Os "tubarões azuis" - à maneira dos tubarões não se deixam impressionar pelas pernas que entram no mar. Para os tubarões, todas as pernas são iguais - as dos presidentes e as dos serventes, as dos génios e as dos tontos. E são iguais porque todas servem para comer. Todas são nutritivas. E nunca se deve ter medo de um petisco.
Os treinadores estão a pedir aos jogadores que adoptem, por amor de Deus, a atitude da selecção de Cabo Verde. Mas não é só a atitude - não ter medo, quere ganhar, ter orgulho na camisola - são coisas que muitas outras selecções têm.
Na selecção de Cabo Vede havia maia qualquer coisa. E não era amor à camisola. Era amor por Cabo Verde, com ou sem camisola. Era amor uns pelos outros. Era um amor invencível: um amor que está sempre a ganhar, um amor correspondido, um amor como a música, que se espalha sem esforço nenhum de ninguém - mas que precisa inicialmente do talento dos músicos.
Foi o amor que levou Sidny Lopes Cabral a saltar para as bancadas à procura da namorada. O golo não poderia ter sido mais bonito, mas mais bonito foi o gesto romântico do marcador, que não descansou enquanto não abraçou a mulher que ama e que provavelmente gosta mais dele do que os colegas da equipa, ou o mais fanático dos torcedores.
É um amor que faz sentido, que serve de exemplo, que restaura a humanidade, que dá vontade de amar. É assim com os amores grandes e verdadeiros: nem reparam em quem está a ver. Não só não se importam de servir como exemplo - como exemplo de futebol e exemplo de vida - como nem sequer dão por isso.
Obrigado, Cabo Verde. Esta vai ficar para sempre.
Miguel Esteves Cardoso para a coluna: Ainda Ontem, jornal "Público" de Portugal

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