O que Sara não conta é que escreve no ar. Quando está no vagão do trem, chama muito a atenção. A mania de escrever nas costas das pessoas que vão em frente no trem a destaca da multidão sem nome que, no mesmo horário, todo santo dia, sobe no vagão. As pessoas que servem de papel não veem o movimento coordenado das mãos de Sara. As outras pessoas do trem sim. De início Sara é tímida. Levanta o braço direito e tece pequenas letras no ar como uma bailarina em seu primeiro solo. Como uma professora infantil, brinca com as palavras, buscando cada uma cuidadosamente. O contorno dos seus dedos escreve coisas como:Se-u-gran-de-fi-lho-da-mãe. Sara não respeita a gramática. Coloca hífen onde quer e onde não tem, coloca pressão pela vida que leva. Faz longas pausas entre um escrito e outro e respira desenhando delicadas vírgulas. com ambas as mãos, coloca as pas e faz lindos travessões: -Eu,"cuidu",de,Mim. Alterna maiúsculas e minúsculas e erra da maneira correta. Quem vê acha que...
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