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Mostrando postagens de 2017

Passagem de Ano, Carlos Drummond de Andrade

O último dia do ano não é o último dia do tempo. Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão. O último dia do tempo não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olho e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até se Deus... Recebe com simplicidade este presente do [acaso. Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos. Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte, mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer. O recurso de se embriagar. O recurso da dança e do grito, o recurso da bola co

Na Noite Santa Em Que Nasceu Jesus, Rogaciano Leite

Belo soneto de Rogaciano Leite, escrito de improviso numa mesa de bar no Recife, na véspera de Natal do ano de 1953. O tema: " Na noite santa em que nasceu Jesus ", foi dado pelo  folclorista Aleixo Leite Filho (Leci).   Bebo. E, bebendo pela vida afora  Esqueço-me das mágoas torturantes De hora em hora, de instantes em instantes, De instantes, em instantes, de hora em hora. Vejo as visões que já não tenho agora, Visões e outrora que já vão distante. São fantasmas de amor extravagantes, Extravagantes ilusões de outrora. Bebo. E ninguém me culpe desse vício; Se eu rolar, ou tombar no precipício, Conduzirei, sozinho, a minha cruz. Porém, jamais, embora frente à taça Me esquecerei do amor, da luz, da graça, Na noite santa em que nasceu Jesus. Do livro, “Rogaciano Leite – do Cordel ao Erudito” de Paulo Cardoso.

Dedicatória (2): Aos Bichos, Às Nuvens, Aos Rios-Irmãos, Luciano Maia

Aos Bichos Ao bicho triste (pé de arribação) À acauã que canta o triste fado À juriti, ao pássaro carão À asa-branca, ao sabiá, ao gado Que bebe o rio-ausente do verão Em cantigas de aboio represado. A todos os viventes dos caminhos Reverberadas pelos passarinhos. Às Nuvens Ás andarilhas nuvens tropicais Que recebem do solo vaporoso As águas em conúbios vesperais E retornam (nem sempre) ao sequioso País das pedras intertemporais Nalgum velado encontro, em breve pouso Dedico (na esperança de revê-las) Este canto de amor sob as estrelas. Aos Rios-Irmãos Aos rios do Ceará, principalmente Os do sertão sedento que não vão Muito longe da terra seca e quente Onde resiste o deserdado irmão Preso a um fio d´agua sucumbente Que o amarra à sina deste chão Mas que ao tempo do solo lavradio É a mais doce vazante do meu rio. In: Maia, Luciano, Jaguaribe Memória das Águas, Governo do Estado do Ceará 2010 Imagem: Assembleia legislativa do estado do Ceará Leia ta

A Orelha de Van Gogh, Moacyr Scliar

           Estávamos, como de costume, à beira da ruína. Meu pai, dono de um pequeno armazém, devia a um de seus fornecedores importante quantia. E não tinha como pagar. Mas, se lhe faltava dinheiro, sobrava-lhe imaginação… Era um homem culto, inteligente, além de alegre. Não concluíra os estudos; o destino o confinara no modesto estabelecimento de secos e molhados, onde ele, entre paios e linguiças, resistia bravamente aos embates da existência. Os fregueses gostavam deles, entre outras razões porque vendia fiado e não cobrava nunca. Com os fornecedores, porém, a situação era diferente. Esses enérgicos senhores queriam seu dinheiro. O homem a quem meu pai devia, no momento, era conhecido como um credor particularmente implacável. Outro se desesperaria. Outro pensaria em fugir, em se suicidar até. Não meu pai. Otimista como sempre, estava certo de que daria um jeito. Esse homem deve ter seu ponto fraco, dizia, e por aí o pegamos. Perguntando daqui e dali, descobriu

Quadros, Marin Sorescu - tradução: Luciano Maia

Todos os museus têm medo de mim porque cada vez que fico um dia inteiro em frente de um quadro, no dia seguinte se anuncia o seu desaparecimento. Todas as noites sou flagrado roubando em outra parte do mundo, mas eu não me importo com as balas que silvam perto dos meus ouvidos e com os cães-lobos que conhecem agora o cheiro dos meus rastros melhor que os namorados o perfume da amada. Falo alto com as telas que põem em perigo a minha vida penduro-as nas nuvens e nas árvores e recuo para ter perspectiva. Com os mestres italianos pode-se ter facilmente uma conversa. Que algazarra de cores! Também por esse motivo com eles sou flagrado rapidamente visto e ouvido à distância como se levasse papagaios nos braços. O mais difícil é roubar Rembrandt: estendes a mão e encontras a escuridão – Ficas horrorizado, os seus homens não têm corpos apenas têm olhos fechados em caves escuras. As telas de Van Gogh são doidas giram e dão cambalhotas e tenho de segurá-las bem

Biografia do Língua, Mário Lúcio Sousa

- É isto a liberdade? Há qualquer coisa de inseparável entre liberdade e solidão. Mas também há qualquer coisa de parecido entre liberdade e o amor. Serão iguais. Solidão ajuda a perceber a liberdade. Mas é em companhia que a gente a saboreia. Acho que no amor acontece o mesmo: a sós significa dois. Mas liberdade com medo, liberdade fugindo, não é liberdade, é soltura. Seja como for, não é submissão. Amor deixado para trás é amor? Liberdade nós trazemos connosco. E o amor? Também. Todos os que eu amei estão cá comigo. Ajudem-me. O meu consolo é que, pelo que eu pude perceber, um escravo fujão nunca é considerado um homem covarde. O padrinho entenderá. Espero que minha menina também. Mas vou viver sem eles toda a vida?  O Língua olhava para o seu fardo, para o incansável outro que o tinha suportado todos os dias, dizia-lhe:Aguenta-te, rapaz, não me abandones e não te abandonarei.

Ser Levado, Vitorino Nemésio

Tivesse eu sido o que não fui, Hoje era o mesmo projectado António, Pedro, Lopo, Rui, Quatro semblantes num só estado.

Pedaços, Marcos Cirano - Convite

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A Noite Em Que Houve Um Acidente, Chimamanda Ngozi Adichie

          Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido     A tia Chinwe estava linda com um vestido cor de pêssego. “Acho que o Emeka sempre soube!”, disse com um sorriso. No pescoço usava um colar de coral. Tinha tanta energia quanto uma atriz de teatro no dia de estreia, cheia de entusiasmo, nervosa, ansiosa de convencer seu público com a versão de si mesma que ia mostrar para eles.      Dei ao tio Emeka o enorme cartão de aniversário que tínhamos comprado e ele me abraçou. “Como você está crescendo rápido! Em seguida, começarão a chegar os pretendentes. Mas primeiro eles precisam vir pedir minha permissão!”.

Dedicatória (1), Luciano Maia

Aos Cantadores Aos poetas duendes do Sertão reinventores mágicos da lenda mestre Vitalino recontada nas noites de clarão (barco-viola aos remos da contenda seguindo a correnteza do refrão) na torrente da rima, em cuja senda desliza o meu poema de alma andeja neste rio de verve sertaneja. Aos Retirantes Dedico o meu poema a este povo peregrino habitante dos caminhos que depois de morrer nasce de novo ressurgido das sombras, dos espinhos. Dedico este meu canto em que não louvo o sem-rumo dos rastros ribeirinhos mas a força telúrica do rio e a sangria assassina denuncio. Imagem retirantes: Cristina turma 413 In: MAIA, Luciano, Jaguaribe Memória das Águas, SCJCC e Governo do Estado de Ceará , 2007. Leia também: Dedicatória 2  

Recado de Primavera, Rubem Braga

                                                                      Meu caro Vinicius de Moraes:      Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio.   E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.

Cântico Negro, José Régio

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho do

Saudação Aos Que Vão Ficar, Millor Fernandes

Como será o Brasil no ano dois mil? As crianças de hoje, já velhinhas então, lembrarão com saudade deste antigo país, desta velha cidade? Que emoção, que saudade, terá a juventude, acabada a gravidade? Respeitarão os papais cheios de mocidade? Que diferença haverá entre o avô e o neto? Que novas relações e enganos inventarão entre si os seres desumanos?

O Que Estou Lendo: Fantasma, Luiz Alfredo Garcia-Roza

     Eu nem sou interessada em romance policial, mas Garcia-Roza é uma exceção e eu gosto muito do seu delegado Espinosa. Recomendo.   A mulher sentada à beira da calçada na avenida Nossa Senhora de Copacabana só se sente em casa vivendo na rua - estar entre paredes a oprime, ela tem a sensação de que vai morrer sufocada. É tão fina e educada que todos a chamam de Princesa. Seu 'lar' é um trecho do piso de cimento delimitado por pedaços de papelão. Muito gorda, tem dificuldade para se mover. Mesmo assim, não descuida da aparência - alisa bem o vestido sobre as pernas esticadas, penteia-se com esmero e passa batom com pelo menos frequência - sempre que recebe a visita do delegado Espinosa. E o delegado Espinosa visita Princesa várias vezes por dia. Afinal, tudo indica que ela viu quem enfiou uma faca no homem muito branco, talvez um estrangeiro, que amanheceu morto na calçada a alguns metros dela. Mas Princesa costuma sonhar, às vezes até quando está acordada

Ofensa, Tudor Arghezi

Desdenhei do granito, ó companheira, Do qual te poderia ter moldado. Busquei na argila do país amado Teu corpo esbelto e com odor de cera. Recolhi terra em bosques ancestrais E amassei-a com minha mão de oleiro Em partes, cada membro por inteiro Teu ser pequeno, em sílex fugaz. Esmaltei os teus olhos de verbena E os cílios foram folhas de roseira. As sobrancelhas, ramos em fileira De erva recente, de uma luz amena. O teu dorso dos cântaros formei E se em teus seios tenho demorado Com mão acesa, sinto-me culpado Se na cintura a estátua não findei.

LivroErrante na Escola Municipal Albenice Maria

     O blog LivroErrante, com a aprovação da direção da Escola M.Albenice Maria, está  tentando levar interesse pela leitura a jovens do fundamental II. Começando com um grupo de 15 alunos escolhidos pelo demonstrado interesse e bom desempenho escolar, o blog enviou 10 livros de estilos e autores diferentes.     Os exemplares seguem diretamente para os alunos  e não para a biblioteca da escola.              A ideia é que depois de lido eles sejam emprestados a tantos colegas quantos queiram ler. Assim, os livros circularão e quando (se) não tiver mais nenhum interessado, voltem aos seus donos.      Os livros acima já estão  com os alunos dos 8º e 9º anos, da Escola Municipal Albenice Maria da Silva em Jaboatão dos Guararapes.       No dia 14, o blog envia o último pacote com cinco livros. Aí, todos: Sônia, Larissa Leonardo, Adriele, Estefane, Ana Raquel, Francielly, Camila, Naelly, Camile, Alsamir, Adriano, Gustavo, Samuel e Paulo Ricardo terão uma uma lembrança

Dia D - Sentimental, Carlos Drummond de Andrade

Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão. No prato, a sopa esfria, cheia de escamas e debruçados na mesa todos contemplam esse romântico trabalho. Desgraçadamente falta uma letra, uma letra somente para acabar teu nome! - Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! Eu estava sonhando... E há em todas as consciências este cartaz amarelo: "Neste país é proibido sonhar" In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso,Rio de Janeiro:Ed.Record1985,p.165-166 Imagem: Caricaturista Gilmar. Veja mais Carlos Drummond de  Andrade  em:    Agradável Supresa Drummond em Defesa de Nara Leão Porque hoje é...  

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

Guriatã Um Cordel Para Menino, Marcus Accioly

XXI do trem-de-ferro Quem grita na noite? Não vejo ninguém, é o eco do grito do apito do trem, é a boca-da-noite que grita também, é o eco do eco que ecoa no além. Quem grita na noite? Não vejo ninguém, é o grito da ponte debaixo do trem, é o vento que chora por morte de alguém, é o coro das almas que dizem amém. Quem grita na noite? Não vejo ninguém, é a boca-do-túnel na frente do trem, é o grito sem grito de um eco que vem dos montes que aos montes ecoam mais cem. Quem  grita na noite? Não vejo ninguém, é o sonho-barulho das rodas do trem, é a luz de uma estrela que tange belém no sino-silêncio que a noite não tem. Quem grita na noite? Não grita ninguém, é o trem dos fantasmas nos trilhos sem trem, é a voz dos dormentes que às vezes contém o grito da vida que a morte detém. .