Pular para o conteúdo principal

Não Sou Eu, crônica de Rubem Braga

Confesso que achei graça na primeira história que me contara: um bêbado usava o meu nome em um bar,
tomando grande uiscada à custa de um meu admirador - a quem agradeço a intenção. Depois passei a achar menos graça: o falso Rubem Braga aparecia chorando na estação das barcas, ou gritando dentro de um lotação, ou fazendo comício na Rua Farani. Volta e meia ouço outras proezas desse cavalheiro que perambula pela cidade, dando vexames em meu nome - e agora parece que está agindpo pelo Bar Vinte e Leblon.

Ora, eu já posso ser culado legitimamente de tanta oisa que não me agrada acumular os pecados de outrem. Peço às pessoas que não me conhecem pessoalmente que, quando aparecer um Rubem Braga falando alto, citando crônicas e dando alteração, tenham a fineza de chamar a polícia. Não quero que maltratem o rapaz, mas uma noite no xadrez deve lhe fazer bem, e talvez ele perca essa mania insensata de assumir a personalidade desse apagado cronista.

Com este pedido estou correndo o risco de ir eu mesmo em cana, como se fora um falso eu. Em todo caso, o vexame ficará ente mim e eu, ou entre eu e mim - tudo em família.

Em: Um Século em Cem Crônicas. Org. Maria Amélia Mello

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

Vamos Pensar? (31)