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Mostrando postagens com o rótulo regionalismo

A Espingarda de Alexandre, conto de Graciliano Ramos

     – Os senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei outro dia? perguntou Alexandre às visitas, um domingo, no copiar. Ora muito bem. Olhem aquele monte ali na frente. É longe, não é?      – Muito longe, respondeu o cego preto Firmino.      – Como é que o senhor sabe, seu Firmino? grunhiu o narrador. O senhor não vê.      – Não sei não, seu Alexandre, voltou o negro. Eu disse que era longe porque o senhor é o dono da casa e deve saber. O senhor achou que era longe e eu concordei. Não está certo?      – Está, resmungou Alexandre. Mas eu quero a opinião dos outros. Que distância vai daqui àquele monte, seu Libório?      Seu Libório arriscou meia légua. Mestre Gaudêncio afastou o monte para duas léguas. E Das Dores afirmou que ele devia estar a umas cinquenta:      – É o que eu digo, meu padrinho. Cinquenta léguas, daí para cima. Alexandre, moderadam...

A Partida, conto de Osman Lins

     H oje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante.   Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir. Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa. Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as hora...

A Terceira Margem do Rio, João Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando Indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto.      Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.      Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos.      Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de ...

Arrasando na Terceira Idade: Fogo Morto, José Lins do Rego

     Fogo Morto de José Lins do Rego foi publicado há 70 anos. O autor é um dos ícones da Literatura Regionalista  e este livro é o ultimo  da série denominada Ciclo da Cana de Açúcar.            Fogo Morto é ambientado na zona rural canavieira do Nordeste e o nome vem do fato de assim serem chamadas as usinas que já não moem mais. O livro tem três personagens principais: Mestre Amaro José que mora no Engenho Santa Fé, não quer ser dominado por ninguém, escolhe as pessoas para quem trabalha e um critério para sua escolha é que admire o cangaceiro Antônio Silvino.       Mestre Amaro vive à beira da estrada e está sempre de conversa com os passantes. Seu Lula ( Luis Cesar de Holanda Chacon) é quem sustenta a segunda parte de Fogo Morto. Aqui o autor retrocede no tempo para explicar como Seu Lula passou a ser o dono do Engenho Santa Fé. Seu Lula tinha instrução, era autoritário e...

Recomendo:Sargento Getúlio.

     Somente agora estou lendo o primeiro sucesso de João Ubaldo Ribeiro: Sargento Getúlio , foi lançado em 1971 e lhe rendeu o prêmio Jabuti do ano seguinte como autor revelação.  Pode-se dizer que todo o livro é um monólogo do Sargento, que antes de aposentar-se recebe a incumbência de levar um preso, desafeto político de um mandão de Paulo Afonso (BA) até Aracaju (SE).         O personagem vai falando do que pensa a respeito do preso, da situação da estrada por onde passa,  do calor, da chuva ou estiagem, dos lugares e pessoas que encontra no trajeto. Vai resmungando e se alimentando de ira, vai contando as brigas e as violências que cometeu,  mistura um assunto com outro, delira, questiona lei e costumes...       Sargento Getúlio é daqueles homens que faz questão de cumprir uma ordem ou uma promessa a qualquer custo.  Foi obrigado a levar  o prisioneiro até Aracaju  ...