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Mostrando postagens com o rótulo novos talentos

Nem 1 Amor Verdadeiro, conto de Natascha Duarte

O que Sara não conta é que escreve no ar. Quando está no vagão do trem, chama muito a atenção. A mania de escrever nas costas das pessoas que vão em frente no trem a destaca da multidão sem nome que, no mesmo horário, todo santo dia, sobe no vagão. As pessoas que servem de papel não veem o movimento coordenado das mãos de Sara. As outras pessoas do trem sim. De início Sara é tímida. Levanta o braço direito e tece pequenas letras no ar como uma bailarina em seu primeiro solo. Como uma professora infantil, brinca com as palavras, buscando cada uma cuidadosamente. O contorno dos seus dedos escreve coisas como:Se-u-gran-de-fi-lho-da-mãe. Sara não respeita a gramática. Coloca hífen onde quer e onde não tem, coloca pressão pela vida que leva. Faz longas pausas entre um escrito e outro e respira desenhando delicadas vírgulas. com ambas as mãos, coloca as pas e faz lindos travessões: -Eu,"cuidu",de,Mim. Alterna maiúsculas e minúsculas e erra da maneira correta. Quem vê acha que...

Conjuga-me, poema de Fagner Mera

Na minha oração era você meu sujeito, meu predicado predileto. Onde eu, você e nós éramos além de pronomes. Mal sabia que, talvez o amor fosse apenas um objeto, direto. E eu no singular, pensando no plural, Acabei me tornando um mero sujeito oculto… Faltou concordância e não era nominal. Fui julgado, conjugado de forma errada, Me perdi no tempo, tornei-me passado, mais que imperfeito, faltaram verbos. E no futuro do pretérito havia um indicativo, um problema que talvez, não fosse simples, Composto talvez. E vendo aquele caos difícil de entender, na última lição de casa o verbo amar, decidiu me ensinar a conjugação do esquecer. Em: Leia Um Café e Tome Uma Poesia  

Cansaço, conto de Ednice Peixoto

      Joga o sapato e se perde. O cansaço impregna até o ar que respira. A toalha molhada lhe enxuga o corpo aquecendo as lágrimas que durante todo o dia conteve. Nua e descalça estira a alma na cama. Fecha os olhos, abrindo-se para um mar calmo, nuvens ao longe, gaivotas pousando sobre um passadiço de navio que somente sua imaginação vê. Besteira. De repente, sobressaltada, pula da cama. Abre a bolsa, tira a chave. Abre a vida e se joga. Em: Vidas de Algodão, Ednice Peixoto.

Trânsito,conto de Ednice Peixoto

     Obrigado a parar no sinal. Está atrasado como sempre, impacienta-se porque não vê carro nenhum no cruzamento, a presença da câmara o impede de continuar, cortar o sinal para compensar o atraso de ter acordado tarde. Um carro prateado para ao seu lado. Percebe uma mulher na direção e tem a impressão de ver asas. O sinal não abre, escuta o bater de uma porta e estranha. Olhando em direção ao carro de antes, não encontra mulher alguma, apenas um casaco preto repousa no banco do motorista. Tenta olhar em todas as direções, mas o cinto de segurança lhe impede os movimentos. Vira-se e destrava o cinto no mesmo instante em que o sinal abre. No para-brisa do carro, a mulher ergue a mão, estilhaça o vidro e o leva em direção ao céu.

Recomendo: O Lugar das Coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra

Falo novamente de Nadezhada Bezerra porque em dezembro li um livro dela que achei muito bom.  São crônicas curtinhas, algumas delas bem divertidas, outras muito doces... todas muito bem escritas.   Com muito talento Nadezhada prende o leitor com assunto diversos, simplérrimos, cotidianos. Ela é precisa nos toques de humor, de ternura, na capacidade de enxergar  crônica nas coisas mais inusitadas.  Recomendo muito a leitura de O Lugar das Coisas Possíveis. Leia a  autora no blog: Otávio,   postado em 14 de janeiro de 2026 Obrigada Por Vir, postado em 24 de novembro de 2023

Recomendo: Vidas de Algodão, contos de Ednice Peixoto

     Em dezembro fiz uma pequena viagem muito valiosa:  revi a encantadora Natal (RN) e estive no lançamento do livro de Ednice Peixoto, que eu só conhecia virtualmente.        Comecei assim, mas não vou falar da capital potiguar. Vim falar de Vidas de Algodão que comecei a ler ainda no hotel e terminei em casa:  São 39 contos que a autora selecionou entre os tantos que escreveu ao longo dos anos e que resolveu, agora sem timidez, mostrar ao público.        O livro caiu bem com o que gosto. Contos fáceis de ler, sem finais óbvios nem elaborados... nada do que chamo "sessão da tarde".  Conto realista, triste, engraçada, do tipo "nada a ver" como dizem os mais jovens. Ednice, que conheci grande leitora no velho e querido Orkut, sempre soube, escrevia muito bem.  Acho que ela também sabia disso, mas só recentemente perdeu a timidez e resolveu se lançar. Fez muito bem! Vidas de Algodão é um livro que eu rec...

O Livro da Vida, conto de Natascha Duarte

     Dois seres distintos encontram-se, pela primeira vez, num cenário épico, grandioso, como tudo por ali.           -  Choveu, foi?           - Ainda chove, não vê?      - É que estou dormindo e acho que não vou acordar, ouço apenas o barulho.      - E como é isso de não acordar?      - Bem, não sinto dor e... Aonde você vai? Falávamos sobre a chuva.      O gigante dera as costas ao homem, de repente, e bradou:      - Não tenho muito tempo e tenho muita pressa, sou como o vento sem trégua, seguindo por uma rota inespecífica, mesmo aqui - a voz do gigante se distanciava.      - Se tinha pressa, por que foi que veio? - o homem gritou.      - Porque um banho muda tudo e agora é hora do seu, espere...      - No céu se toma baaanho?      - Sim, aqui tambééémmm.     Seguiu-se um...

Otávio, conto de Nadezhda Bezerra

      Moravam juntos na época. Ele, meus pais, grávidos de mim, e meus tios, grávidos de minha prima.      Um dia  saíram pra trabalhar e voltaram com Otávio. Era novinho.      Já é um treino pra vocês, eles diziam. Elas, ameninadas, davam de ombros e jogavam bola na calçada com barrigões prestes a parir.  Duas meninas esperando duas meninas. Mas só souberam depois de nascidas.      Otávio tomava mamadeira ainda. Segundo eles, não dava trabalho. Segundo elas, dava mais trabalho que eles.       Outro dia virou assunto na cozinha de casa com a visita dos meus tios. Chamada de vídeo com meu pai pra saber o que aconteceu com Otávio.  Depois com minha mãe, pra cruzar as versões.  Nenhuma conclusão satisfatória.       Eu falei que Otávio é um bode? Pois é. Em: O Lugar das coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra. Ed. Opera, 2024, pág.13

Nada Mais, conto de Ednice Peixoto ( Novos Talentos )

O primeiro objeto que Rita encontrou foi um par de brincos sob o travesseiro. Duas argolas prateadas. Não se assustou. Certamente Mariana, sua sobrinha de dez anos, tinha deixado os brincos ali na hora de brincar de gente grande. Colocou-os na estante para devolver, não sem antes fazer Mariana entender que não apressasse o tempo da infância. Domingo na hora de ir à missa, ao procurar o rosário, encontrou na gaveta um sutiã vermelho um número menor que o seu. Do sutiã vinha um perfume de sândalo misturado a cheiro de bebida que uma mancha bem no peito não deixava dúvida. Chateada, porque aquela coisa escarlate deveria ser de Rosana, a irmã destrambelhada que tem, jogou o sutiã sobre o cabide para entregar depois. Ao acordar naquela segunda-feira, a cabeça lhe dói como bebedeira de véspera. Mas nada bebera além das duas taças de vinho, quantidade mínima para provocar tamanho enfado. A dor, a água fria do banho alivia o suficiente para se apresentar à mesa, onde todos se encontram, esmiu...

Minhas Leituras de 2025

Três escritoras brasileiras que me deram orgulho. Seus  livros  são: Meu Nome É Meu , Natascha Duarte  São contos inteligentes e de fácil leitura. Natascha tem uma escrita leve e muito agradável. Lançado pela editora Urutau, pode ser adquirido clicando aqui Siga Natascha Duarte no Intagram O Lugar Das Coisas Possíveis , Nadezhda Bezerra  Minha segunda leitura dessa autora formidável.  O Lugar das Coisas Possíveis é um livro de crônicas cotidianas, doces e bem escritas. O livro pode ser adquirido pela Editora Ópera Siga a autora no Instagram Vidas de Algodão , Ednice Peixoto Primeiro livro dessa formidável escritora potiguar, lançado em dezembro em Natal. São 49 contos bem trabalhados. Uns são realistas outros nem tanto. Todos, porém,  sem finais previsíveis. Leitura muito agradável e que eu recomendo. Siga a autora no Instagram O Lugar das Coisas Possíveis,Nadezhda Bezerra Vidas de Algodão, Ednice Peixoto

Pausa Lenta, poema de Amanda Gaspar

Antes de tocar a pele, acende uma ideia dentro, como se o pensamento sentisse primeiro e só depois o corpo concordasse. O mar segura a luz na linha do horizonte, como quem demora num segredo. E ele surge, solto do abraço das águas, e tudo muda de tom sem fazer alarde. A luz não manda, não empurra, não disputa. Ela vem baixa, molhada, misturada de sal e ouro, e o mundo vai ficando possível. O azul não some: amacia. O vento não corta: afaga. O calor não queima: aquece. E o peito, que às vezes pesa, ganha espaço, como quem abre uma janela por dentro. Não se pede prova. Não se tem pressa. Numa alquimia quieta: pensamento vira calma, calma vira gesto, gesto vira presença. O brilho muda de formato. Uma nova hora. Um novo tempo. O seu momento. Nasce do mar e, por alguns minutos, é como se a vida dissesse, sem falar: aqui. agora. de novo. Não grita, não disputa, não performa. Apenas revela o que sempre esteve ali.

Maneco, poema de Marcelo Valença

Sempre que chove Manequinho floreia Verde branco e lilás Manequinho incendeia Como ninguém é capaz Sempre que chove Por toda parte Manequinho clareia Vívido e audaz Manequinho sereia Como ninguém é capaz Por toda parte Sem nenhum alarde Manequinho alheia Lívido e em paz Manequinho permeia Como ninguém é capaz Sem nenhum alarde

O Presente, conto de Natascha Duarte

 ( Para meu pai) Eu nunca soube porque ele não entrou na casa para dar a bicicleta à menina. Ela tinha 8 anos e era Natal, um natal de fim de tarde encandescente e, entre eles, havia uma porta de correr de vidro. Fechada. O quadriculado do vido criava a impressão de rostos disformes e foi assim que a menina o viu quando ele chegou, ele que nem parecia ele.  Ela também deve ter surgido outra, através da ilusão que a porta provocava, como se não fosse sua filhinha adorada. No entanto, ao abrir o que os separava, a falsa impressão se dissipou,e os dois, pai e filha, encontraram-se no meio, nem pra fora, nem pra dentro. Simplesmente, em cima do trilho que corria no chão. Ali olharam-se  e se abraçaram mais do que podia ser.      A presença um do outro fortalecia os dois e fez a menina sentir na pele sensações diferentes que ela coloriu do jeito certo. A ansiedade pareceu branca e arrepiou a nuca. A felicidade amarela deu coceiras, de tanto ela se movimentar. A ...

Meu Nome É Carolina, conto de Natascha Duarte

      A festa junina da escola é um acontecimento esperado por todos, o ano inteiro. Cada membro da organização da festa recebe uma tarefa planejada e cumprida com rigor. Da parte alimentar, cuida dona Olinda, a merendeira que há 30 anos trabalha na escola; da música, o locutor da Prefeitura que nas horas vagas faz bicos como DJ; da coreografia, a professora de Artes, Isabela; e a João, o diretor, cabe punir exemplar mente os alunos do primeiro ao quinto ano que faltem aos ensaios da quadrilha. Aninha está já na sexta série. Para ela, portanto, é facultativo participar da dança. Para os menores, porém, a atração é uma sugestão imperiosa, senão a festa dei xa de existir. Ora, basta os que não a frequentam por razões religiosas se juntarem aos queixosos de plantão, aqueles que reclamam do preço, da hora, do dia, da indumentária, das músicas, etc., que a festa desaparece do mapa num estalo de traque. Com vontade de correr para adiantar o tempo, a menina chega à...

O Problema é Manter Os Sonhos Cativos, Priscila Aquino

De vez em quando a gente precisa abrir as gavetas do tempo, limpar os armários da memória e arejar a alma.  Se você olhar com atenção, é bem provável que encontre, dentro de si, sonhos empoeirados, acomodados uns sobre os outros, encostados em cantos escuros de seu íntimo. Por isso, é preciso arejar.  Com o passar do tempo, algumas gavetas podem ficar emperradas pelo desuso e pelo esquecimento e acabarem aprisionando possibilidades, ou improbabilidades, que se aquietaram à espera de um momento certo que nunca chegou ou, se chegou, passou despercebido. Os pequenos sonhos são os mais fáceis de se perderem nessas gavetas, pois entram em frestas e se acomodam, esfarelam e acabam desaparecendo por completo. Se perdem com facilidade nos muitos porquês, nos severos nãos, nas amargas recusas e enferrujam, tristes, desacreditados, desesperançados.  Abrir as gavetas é olhar para dentro de si e compreender que somos mais feitos de sonhos do que imaginamos, pois são eles que nos impu...

Por Que Não Te Amaram, Francisco? crônica de Antonio Neto

O outono capixaba alterna dias ensolarados com outros nublados, atravessados por dias chuvosos, desfazendo um pouco do eterno verão que nos é peculiar. Nesses últimos dias, o mar tem nos trazido ventos tristes... Francisco é morto. Isso faz lembrar o trecho da música de Fernando Brant, Lô Borges e Márcio Borges; eternizada na voz de Milton Nascimento: “Por que você não verá Meu lado ocidental? Não precisa medo, não Não precisa da timidez Todo dia é dia de viver Eu sou da América do Sul Sei, vocês não vão saber” Jorge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, filho de imigrantes italianos. Quando eleito Papa, ele disse: “Parece que meus irmãos cardeais foram me buscar no fim do mundo”. Ele se declarava, assim, um homem do Sul Global. Proveniente dos países colonizados pelas nações europeias por cerca de 300 anos. Nós, a periferia do mundo. Nós somos o Extremo Ocidente, como cantou Caetano Veloso, na música Milagres do Povo: “Foi o negro que viu a crueldade bem...

Duas Vidas Em Uma - A Névoa,conto de Priscila Aquino

     Aos oitenta e três anos me permito, por vezes, transformar em lágrimas as sombras que acompanham minha trajetória pelos caminhos tortuosos da vida. Meus passos, por vezes lentos, errantes e despretensiosos, transportaram meu corpo e alma por muitos espaços imprevistos e outros tantos necessários. Com o tempo, aprendi a conviver com os fantasmas do meu passado e as lembranças da minha terra natal. Aprendi a entendê-los, a atender suas demandas e urgências. Aprendi que a essa dor dá-se o nome de saudade e que nomeá-la não a torna menos  tangível. A dor da saudade é dor de alma, mas também é dor de carne. É enraizada e ramificada: parte do coração, dói no peito e transborda pelos olhos. É a falta do que não voltará, o pesar pela ausência dos que já se foram, o desconsolo da lembrança de todas as coisas e fatos que me moldaram. A saudade é uma certeza, como se parte de mim estivesse incompleta, aquela parte que relutou para ficar no momento da despedida.  Minha...

Bastidora, Marcelo Valença

  Vó Salomé fazia suas próprias roupas. Tinha há anos um único molde recortado em cartolina que servia de base para seu modelo infalível. Um retângulo de tecido era suficiente. Com destreza e muitos alfinetes, Salomé traçava duas curvas longitudinais que ligavam diretamente os ombros aos joelhos, já com os espaços destinados à montagem das mangas e da gola. Vê-la trabalhar nas roupas era algo mágico: panos estendidos, tesouras poderosas e retalhos esvoaçantes criavam uma dança de cores e barulhos. Um balé hábil que milimetricamente resultava em uma nova face para Vó Salomé. Mais uma versão do seu já famoso e icônico bastido: algo entre uma bata e um vestido. Vó Salu mantinha sempre quatro bastidos disponíveis, confeccionados especificamente para determinados usos. A primeira roupa da manhã de Vó Salomé era o uniforme da roça. Este estragava rápido, com nódoas de palma ou óleo de coco e azeitona. A bainha abaixo dos joelhos ficava manchada de barro e descosturava em pouco tempo. Pa...

Gigante, Marcelo Valença

Vamos salvar o mundo Pulando de galho em galho Minerar o barro com as mãos Honrando cada pedaço de chão Sobre o tronco que resiste à lava para explorar diamantes de granito Vamos bolar picaretas de madeira e explosivos teleguiados Medindo a empreitada no olhar Queremos as rochas cintilantes Não por que são raras Ou caras Só por que são belas Vamos ver Em cada ser vivo Seu brilho Em todo o teu riso Meu espelho Em cada tua pequeneza Nossa grandeza No Instagran: In.voluntaria

Partes, Marcelo Valença

A roupa cheira no varal Solta no ar um jasmim amarelo Resquício do aroma singelo Da tua nota essencial Deito-me de frente e de lado No lado bom da cama Aquele que, quando se ama Se deixa aquecido e reservado Salpico dois amores na parede De rubra intensa tinta Mas pode ser que eu minta Se de um amor tenho sede Não existe remédio genérico Nem receita milagrosa À tua presença afetuosa Nas frestas do meu ser hermético Crimes cometidos sem maldade Reviram-se culpa e desculpa Ao réu o castigo não se poupa: Paga seus delitos em saudade