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Mostrando postagens com o rótulo crônicas brasileiras

Primeira Paixão, Antônio Maria

O amor, nas crianças, é um estado de alma absorvente, pastoso e imenso que, embora não seja uma coisa muito definida, leva o menino apaixonado a uma série de sonhos, de medos, de renúncias, de tramas secretas e, principalmente, de ânsia heroica - quando a gente tem vontade que a amada comece a morrer afogada para a gente salvar. Eu me lembro de que o meu primeiro e grande amor aconteceu aos seis anos de idade. Apaixonei-me perdidamente por uma moça de trinta, por quem me cortaria, me queimaria, me desonraria e morreria, se preciso fosse. Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer, embora todo mundo houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto. Ela era linda - achava que eu a amava - tudo nela era perfeito. E só muitos anos mais tarde fui ver que aquilo que os outros diziam era verdade: ela era horrível. Mais feia do que aquilo, podiam matar, que era bicho. Hoje ela vive ainda, vejo-a de vez em quando, velhinha gasta em tudo, muito mais feia do que quando ...

Os Canários, Antônio Maria

     Há muitos dias estou para escrever qualquer coisa sobre dois canarinhos-da-terra que pousam todas as tardes num galho de acácia, bem em frente  à minha janela. A princípio, pensei que fossem um canarinho e uma canarinha em começo de caso sentimental. Mas, não. Os dois têm cabecinhas avermelhadas e isto, em canário-da-terra, é sinal de machidão. Chegam depois das duas, instalam-se sempre no mesmo galho e ficam horas a fio conversando, contando coisas, passando o tempo. De vez em quando, um levanta a asa e o outro coça. É a única atitude mais ou menos suspeita, nessa amizade de passarinho, que venho acompanhando  há já algum tempo. No mais são sóbrios, dignos e respeitáveis. Devem te alguma coisa em comum para debater diariamente. Talvez seja literatura, talvez seja música. Acontece que, quando algum sanhaço esvoaça e vem pousar na mesma árvore, eles se olham ( como se consultando) e voam para longe. Fazem questão desse isolamento e, mesmo quando o passarinho...

Crônica cantada: História de Lily Braun, Chico Buarque e Edu Lobo.

A história de Lily Braun Chico Buarque e Edu Lobo Como num romance O homem dos meus sonhos Me apareceu no dancing Era mais um Só que num relance Os seus olhos me chuparam Feito um zoom Ele me comia Com aqueles olhos De comer fotografia Eu disse cheese E de pose em pose Fui perdendo a pose Até sorrir feliz E voltou Me ofereceu um drinque Me chamou de anjo azul Minha visão foi desde então Ficando flou Como no cinema Me levava as vezes Uma rosa e um poema Foco de luz Eu feito uma gema Me desmilinguindo toda Ao som do blues Abusou do scotch Disse que meu corpo Era só dele aquela noite Eu disse please Xale no decote Disparei com as faces Rubras e febris E voltou No derradeiro show Com dez poemas e um buque Eu disse adeus Já vou com os meus Numa turne Como amar esposa Disse ele que agora Só me amava como esposa Não como star Me amassou as rosas Me queimou as fotos Me beijou no altar Nunca mais romance Nunca mais cinema Nunca mais drinque no dancing...

Crônica cantada: Querido diário, Chico Buarque

Querido diário Chico Buarque Hoje topei com alguns conhecidos meus Me dão bom-dia [bom-dia], cheios de carinho; dizem para eu ter muita luz e ficar com Deus Eles têm pena de eu viver sozinho Hoje a cidade acordou toda em contramão Homens com raiva, buzinas, sirenes, estardalhaço De volta à casa, na rua recolhi um cão que, de hora em hora, me arranca um pedaço Hoje pensei em ter religião De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício Por uma estátua ter adoração Amar uma mulher sem orifício Hoje, afinal, conheci o amor E era o amor, uma obscura trama não bato nela, não bato nem com uma flor mas se ela chora, desejo-me em flama Hoje o inimigo veio, veio me espreitar Armou tocaia lá na curva do rio Trouxe um porrete, um porrete a "mode" me quebrar mas eu não quebro não, porque sou macio, viu?!