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Mostrando postagens com o rótulo cecília meireles

Natal, crônica de Cecília Meireles

Como estamos mudados! Em meio século, perdemos aquela ingenuidade dos votos dirigidos de janela a janela:  Boas Festas!", "Feliz Ano Novo!"; das ceias tradicionais, talvez copiosas, porém modestas; das lembrancinhas oferecidas às crianças como um dom misterioso do céu; dos vestidos novos para os ofícios das igrejas e as visitas aos presépios; alegria das músicas e cânticos, deslumbramento dos olhos diante de uma Belém infantil, com patinhos nos lagos e lavadeiras nos rios... Ah! como éramos sensíveis, imaginativos! Como estávamos prontos a completar, com a nossa memória dos episódios evangélicos, a paisagem arbitrariamente inventada! Como achávamos naturais todas as coisas desencontradas naquele mundo fictício! Talvez prevíssemos que o nosso não o era menos, e igualmente e misteriosamente desencontradas as coisas que nele iríamos presenciar! Esperávamos por esses últimos dias do ano combinando sonhos de novas alegrias alimentadas pelas lembranças dos anos anteriores. A v...

Desenho, poema de Cecília Meireles

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam. Isso era num lugar de sol e nuvens brancas, onde as rôlas, à tarde, soluçavam mui saudosas... O eco burlão, de pedra em pedra saltando, entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas. Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas, que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas, pois a vida completa e bela e terna ali já estava. Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! E o papagaio como ficava sonolento! O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmaticos fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros, e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. Maripôsas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes moravam nos jardins sussurrantes e eternos. E minha avó c...

Retrato de Mulher Triste, Cecília Meireles

Vestiu-se para um baile que não há. Sentou-se com suas últimas jóias. E olha para o lado, imóvel. Está vendo os salões que se acabaram, embala-se em valsas que não dançou, levemente sorri para um homem. O homem que não existiu. Se alguém lhe disser que sonha, levantará com desdém o arco das sobrancelhas, Pois jamais se viveu com tanta plenitude. Mas para falar de sua vida tem de abaixar as quase infantis pestanas, e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas. Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)' Imagem: Bent Figure of a Woman 1882 - Van Gogh

Os Cães da Aclimação, Cecília Meireles

     A primeira noite que passei nestes arredores da Aclimação foi uma noite de assombros. Descobri que havia verão em São Paulo: que a cidade da garoa desaparecera; que aqui, como no Rio, se podia sentir um calor sufocante, sob um céu sem promessas de chuva. Mas o assombro maior seria mais tarde, quando depois do apito do guarda-noturno, levantou-se nos ares um enorme alarido de cães, alarido que, a princípio, parecia uma simples exibição de vozes, um ensaio de sons, como quando as orquestras experimentam seus instrumentos - e que pouco a pouco se foi acomodando em lugares determinados, separando  essa espécie de sopranos, contraltos, tenores e barítonos, quem sabe sob a reg6encia de um maestro invisível.      Eram vozes extremamente numerosas e de qualidades variadíssimas; umas para efeito profundos e solenes; outras leves e fúteis, risonhas e brincalhonas. E, entre esses dois pólos, elevam-se as de timbre sentimental  e aveludado, as metálicas ...

Canção Para Van Gogh, Cecília Meireles

Os azuis estão cantando No coração das turquesas: Formam lagos delicados, Campo lírico, horizonte, Sonhando onde quer que estejas. E os amarelos estendem Frouxos tapetes de outono, Cortinados de ouro e enxofre, Luz de girassóis e dálias Para a curva do teu sono. Tudo está preso em suspiros, Protegendo o teu descanso. E os encarnados e os verdes E os pardacentos e os negros Desejam secar-te o pranto. Ó vastas flores torcidas, Revoltos clarões do vento, Voz do mundo em campos e águas, De tão longe cavalgando As perspectivas do tempo! No reino ardente das cores, Dormem tuas mãos caídas. Luz e sombra estão cantando Para os olhos que fechaste Sobre as horas agressivas. E é tão belo ser cantado, Muito acima deste mundo… E é tão doce estar dormindo! É preciso dormir tanto! (É preciso dormir muito…) ( Amsterdã, 5 de novembro de 1951) Fonte: Sonia Zagheto Imagem: 12 girassóis, Van Gogh

Romance LXI ou Dos Domingos do Alferes, Cecília Meireles

Quando sua mãe sonhava, como uma simples menina, já falava esse nome DOMINGOS Domingos Xavier Fernandes, que era o nome de seu pai. Quando a menina dizia, agora já mulher feita, DOMINGOS - era Domingos da Silva dos Santos. Outro Domingos. Domingos com quem casou. E quando, depois, sorria, estudando para mãe, DOMINGOS, Domingos - ia dizendo E assim ao primeiro filho filho Domingos, chamou também.    Esse nome de Domingos    por toda parte o seguira.    DOMINGOS:    na infância ao longe deixada,    na adolescência perdida,    em todo tempo e lugar... -Ah, Domingos de Abreu Vieira, quem batizará meu filho? DOMINGOS, meu amigo poderoso as coisas vão levar volta, quem sabe o que vou passar? Domingos sobre domingos nas folhas dos calendários: DOMINGOS - para a carta de Silvério, para a subida à Cachoeira, para a denúncia vocal... Ai! de domingo em domingo, chega ao caminho do Rio. DOMINGOS! Encontra Domingos Pires: "Leva pólvora, Do...

Nascida em 7 de Novembro: Cecília Meireles.

Este blog já fez várias postagens sobre a aniversariante de hoje. A minha preferida é esta , que mostra Cecília Meireles como pintora. Uma faceta da artista que eu não conhecia.   Noutra postagem, o blog esclarece uma dúvida sobre um poema que às vezes consta como de Cecília e noutras como de Vinicius de Moraes.  Janelas de Hotéis    e Natal  são  oportunidades de ver a autora além dos poemas.  Que tal encontrar  talvez   aqui ,   um pouco mais de Cecília Meireles?

A Língua do Nhem, Cacília Meireles

Havia uma velhinha que andava aborrecida pois dava a vida para falar com alguém. E estava sempre em casa a boa velhinha, resmungando sozinha: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem- nhem... O gato que dormia no canto da cozinha escutando a velhinha, principiou também a miar nessa língua e se ela resmungava, o gatinho acompanhava: nhem-nhem-nhem-nhem-nhem- nhem...

Vimos a lua, Cecília Mereles

Vimos a lua nascer, na tarde clara. Orvalhavam diamantes, a tranças aéreas das ondas e as janelas abrira-se para florestas cheias de cigarras. Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste. ninguém lhe dava importância. parece uma pena solta - diziam. Um flor desfolhada. Vimos a lua nascer, na tarde clara. Subia com seu diadema transparente, vagarosa, suportando tanta glória. Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu Reuniu exércitos de lã parda, levantou por todos os lados o alvoroto da sombra. Quando quisemos outra vez luar, ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças, e a floresta debater-se com o vento. Por detrás das nuvens, porém, sabíamos que durava, gloriosa e intacta, a lua. In: Flor de Poemas-1972, págs. 115/116 Imagem: nascer da lua cheia

Cançãozinha Para Tagore, Cecília Meireles

  Àquele lado do tempo Imagem do site:http://www.espiritbook.com.br Onde abre a rosa da aurora, Chegaremos de mãos dadas, Cantando canções de roda Com palavras encantadas. Para além de hoje e de outrora, Veremos os Reis ocultos Senhores da Vida toda, Em cuja etérea Cidade Fomos lágrima e saudade Por seus nomes e seus vultos. Àquele lado do tempo Onde abre a rosa da aurora, E onde mais do que a ventura E dor é perfeita e pura, Chegaremos de mãos dadas. Chegaremos de mãos dadas, Tagore, ao divino mundo Em que o amor eterno mora E onde a alma é o sonho profundo Da rosa dentro da aurora. Chegaremos de mãos dadas Cantando canções de roda. E então nossa vida toda Será das coisas amadas. (Antologia poética 3ª edição, Ed.do autor 1963)

O Menino Azul, Cecília Meireles

O menino quer um burrinho para passear. Um burrinho manso, que não corra nem pule, mas que saiba conversar. O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios, das montanhas, das flores, — de tudo o que aparecer. O menino quer um burrinho que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. E os dois sairão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largo e talvez mais comprido e que não tenha fim. (Quem souber de um burrinho desses, pode escrever para a Ruas das Casas, Número das Portas, ao Menino Azul que não sabe ler.)  

Doodle do Google: Cecília Meireles.

Hoje Cecília Meireles faria  113 anos e o google não deixou passar: fez um belo doodle pra grande escritora. Veja também a   Expo:  Cecília Benevides Carvalho Meireles

Canção de Outono,Cecília Meireles

Perdoa-me, folha seca,  não posso cuidar de ti. Vim para amar neste mundo,  e até do amor me perdi. De que serviu tecer flores pelas areias do chão,  se havia gente dormindo  sobre o próprio coração? E não pude levantá-la! Choro pelo que não fiz. E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz. Perdoa-me, folha seca! Meus olhos sem força estão velando e rogando àqueles  que não se levantarão... Tu és a folha de outono  voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim. Certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão... Você está ouvindo: Outono (Quatro Estações) de Vivaldi  

Depois do Carnaval, Cecília Meireles

          Terminado o carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.      À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.      Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pesso...

Expo: Cecília Benevides Carvalho Meireles

                        Cecília Meireles, também tinha trabalhos de pintura. O blog traz hoje, quando ela completaria 112 anos, algumas telas da artista. Quem tiver mais algum, por gentileza envie pra mim. Vamos divulgar outro lado tão belo e talentoso de Cecília Meireles. Aleatório - oleo sobre tela Aleatório 1 - óleo sobre tela Aleatório 2 - óleo sobre tela Série:Batuque, Samba e Macumba Aquarela e nanquim: Fontes: Série: Batuque samba e macumba. Estudo de gestos e ritmos 1926-1934 Edição especial de luxo. Tiragem limitada e numerada de 4650 exemplares. Ano 1983 - Funarte (nos sebos: livros raros) Pode ser adquiro nas livrarias  ou nos sebos www.anacarolinaq.com   www.nuevomundo.rever.org

Menino, Cecília Meireles.

Na próxima sexta-feira dia 7.10, Cecília Meireles faria 112 anos. Pedi e a jornalista Lêda Rivas me disse o que tem na página 112 de um livro que ela tem em casa:  Menino Trouxe um menino. Apanhei-o no bazar de   ouro e prata , onde as joias são como as folhas das mangueiras: milhares, milhares. Tudo ensurdecia: pulseiras, campainhas, brincos e pingentes, argolas para os tornozelos, correntes com guizos, enfeites para tranças, corações com pedra sangrenta, diamantes para a narina. Mas eu só trouxe a criança. Apanhei-a entre os   carrinhos de comida , grãos dourados, gomos de cana, bolinhos fumegantes, frutos de toda casta, biscoitos de pistache e rosa, açúcar em nuvens de algodão. Trouxe o menino. Apanhei-o entre mulheres morenas, lânguidas, sonâmbulas. Entre velhos de barbas imensas, que recitam versículos. Entre mercadores distraídos, de cócoras, que fazem subir e descer douradas balanças. Montes verdes,...