Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Alice

Três Mulheres E Uma Quarta, poema de Adélia Prado

Arnalda, Alice e Armantilda são três mulheres piedosas que amam passar as tardes no serviço do templo. Arnalda, forte e bruta, lava teto, piso e paredes, lustra sacrário e átrio. Alice é para as flores: a espécie conforme o jarro e o calendário litúrgico. Armantilda é para adorar. O Senhor ama igualmente as três, mas simpatiza mais com Araceli. À uma e meia da tarde elas vêm com balde, rosário e rosas, Araceli com seu nariz. Ai que cheiro, ela diz: poeira, flor murcha e incenso, o sovaco de Deus. Ai que cheiro, ela diz, louvado seja! Quando ela chega, desacomoda o pó de entremeio-os-dedos das imagens, os toquinhos de vela crepitam e morrem, arroxeiam de vez as rosas de remédio na jarrinha. Araceli cheira e cata, feliz como um cachorro, e sai com o lixo sagrado dela.

Bateu Vontade de Ler: Deixem Falar As Pedras, Davi Machado

     Não bastasse a fila de livros que tenho para ler, fui apresentada por minha filha e esse autor português de quem nunca tinha ouvido falar.  Vício em livros e curiosidade são uma combinação perfeita. Bateu vontade de ler e, que breve vou na casa dela buscar em prestado.  Que jeito? Esse livro é sobre verdade, mas não necessariamente A verdade. Um velho talvez já caduco conta uma história de décadas passadas para um adolescente que talvez esteja, mentalmente, exagerando tudo que ouve. Talvez. . Deixem Falar as Pedras pergunta quantas verdades podem existir. O que os fatos significam para cada pessoa, como cada um os entende, as diferentes possíveis interpretações da mesma história, e como a memória (afetiva ou real) pode mudar tudo. . O velho conta ao neto o passado ocorrido durante a ditadura em Portugal. Daí, como nós sabemos bem, entram em jogo também as mentiras fabricadas e as versões mal contadas que movem regimes assim. . O que realmente aconteceu? Tem...

Enquanto Chove e a Noite é Triste, Austro Costa

- Ter alguém junto a mim, nesta noite tão fria! Exclamo, e fico a espiar, através da vidraça, a rua, agora tão deserta e sem poesia, a rua, ao Luar vazia, onde somente cai a chuva, e ninguém passa... Ah, ter alguém aqui, mas, alguém que reunisse ao Mistério a ternura amorável! Aquela... Aquela que eu não sei se é Dulce, ou Alda, ou Alice, porém cuja meiguice há de o estilo possuir das lindas cartas dela! ... E ela é apenas Mistério. Ama-me, e tem receio de que eu lhe saiba o nome! E nem vem ... Mas, virá? Sonho-a, entanto, imagino-a aqui junto ao meu seio, lendo os poemas que eu leio ou traduzindo, ao piano, uns motivos de Bach. Sinto-lhe a mão macia em meu ombro. Tão leve!... Ouço-lhe a doce voz, feita de suaves trenos. Olho-a e sinto que a mão não a pinta  ou descreve: Ela é a Branca de Neve que eu apero, final, nos meus braços morenos. Sonho-a apenas, entanto. Ela não vem agora... E eu - tão feliz na  minha ingênua Fantasia! -Sim; alguém há de ...