeus com o corpo. e veio a chuva reaprendemos assim o lugar de nossas almas. Em: Materiais Para Confecção de Um Espanador de Tristezas, Ed. Caminho, 2009

O Mar dos Meus Olhos, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos Não pela cor Mas pela vastidão da alma E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos Ficam para além do tempo Como se a maré nunca as levasse Da praia onde foram felizes Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens… Há mulheres que são maré em noites de tardes… e calma

Errar, poema de Mia Couto

Na escolinha, a menina, propícia a equívocos, disse: - Masculino de noiva é navio. Repreenderam, riscaram, descontaram. Mas ela estava certa. Noivados são mares de barcos pares. Em: Mia Couto (poemas escolhidos) Cia das Letras, 2016, pág. 42

Flores, poema de Adélia Prado

A boa-noite floriu suas flores grandes, parecendo saia branca. Se eu tocasse um piano elas dançavam. Fica tão bom o mundo assim com elas, que nem me desprezo por querer marido. Perfumam a noite. A gaita de um menino que nunca morre toca erradinho e doce. Eu cumpro alegremente minhas obrigações paroquiais e não canso de esperar; mais hoje; mais amanhã, qualquer coisa esplêndida acontece: as cinco chagas, o disco voador,o poeta com seu cavalo relinchando na minha porta. Desejava tanto tomar bênção de pai e mãe, juntr uns pios, umas nesgas de tarde, um balançando de tudi que balança no vento e tocar na flauta. É tão bom que nem ligo que Deus não me conceda ser bonita e jovem ( um dos desejos mais fundos da minha alma) "O Espírito de Deus pairava sobre as águas..." Sobre o meu, pairam estas flores e sou mais forte que o tempo. Em: O coração disparado, Ed. Salamandra 1984, pág.23

Noite, Lirinha (em resposta a uma prosa de Manoel Filó)

Quando o dia cai vencido, cansado, fraco, doente, bem prá lá da luz da serra. A noite espelha o vestido, beija a tristeza da gente e cobre um lado da Terra. Quando a tarde cai calada e o dia despenca mudo, a noite estende o lençol. Um peito de mãe cansada muito maior do que tudo, muito mais quente que o sol. Noite do riso tristonho, noite que tanto me encanta, rainha e mãe da poesia. Dona da verve do sonho, muito mais pura que a santa, muito mais clara que o dia. Noite que leva os poetas pra dormir junto com ela. Zé da Luz foi ver Catulo, Florbela, Rita Medeiro, Noel Rosa teve pressa, Angel Augusto foi ligeiro, No peito da noite preta Cancão se sente tão bem, Pinto Velho não queria, pelejou mas foi também. E o tocadô de pandeiro, da Serra da Catingueira, Ascenso, Rogaciano, Camões, Manoel Bandeira E Lôro, do Pajeú, trocando as letras da lua, tira o L, bota o R, a lua ilumina a rua. Tira o R, bota um N, toda santa, toda nua. Tira um N, bota um S, Lourival até parece pensar que a lua é s...

Desato, poema de Viviane Mosé

É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.E não pode mexer jamais depois de a água ser posta. O alho deve fritar no óleo junto com o arroz. Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas. Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo Que não sobra um canto que não tenha sido tocado Por minhas mãos. Depois vou sujando. Com muito gosto. Deixo peças na sala e louças sujas na pia. Não na mesma hora mas um pouco Bastante depois volto limpando. Assim me faço. Nos objetos que me acompanham. Gosto de andar nas ruas e comprar coisas Que vão se arrumando em torno de mim. Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas. Uma camada de livros outra de sapatos. Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto. Tenho camadas de cosméticos e de adereços. Uma camada de nomes e de coisas que vejo. Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo. Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta. Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços. Torneiras em meus por...

Figuras do Vento, poema de Joaquim Cardozo

                                                                                                       "Figure porte adsence et présence..." Pascal Figuras do vento Nos ares divinos São finos cabelos Na luz. Movimento De puras miragens, imagens, modelos De formas vazias; São asas difusas, São vôos imensos, Perdidos no espaço Por noites e dias. São ventos profanos Rompendo,mugindo, Lavrando no mar; Sào ventos lavrando, São bois de charrua, São gênios que ceifam Searas na lua E animam sementes Que irão germinar. São ventos feridos, São ventos antigos, Saudade de amigos, Lembranças, rumores; São ventos irados De pele gelada Batendo em meu rosto, Marchando em rajada, Rufando tambores. São ventos, são vozes, São queixas veladas Nos vale...

Canto Eucarístico, poema de Adélia Prado

Na fila da comunhão percebo à minha frente uma velha, a mulher que há muitos anos crucificou minha vida, por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços diante de mim: "juro pelo magnificat que ela me tentou até eu cair, peço perdão, por alma de meu pai morto, pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela vez só." Coisas atrozes aconteceram. Até tia Cianinha, que morava longe, deu de aparecer na volta do dia. Conversávamos a portas fechadas, ela com um ar no rosto que eu não vira, zangando pouco com o menino, deixando ele reinar. Houve punhos fechados,obeservações científicas sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do vidro, sobre como pode um homem, num só dia, trocar duas camisas limpas. Irritação, impertinência, uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo, uma alegria - chamei assim à falta de outro nome - invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do diabo. rezei de modo terrível. O perdão tinha espasmos de cobra malferida e não queria pe...

Trova do Vento Que Passa, poema de Manuel Alegre ( citado pela Ministra Carmem Lúcia)

Pergunto ao vento que passa Notícias do meu país E o vento cala a desgraça O vento nada me diz. O vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam Tanto sonho à flor das águas E os rios não me sossegam Levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas Ai rios do meu país Minha pátria à flor das águas Para onde vais? ninguém diz. [se o verde trevo desfolhas Pede notícias e diz Ao trevo de quatro folhas Que morro por meu país. Pergunto à gente que passa Por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem Quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos Direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos Vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada Ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada Nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem Dos rios que vão pró mar Como quem ama a viagem Mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) Vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada E fale pátria...

História Passional, Hollywood, Califórnia - poema de Vinícius de Moraes

Preliminarmente telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas Depois te levarei a comer um shop-suey Se a tarde também for loura abriremos a capota Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas. Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével E eu pegarei tua coxa rija como a madeira Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte. Mascaremos cada um uma caixa de goma E iremos ao  Chinese  cheirando a hortelã-pimenta A cabeça no meu ombro sonharás duas horas Enquanto eu me divirto no teu seio de arame. De novo no automóvel perguntarei se queres Me dirás que tem tempo e me darás um abraço Tua fome reclama uma salada mista Verei teu rosto através do suco de tomate. Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila Na saída constatarei tuas  nylons 57 Ao andares, algo em ti range em dó sustenido Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba. Beberás vinte uísques e ficarás mais terna Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas Cheirarás ...

Mulheres da Fuvest (2): Narcisa Amália (1852-1924)

Aflita Per lui solo affido sull'ali dei venti Il suon lusinghiero di garruli accenti! Deh riedi, deh riedi!... mi stinge al tuo cor E giorni beati -vivremo d'amor! Il Guarany Desde a hora fatal em que partiste, Turbou-se para mim o azul do céu! Velei-me na mantilha (1) da tristeza Como Safo na espuma do escarcéu. Até então o arcanjo da procela Não enlutara o lago das quimeras, Onde minh'alma, garça langorosa(2), Brincava à luz de etéreas primaveras. Mas um dia atraindo ao vasto peito Minha pálida fronte de criança, Murmuraste tremendo: -"Parto em breve; Mas não te aflijas, voltarei, descansa!" Ai! Que epopeia túrgida de lágrimas Na comoção daquela despedida! Eu soluçava envolta em véu de prantos: "Quando voltares", já serei sem vida! Desde então, comprimindo atrás as angústias, Vou te esperar à beira do caminho; Voltam cantando ao sol as andorinhas, Só tu não volves ao deserto ninho!... Quando a tribo inquieta das falenas (3) Liba(4) filtos nas clícias(5...

Dois Poemas de Josemári Recaldi (Peru)

Como Uma Menina Como uma menina que comtempla desde a janela do ônibus a avenida passar em sua ardente felicidade feita de amar sem nenhuma urgência eu gostaria chamar eu gostaria poder me decidir a comunicar esta estratégia de sobreviver por amor das avenidas e do mar. No Crepúsculo Pisado Descanso No crepúsculo pisado descanso, eu lírio de fome até as aréolas, Atrás de mim diga tudo o que quiser, não corro, atrás de mim eu guardo esse mesmo, murmúrio mutável de pombas. Eu para você não quero nada querer Eu em você destruo todos seus eus. Fonte: Revista Acrobata