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No Fundo Ele Sentia, crônica de Fernando Sabino


     No fundo, ele sentia ainda algum esperança, tal era o péssimo conceito que fazia da natureza humana:
     - Esse juiz deve ter lá o seu fraco,
     - Não tem. Solteirão, reaça, Deus-Pátria-Família, só pensa em cumprir a lei.
     - De alguma coisa ele deve gostar - coçava a cabeça intrigado. - Não é possível que não tenha algum vício.
     - Se tem ninguém sabe. Não bebe, não fuma, não joga. E não aceita nem cumprimento. Já quis processar um advogado que lhe ofereceu um cigarro.
     Estas eram as desanimadoras informações que conseguia colher: inabordável e incorruptível. O meritíssimo era uma parada!
Mas havia de dar um jeito.
     Verdadeiro mestre na arte da alta trampolinagem, não existia irregularidade que, como empreiteiro, não tivesse praticado ao longo dos secretos meandros que levam à conquista das concorrências oficiais e à majoração dos lucros na execução dos serviços. Até o dia que aquele ministro do Tibunal de Contas, não tendo nada de melhor a fazer , resolveu esmiuçar lá umas continhas, e foi no que deu: ao tocar no fio de cabelo de um pequeno ilícito que deixara a cabecinha de fora, puxou uma fieira de picaretagens capaz de abalar seriamente a economia da nação. E o nosso tranbiqueiro se viu de repente envolvido num inquérito que submeteria aos rigores da lei, com suas desastrosas consequências, todas as malandragens que havia praticado até então.
     A situação estava a exigir ação rápida e fulminante. O diabo é que tudo dependia daquele maldito juiz, em cujas mãos impolutas o processo fora cair.
     Mais eis que seu informante acrescenta casualmente, como se fosse um dado apenas pitoresco:
     - Dizem que ele gosta de colecionar lápis.
     Saltou da cadeira.
     - Como? Colecionar lápis?
     Então era essa a mania do homem! Juiz também é gente, que diabo. Jamais imaginaria que alguém pudesse dedicar-se a semelhante bobagem, colecionar lápis. Ainda se fosse lápis de cor, especial para desenhar - mas não: eram lápis pretos mesmo destes comuns. Soube ainda que o meritíssimo, entre um processo e outro que levava para examinar em casa, ficava a distrair-se de noite com sua coleção de lápis, comparando-os, alinhando-os em cima da mesa como um menino a brincar com soldadinhos de chumbo.
     - Deixa ele comigo - concluiu, entusiasmado.
     No mesmo dia pôs-se em campo para apurar tudo o que pudesse sobre lápis - sua fabricação, os diversos tipos existentes, as várias marcas nacionais e estrangeiras. Descobriu, com grande pasmo, que havia outros colecionadores além do juiz. Conhecido baqueiro se orgulhava, mesmo, de sua coleção, uma das melhores do mundo. Dirigindo-se a estes especialistas, pôs anuncios nos jornais: compro lápis de qualquer marca, qualidade ou procedência, pago bem. Não satisfeito, encomendou a correspondentes em vários países da Europa que lhe mandassem o que pudessem. Em pouco dispunha de uma variada coleção, de fazer inveja aos aficionados do gênero.
     Chegara, enfim, a hora do ataque. Meteu sua coleçcão de lápis numa pasta 007 e saiu com ela para a audiência que solicitara ao inexpugnável juiz. Este, do alto de sua incontrastável autoridade de magistrado, mal se dignou de ouvi-lo:
     - O senhor sabe, eu tenho aí um processo, e queria fazer a Vossa Excelência algumas poderações...
     - O senhor se dirija ao juizo na forma da lei.
     - É que há no processo alguns aspectos a considerar...
     - Só considero o que for de justiça.
     - Eu sei, mas acontece...
     Enquanto falava, seus dedos brincavam nervosamente com o fecho da pasta repousada sobre os joelhos. Num movimento disfarçado fez com que a tampa se abrisse, e os lápis rolaram estreptosamente pelo chão.
     - Que é isso? - o juiz se ergueu, sobressaltado.
      - Vossa excelência queira desculpar... É uma coleção de lápis que uma velha tia me deixou de herança... Não sei o que fazer com ela, estou pensando em dar para algum orfanato ou escola pública.Só servem mesmo para meninos pobres.
     - Meninos pobres? - e a essa altura o juiz já estava de quatro, catando lápis pela sala e até debaixo da mesa, examinando com olhos ávidos um e outro. O dono da coleção pôs-se a ajudá-lo, também de quatro:
     - Se Vossa excelência, quiser, fique com eles, é um favor que me faz.
     E acrescentou, como quem não quer nada, estendendo-lhe a pasta com os lápis já recolhidos: - Quer dizer que Vossa Excelência acha que o processo deve ser arquivado...
     - Isto mesmo.
     No mesmo dia o juiz assinou despacho mandando arquivar o processo. A lápis.

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