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Mostrando postagens com o rótulo Infância.

Escova, Manoel de Barros

Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No come~co achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar ossos por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterradas por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, tran...

O Joelho Juvenal:BiblioTheo

     Tanto quanto um cãozinho ou um gato os livros são ótimas companhias para as crianças.     Qual é a criança que não tem curiosidade por aquelas páginas desenhadas?        Qual a delas não quer ouvir seguidas vezes a mesma história sem que o adulto leitor mude nenhuma linha da narrativa?        Qual a criança que não quer redesenhar (tudo bem, fazer garatujas) ou até mesmo recortar a história?   O Joelho Juvenal    Faz parte de uma serie  em que o autor fala de alguma parte do corpo.  Juvenal, é bem feliz. Pertence a um garoto que como toda criança, está sempre em movimento. é feliz como e com o menino.  Adora andar por aí e correr porque sente a brisa. O Joelho Juvenal conversa com o cotovelo.  Frequentemente fica esfolado vítima de alguma queda do garoto.  Nota que o menino cresceu quando perde a visão das coisas porque o me...

Doce Inferno, Eduardo Oliveira Freire

   Minha avó foi uma doceira de mão cheia. Arrumava a mesa de bolos, gelatinas e brigadeiros que ela própria fazia. Meu avô e eu ficávamos horas comendo as guloseimas, enquanto ela ficava a observar satisfeita.  Preferia comer sozinha, para olhar o neto e o marido.    Todo final de semana ia visitá-los. Era muito bom. Mas, com o tempo, descobri que atrás de tanta doçura há o amargo. Meus avós, no final de suas vidas, ficaram com graves problemas de saúde.    O tempo passou. Fiquei diabético, obeso e com problema de coração. Comer, dava-me prazer imediato e era isso que almejava sempre.    Morri e tive que ir ao inferno. Mas, não fui para o lugar dantesco, que todos dizem. Voltei à casa dos meus avós. Eles estavam me esperando. Voltei ao meu doce inferno. Ima gem: steffany

Menino de Cidade, Paulo Mendes Campos

           Papai, você deixa eu ter um cabrito no meu sitio?      Deixo.      E porquinho-da-índia? E ariranha? E macaco? E quatro cachorros? E duzentas pombas? E um boi? Um rinoceronte?      Rinoceronte não pode.      Tá bem, mas cavalo pode, não pode?      O sítio é apenas um terreno do Estado do Rio, sem maiores perspectivas imediatas. Mas o garoto precisa acreditar no sítio como outras pessoas precisam acreditar no céu. O céu dele é exatamente o da festa folclórica, a bicharada toda, e ele, que nasceu no Rio e, de má vontade, vive nesta cidade sem animais.      Aliás, ele mesmo desmente que o Rio seja uma cidade sem bicho, possuindo o dom de descobri-los nos lugares mais inesperados. Se entra na casa de alguém, desaparece ao transpor a porta, para voltar depois de três segundos com um gato ou cacho...