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Sentou-se ao Meu Lado, crônica de José Lins do Rego


Sentou-se ao meu lado um homem rico, meu velho conhecido, e para mostrar-me que continua rico foi logo dizendo: - estou com o meu carro em conserto. E esta história de oficina, hoje em dia, é uma miséria. Ninguém quer trabalhar. E tudo custa três vezes mais.
O outro companheiro concordou carregando ainda mais na mão.
- É isto mesmo, o brasileiro que se diz operário não passa de um malandro. Ganha o que quer, e faz o que quer.
- O homem rico e o desconhecido estavam de inteiro acordo.
Era malandro pra cá e malandro pra lá.
- E que me diz sobre o aumento do funcionalismo? - Perguntou-me o homem rico
Quis fingir que não era comigo pergunta, mas não consegui. quis fingir que não era comigo a perginta, mas não consegui.
Sou funcionário, e acho mesmo que nossa vida aumentou de custo de maneira assombrosa.
- Isso todos nós achamos. Mas então você acha que a medida sumária de aumento dos ordenados resolve o problema? Aí é que está a desgraça do brasileiro. somos um povo de soluções apressadas. O preço da vida não baixará com a tal da reestruturação do Governo. Pelo contrário, vai subir. Subirão impostos. Os nossos estadistas sempre desapertam para a bolsa do contribuinte.
O desconhecido concordava. Eu queria concordar, porque queria viajar no meu canto, comer meu jantar de pequeno burguês, levar a família ao cinema. Eu não queria conversa. O homem rico, porém não queria outra coisa.
- Ora, Seu Lins, você vive a escrever todos os dias, porque não mete o pau nesse aumento?
E quando eu ia dar uma resposta, do banco da frente apareceu um aparte um tanto irritado.
- O senhor fala assim porque está de barriga cheia. Eu conheço muito bem o senhor. O senhor não é o tal dos Imóveis?
- Eu não estou falando com o senhor: eu não o conheço.
O aparteante revidou forte;
- Mas eu o conheço. E não admito que venha a abusar da nossa miséria.
O rico chocou-se e não conteve a cólera.
- Posso falar porque sustento com o suor do meu rosto os orçamentos do Governo. Pago os meus impostos.
- Ora, é muito boa. O imposto que o senhor paga não mata a fome daqueles aos quais o senhor esfola.
Vi a coisa preta... A temperatura do carro era de explosão.
- Pare aí - gritou o rico ao chauffeur. - Vou descer.
Fez-se silêncio, o homem abriu a carteira, tirou sua nota, pagou ao chauffeur e, voltando-se para mim:
- Não se esqueça do artigo.

Dei graças a Deus pelo sossego que se estabeleceri no lotação pacificado. O homem do banco da frente, que já tinha eliminado o primeiro addversário, voltou-se para o outro, para o desconhecido que vinha ao meu lado, e lhe disse:
- O senhor também estava dizendo que operário é malandro, que brasileiro é isso e aquilo.
- O que eu disse, o senhor não ouviu direito. O que eu disse não foi propriamente isto.
- É verdade - adiantei para evitar novo atrito.
- Não, eu ouvi muito bem; o senhor disse mesmo.
Nisto o chauffeur falou:
-Se os senhores quiserem, eu paro no distrito.

Em: Um século em Cem Crônicas, org. Maria Amélia Melo, págs 68-70  

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