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Mostrando postagens com o rótulo crônica

O Bar dos Sonhos, crônica de Aldir Blanc

Meu amigo fê, filho do grande Isaac (várias vezes detentor do galardão "Mãe do ano"), está no ramo do bares. Fechava as contas do Portão Vermelho com a mulher Lina, quando uma ideia genial o deixou paralisado.      Deu uma golada na boazinha para se refazer e explicou o plano:      - Lina, vamos ficar ricos. vou abrir outro bar.      - Você está maluco?      - Não. Vai se chamar Ao Bar e Não Bebi.      - ???      - Imagine aquele sujeito que sai domingo de manhã para comprar frango de padaria e volta na segunda, só com uma asa estragada. O pau come, com meu novo bar, essas crises conjugais acabarão.      - Fê, devo chamar o médico?      - Centenas de biriteiros voltarão para o lar triscados. A patroa: "Onde você esteve?" O cara: "Fui Ao Bar e Não Bebi." Ora, vai ser chamado de mentiroso, pulha, canalha, alcoólatra, até prova definitiva: "Você jura pela vida de nossos ...

Conversa de Calçada, crônica de Ana Pottes

Cheguei há pouco de um passeio pela Encruzilhada do jeito que fazia há tempos. Sem hora nem pressa de buscar comida nas mercearias, barracas, mercado ou supermercados. Olhei a reforma daquele prédio de esquina com a Av. Norte. De tanto descuido, pedia socorro. No térreo, lojas — duas delas guardam muitas décadas. Os andares superiores foram bonitas residências. Parei. Pensei no tanto de vida que já foi vivida entre aquelas paredes. Agora pintadas, recuperadas, prontas a abrigar outros sonhos. Enquanto olhava e me deixava levar pelo fio das ideias, fui acordada pelo bom dia de um senhor que saía. Falei da minha satisfação em ver o prédio recuperado. Sorrindo, disse que outros proprietários, animados com o resultado, vão iniciar trabalhos de benfeitoria nos seus edifícios. Gostei do que ouvi. Conversamos um pouco sobre o abandono dos prédios e do esvaziamento de um comércio que já foi palpitante: movelarias, a Lobrás, lojas de variedades, uma padaria que fazia bolos e pães saborosos e, ...

História de Amor, crônica de Orígenes Lessa

     João Pereira da Silva, que também poderia chamar-se Aluísio Lisboa ou João Silveira, via na praia de Copacabana - o luar dava nas águas e se prolongava em praia oscilante sobre as ondas - a jovem Luizinha Arruda, que também se poderia chamar Yvete, Daniela ou Maria disso ou daquilo. O nome de fato, não importa. Não foi pelo nome nem pelo sobrenome que eles reciprocamente ignoravam, que o amor chegou. Foi pelo jeitão alto dele, pelo jeito redondinho dela. E pelos olhos, que nela eram negros e nele azuis. O primeiro olhar bastou. Parou o coração dela. Ele parou também. Não o coração, a marcha. Parou, voltou-se, acompanhou. Quando se viu seguida, Luizinha teve uma festa na alma. Quis fugir de contente. Quis morrer de alegria. Não sabia ao certo. E quando José Pereira da Silva falou - o nome ela saberia depois - Luizinha Arruda - o nome ele conheceria mais tarde - ficou plantada no lugar, muda e feliz, tal a grande emoção que sentia. “Permite-me acompanhá-la, senhorita...

A Árvore, crônica de Rubem Braga

     Assisti de minha varanda a um crime de morte: a vítima devia ter vinte ou vinte e cinco anos. Era uma bela árvore de copa redonda, no terreno junto à praia, onde havia antes uma casinha verde. A casa já fora derrubada, mas a árvore durou ainda algumas semanas, como se os criminosos, antes de matá-la, resolvessem passar ainda algum tempo gozando a sua sombra imensa.      Assisti à queda; os homens gritaram, ela estremeceu toda e houve primeiro como um gemido do folhame, depois baque imenso, um fragor surdo; no mar uma grande onda arrebentou; e o  mar e a árvore  pareceram estrondar de depois chorar juntos. Houve como um pânico no ar, pássaros voaram janelas se abriram; e a grande ramaria ficou tremendo, tremendo.      Anteontem e ontem os homens passaram o tempo a cortar os galhos, esquartejando a morta para poder retirá-la; o tronco mutilado ainda está lá, com uma dignidade dolorosa de estátua de membros partidos.    ...

A Estranha Quiromante, crônica de Thiago de Mello

     Sou um homem incrédulo às profecias que não sejam as anunciadas pela boca das nuvens. Apesar disso, na tarde de domingo, entreguei afinal minha mão à quiromante, de quem a amiga querida me falava aconselhando-me a visitá-la, pois se tratava de "uma pessoa diferente".      Ela pegou minha mão, ficou olhando, e de repente disse que eu era um caso perdido: haveria de viver sempre seguindo as falas do meu coração, que isso nos tempos modernos dava em sofrimento, mas eu nascera assim, assim morreria - não adiantava querer desentortar a vida. Fez uma pausa, fitou-me nos olhos com um jeito que me calou fundo, de tanta e doce ternura, e logo prosseguiu a falar de mim e de meus fados, com o rosto de novo inclinado sobre a minha mão direita.      Confirmou a história dos sofrimentos: ainda me estavam reervados alguns, além dos muitos já curtidos, mas que não tardaria muito, não senhor, soprariam ventos meljores, melhorando sempre até a velhice, q...

Sentou-se ao Meu Lado, crônica de José Lins do Rego

Sentou-se ao meu lado um homem rico, meu velho conhecido, e para mostrar-me que continua rico foi logo dizendo: - estou com o meu carro em conserto. E esta história de oficina, hoje em dia, é uma miséria. Ninguém quer trabalhar. E tudo custa três vezes mais. O outro companheiro concordou carregando ainda mais na mão. - É isto mesmo, o brasileiro que se diz operário não passa de um malandro. Ganha o que quer, e faz o que quer. - O homem rico e o desconhecido estavam de inteiro acordo. Era malandro pra cá e malandro pra lá. - E que me diz sobre o aumento do funcionalismo? - Perguntou-me o homem rico Quis fingir que não era comigo pergunta, mas não consegui. quis fingir que não era comigo a perginta, mas não consegui. Sou funcionário, e acho mesmo que nossa vida aumentou de custo de maneira assombrosa. - Isso todos nós achamos. Mas então você acha que a medida sumária de aumento dos ordenados resolve o problema? Aí é que está a desgraça do brasileiro. somos um povo de soluções apres...

Crônica de Fernando Sabino

Esmulambado, barbudo, cabelos desgrenhados, seria o tipo acabado do  mendigo, não fosse certo ar de dignidade que emana de seus movimentos. Vive rondando a porta do botequim, ali na rua Visconde de Pirajá. Outro dia tomou coragem e se dirigiu ao balcão: - Uma cachaça, por favor. - Pinga primeiro - resmungou o dono do botequim, com maus modos. - Ele pensou um pouco, compenetrado e ordenou: - Está bem, suspende. Não fica bem um sujeito da minha categoria beber cachaça. Limito-me a transcrever o resto de um diálogo que ouvi entre uma mulher e o empregado de um supermercado em Ipanema: - Há pessoas que pagam o mal com o bem - dizia ela. - A mão que afaga é a mesma que que apedreja - respondeu ele - É, mas nada como um dia atrás do outro - acrescentou ela - Esse é bom - concordou ele. E tem outro assim: não diga desta água não beberei. - Não é sopa não? - Não: é água mesmo. - E tem aquele: cuidado, jacaré, que a lagoa há de secar. - É isso aí - Pois então até logo - Até logo. Passe bem...

No Fundo Ele Sentia, crônica de Fernando Sabino

     No fundo, ele sentia ainda algum esperança, tal era o péssimo conceito que fazia da natureza humana:      - Esse juiz deve ter lá o seu fraco,      - Não tem. Solteirão, reaça, Deus-Pátria-Família, só pensa em cumprir a lei.      - De alguma coisa ele deve gostar - coçava a cabeça intrigado. - Não é possível que não tenha algum vício.      - Se tem ninguém sabe. Não bebe, não fuma, não joga. E não aceita nem cumprimento. Já quis processar um advogado que lhe ofereceu um cigarro.      Estas eram as desanimadoras informações que conseguia colher: inabordável e incorruptível. O meritíssimo era uma parada! Mas havia de dar um jeito.      Verdadeiro mestre na arte da alta trampolinagem, não existia irregularidade que, como empreiteiro, não tivesse praticado ao longo dos secretos meandros que levam à conquista das concorrências oficiais e à majoração dos lucros na execução dos ser...

O Carro Já Estava... , crônica de José Lins do Rego

     O carro já estava bastante lotado quando apareceu um passageiro que se espremeu na lata de sardinhas. Mas todos estavam felizes porque, àquela hora, fora uma providência aparecer um lotação para o Jockey.      E quando saimos da avenida, a conversa já estava pegada e a intimidade estabelecida.      - A bomba at6omica fracassou - dizia o homem da frente , quase sem poder mexer o pescoço.      - Fracassou nada - respondeu o outro lá do fundo do carro, com uma voz que vinha de longe.      - É truque americano - informava o companheiro ao meu lado. - americano não quer negócio de dividir segredo. E por isso fez toda aquela viagem.      - É, mas russo não vai no jogo. Russo é bicho manhoso.      - Que nada. Manha é do inglês.      - Americano diz o que sente. Eu não acredito que a história da bomba seja manobra.      - Eu não sei, mas acreditar em gring...

Elegia de Baby, crônica de Carlos Drummond de Andrade

     Tinha sete anos, e ainda era mais criança do que qualquer menina de sua idade. Pesava mil e quinhentos quilos, e chegaria a pesar quatro mil, se vivesse. Não viveu. Nascida na Índia, veio morrer no Leblon, sob a lona de um circo devastado pelo temporal — e essa madrugada de vento furioso, que ameaçava acabar com o mundo, terá sido um dos “fatos” de sua pequena vida sem acontecimentos.      Já se sabe que o necrológio é de Baby, a elefantinha que morreu de infecção na garganta. Esses animais são rústicos e delicados, e se no meio nativo se alimentam de plantas espinhentas, de cujo contato fugimos, padecem entretanto dos mesmos males que padecemos, e têm, quanto a nós, a desvantagem de uma sensibilidade que se ajustaria melhor ao nosso corpo que ao deles, ao passo que a nossa poderia chamar-se mais precisamente elefantina.      Vão rareando os elefantes, e com eles a doçura e a paciência na face da terra. Que a espécie caminha para o fim, ...

O Olhar e o Carnaval, crônica de Mariana Bertolucci

Eu sempre adorei a folia e as  fantasias de Carnaval . Não tinha a disciplina e a técnica do balé clássico (que eu também amava), tampouco a imponência e o acabamento dos trajes e nem o frio na barriga antes de entrar no palco nas apresentações de final de ano da tia Lenita, minha professora amada que hoje está de aniversário. Um jeito diferente e mais descontraído de encarnar um personagem e contar uma história cheia de liberdade e purpurina. Era como esperar o ano inteiro a   festa da liberdade , como faz a turma da escola de samba, se preparando, ensaiando, economizando e esperando pelo maior espetáculo da terra. O mundo inteiro assiste, e a   festa   popular contagia. Lembro das minhas primeiras  fantasias  e trajes com muito carinho, mas hoje falarei só das  fantasias . A de índia com penas rosa-choque foi a primeira — eu era tão pequena que nem a parte de cima minha mãe colocou — e, depois, a de melindrosa, que é essa da foto acima. No tempo em q...

Apenas Um Cisco no Olho, crônica de Clarice Lispector

E de repente aquela dor intolerável no olho esquerdo, este lacrimejando, e o mundo se tornando turvo. E torto: pois fechando um olho, o outro automaticamente se entrefecha. Quatro vezes no decorrer de menos de um ano um objeto estranho agrediu meu olho esquerdo: duas vezes ciscos não identificados, uma vez um grão de areia, outra um cílio. Das quatro vezes tive que procurar um oftalmologista de plantão. Da última vez que perguntei àquele que realiza a sua vocação através de cuidar por assim dizer de nossa visão do mundo: por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência?   Ele respondeu que não. Que, por mais normal que seja uma vista, um dos olhos vê mais que o outro e por isso é mais sensível. Chamou-o de olho diretor. E este, por ser mais sensível, prende o corpo estranho, não o expulsa.   Quer dizer que o melhor olho é aquele que é a um só tempo mais poderoso e mais frágil, atrai problemas que, longe de serem imaginários, não poderiam ser mais reais que a ...

Natal, crônica de Cecília Meireles

Como estamos mudados! Em meio século, perdemos aquela ingenuidade dos votos dirigidos de janela a janela:  Boas Festas!", "Feliz Ano Novo!"; das ceias tradicionais, talvez copiosas, porém modestas; das lembrancinhas oferecidas às crianças como um dom misterioso do céu; dos vestidos novos para os ofícios das igrejas e as visitas aos presépios; alegria das músicas e cânticos, deslumbramento dos olhos diante de uma Belém infantil, com patinhos nos lagos e lavadeiras nos rios... Ah! como éramos sensíveis, imaginativos! Como estávamos prontos a completar, com a nossa memória dos episódios evangélicos, a paisagem arbitrariamente inventada! Como achávamos naturais todas as coisas desencontradas naquele mundo fictício! Talvez prevíssemos que o nosso não o era menos, e igualmente e misteriosamente desencontradas as coisas que nele iríamos presenciar! Esperávamos por esses últimos dias do ano combinando sonhos de novas alegrias alimentadas pelas lembranças dos anos anteriores. A v...

Uma Novela Fora da TV, crônica de José Paulo Cavalcanti

     Cristina procurou um amigo advogado. Não era consulta. Fora só comunicar que iria se suicidar. "Que é isso?, mulher." A escolha de um advogado, para essa comunicação, deu-se apenas por confiar nele.E Não ser alguém da família. Passaram a conversar. Decidira morrer por conta de um telefonema. O doutor estava perplexo. Já vira muitos que desistiram da vida, quase todos em razão de problemas financeiros; ou alguma doença incurável; ou, apenas, por compulsão de alguma neurose. Coisas assim. Não era o caso de agora em que uma mulher estava tranquila e bem. O doutor pediu que contasse o que acontecera, no tal telefonema, para a levar a uma decisão tão drástica. Foi assim.      Cristina estava em frente à TV. Como sempre. Na novela das oito, mulheres iguais a ele viviam amores impossíveis. Paixões ardentes que jamais Cristina seria capaz de sentir. Distantes de sua vida, que nessas horas lhe parecia banal. Sem nenhuma promessa de futuro. O marido, como em tod...

O Retrato da Santa Ficou Na Parede da Sala, crônica de Marcos Cirano

     Certo dia ele acordou e notou que ela não estava mais em casa. Também não deixou um bilhete, nem de uma só palavra: simplesmente sumiu. E fez questão de levar tudo o que era dela, coisas poucas é verdade: roupas, alguns pares de sapatos, um estojo de maquiagem, a coleção de cartas que ele lhe enviara enquanto ainda eram namorados muitos anos atrás e uma pulseira de ouro que ela ganhou no dia em que os dois casaram. O quadro com a imagem de Nossa Senhora de Fátima que ficava na parede da sala, esse ela deixou no mesmo lugar: até porque, embora comprado por ela, aquele objeto sagrado a ninguém pertencia e era preciso que ele continuasse ali, protegendo a casa onde os dois viveram uma bonita e intensa vida por quase seis décadas.      Ele não chorou naquele dia, nem resmungou como de costume quando algo lhe contrariava. Apenas ficou sem entender por que ela partiu em completo silêncio e, justo, num tempo em que a vida seguia sem qualquer desgosto... Fosse...

Como Foi Que o Tempo de Tânia ficou Paralisado Em 1960, crônica de Ignácio de Loyola Brandão

     Era um samba-canção interpretado em todas as boates, em cada piano-bar da noite. O disco vendia como água. A todo momento, passando pelas lojas de discos eu ouvia: Diga que já não me quer, Negue que me pertenceu, Que eu mostro a boca molhada, Ainda marcada pelo beijo seu.*      Aquele refrão ficava em minha cabeça. Tocava no apartamento de Tania mulher, que morava na praça Marechal Deodoro e que me ligava para levá-la às estreias dos filmes. Havia muitas estreias naquele começo de década de 1960, e eu, crítico de cinema, tinha convite para todas. Não sei como Tania descobria, devia ler no jornal. Ela me ligava:      - Amanhã tem estreia. Vamos?      - Vamos.      Ia buscá-la de táxi. depois do cinema, ela insistia em jantar no Gigetto, então restaurante badalado; Tania gostava de ver arristas, queria que eu apresentasse. Quando eu subia até o apartamento dela, ouvia aquela canção: Diga que meu pranto é covar...

Pelas Ruas de Tirano, crônica de José Paulo Cavalcanti

  Tirano fica bem ao norte de Itália. Na Lombardia, já fronteira com a Suiça. É famosa por muralhas construídas, no final do século XV, por Ludovico Sforza - O Mouro; pelo Santuário della Madonna, dos inícios do século XVI; e por suas três grandes portas - Bormina, Milanese e Poschiavina.      Marmirolli fazia parte daquela paisagem de cartão-postal.Órfão dos pais, desde cedo foi criado por uma velha tia. Com todos os cuidados e carinhos próprios dos filhos únicos. Até quando foi estudar em Milão. Já engenheiro, e com o advento da Segunda Guerra, voltou à terra. Não em busca de emprego, como seria natural; mas para ser partigiano - contra o Eixo de Hitler e Mussolini. Tendo plena consciência dos riscos que corria. E não foi surpresa para ninguém quando seu grupo acabou nas mãos de tropas alemães. Ao meio-dia de um dia quente, ainda mai quente que os dias quentes daquela época do ano. Quente como ferragosto.       Aqueles quase meninos foram então...