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Narração, poema de Giórgos Sefaris ( tradução: Darcy Damasceno)


Esse homem caminha chorando;
Ninguém saberia dizer por quê.
Alguns pensam que ele chora amores perdidos
Como os que nos atormentam tanto,
No verão, junto ao mar, com os fonógrafos.
Outros pensam em suas tarefas cotidianas,
Papéis inacabados, filhos que crescem,
Mulheres que envelhecem com dificuldade.
Ele possui dois olhos como papoulas,
Como papoulas colhidas na primavera,
E duas pequenas fontes no canto dos olhos.
Ele caminha nas ruas, não se deita nunca,
Transpondo pequenos quadrados sobre o dorso da terra,
Máquina de viver um sofrimento sem limite
Que termina não tendo mais importância.
Outros ouviram-no falar
Sozinho, enquanto passava,
De espelhos partidos há muitos anos,
De rostos partidos no âmago dos espelhos,
Que ninguém poderá jamais restaurar.
Outros ouviram-no falar do sono,
De visões horríveis nas portas do sono,
De rostos insuportáveis de ternura.
Habituamo-nos a ele, ele é correto, é tranquilo
Só que caminha chorando sem parar,
Como os salgueiros à beira dos rios que percebemos do trem
Numa madrugada enevoada, quando de um despertar desagradável.
Habituamo-nos a ele – ele nada significa,
Como tudo que se torna um hábito;
E se vos falo dele é que não vejo nada
Que não se tenha tomado um hábito para vós.
Meus respeitos.

Sobre o autor:
Giórgos Seféris foi um escritor grego, um dos poetas mais importantes da "geração de 30", que introduziu o Simbolismo na moderna literatura grega, filiado então à tradição intelectualista deste, a de Paul Valéry e Mallarmé. Nasceu em Esmirna (Turquia) Faleceu em Atenas (Grécia). Ganhador do Nobel de Literatura de 1963.

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