Homem Aos Pedaços
Meu pai nasceu na Manchúria, durante a Segunda Guerra Mundial. Como sei disso? Não foi porque ele me contou. Vi em seu documento de identidade de estrangeiro que ele apesar de ter nacionalidade japonesa, nasceu na China. O documento diz agora que ele tem oitenta e um anos.
No saguão da ala de tratamento de câncer do Hospital Regional do Litoral Norte, a pergunta era para o cadastro:
-Seu pai é chinês ou japonês?
O quê e quem é meu pai?
Meu pai é feito de silêncios. Talvez por isso eu tenha nascido, para ser a sua voz. Ou provavelmente eu só queira acreditar nisso. Aceitei que ter um pai japonês era ter um pai que fala pouco e nunca abraça. Descobri que nem todos os pais japoneses são assim. Mas o meu era, então a gente só pensa e acredita naquilo que a gente vive. Lembro-me do pai do meu pai, o meu ditchan, em seu escritório ( acho que era isso, apesar de eu nunca ter descoberto sua profissão), sempre com a porta trancada. Não me lembro de sua voz. A lembrança que tenho é a de vê-lo abraçado por silentes flores. O cheiro dos crisântemos, flor imperial japonesa velando o silêncio definitivo. Tal pai, tal filho? Mas, então, por que eu falo tanto?
Este relato é feito por peças de um quebra-cabeça, fragmentos que busco nas memórias arrancadas de meu pai. Quisera eu que fosse uma, biografia, com datas, fatos e fotos. Um registro confiável de quem é meu pai. Uma forma de mantê-lo vivo dentro de um objeto que ele tanto ama. Seria justo que ele fosse enterrado dentro de um livro, porque são para os livros os seus silêncios mais bonitos. Os olhos correm sobre os ideogramas japoneses. ali ele não precisa de bengala. Nas páginas ele não tem uma perna mais curta que a outra, então, ele não precisa mancar. sua leitura é firme. Há o primeiro passo, a caminhada e o fim de cada obra. Histórias completas para um homem aos pedaços.
Primeiro Pedaço - Sobre estar tudo bem
- Pai morreu de câncer - disse meu pai.
Na verdade, foi por ter bebido e fumado muito. Desculpe-me contradizer meu pai. Usar a expressão “na verdade", não torna a minha declaração mais verdadeira que a dele. Talvez tenha sido mesmo câncer. Ou, mais provavelmente, não acreditei porque meu pai não costumava falar. Para mim, o silêncio dele era a verdade, de tal forma e tão intensamente que qualquer coisa que ele dissesse me causaria dúvida ou espanto.
Meu pai fechou o livro, mas não olhou para mim. Disse, olhando para a frente, olhando para as pessoas com seus cânceres, aguardando a vida seguir:
-Quando fui ver meu pai no hospital um dia, ele tava sorrindo muito.
Eu queria escrever que meu pai sorriu com a lembrança, mas ele não sorriu, só continuou:
-Perguntei se tava tudo bem. Ele falou que sim, que tava tudo bem. Perguntei tá bem porque hoje não tá doendo?
Pensei em soltar “e o que ele respondeu?”, mas fiquei com medo que qualquer interrupção cortasse o papo. As conversas com ele são assim. Ele começa a falar alguma coisa depois para abruptamente.Às vezes conclui o pensamento, em outras apenas se lembra de que o silêncio é um caminho mais fácil. E por lá fica. Parecia que seria esse o caso. Até vi meu pai reabrindo o livro. Mas ele continuou:
-Pai respondeu que não. Disse que tá doendo muito.
Meu pai afundou os polegares dentro do livro, novamente fechado. Continuou:
-Perguntei por que disse que tá bem se tá doendo?
Pai respondeu, porque se tá doendo muito é porque eu tô vivo ainda.
O silêncio voltou. Eu não disse nada. Não sei se era porque eu já havia ouvido aquela história muitas vezes ou exatamente porque eu gostava de ouvir aquilo, como uma criança que adora escutar a mesma história várias e várias vezes, deixando então as palavras decantando por um tempo.
O nome e o sobrenome do meu pai ecoaram no saguão.
-Sem pressa, Seu Kazuki. Pode vir devagarzinho.
A oncologista perguntou:
-Tá tudo bem, Seu Kazuki?
-Se tivesse bem não tava aqui.
-Ah, mas daqui a pouco vai ficar tudo bem, né?
-Não. Não quero
Na próxima consulta, contarei para a doutora sobre o que o pai do meu pai disse sobre estar tudo bem. Por enquanto, meu pai não queria sentir dor alguma.
Segundo Pedaço - A casa em construção
A caminho da radioterapia, meu pai quebra o silêncio e diz, numa quase satisfação:
-Olha. Hoje vai acabar…
O olhar em um muro coberto por pedra. Meticulosamente, o pedreiro ia encaixando o pétreo quebra-cabeça. Faltava pouco para completar o acabamento do muro e, por conseguinte, a casa. A cada dia, o olhar pousava naquele muro em construção, como um pássaro cansado de tanto voo.
Aquela parecia mais uma frase inacabada do meu pai. Mas, enquanto dirigia, a conversa continuava na minha cabeça.
Tivemos muitos endereços quando eu era criança. Mudávamos de casa em casa provisória, com a esperança de ter uma definitiva. Foi então que meu pai comprou uma casa ainda em construção. Tinha paredes e um telhado. Faltava todo o resto.
O acabamento nunca acabava, o dinheiro sempre acabava antes.Mudamos quando deu para considerar a casa habitável. Os anos foram passando. Meu pai foi ampliando a casa de habitar sonhos. Fez um quartinho para mim nos fundos, pelo motivo sobre o qual, muito provavelmente, escreverei depois ( não escrevi). Fez uma área coberta, uma despensa nos fundos, um quarto para as ferramentas herdadas do meu avô. Depois construiu um salão de cabeleireiro para minha mãe que tinha feito um curso no Senac. Chamar de salão é estranho, porque era uma salinha. Mas esses trocados que caíam dos cabelos dos outros ajudavam a comprar mais material.
Quarenta anos depois, o salão se fez de fato uma salinha. Minha mãe saiu da casa, meu pai ficou. A casa original, ainda hoje, não tem reboco do lado de fora. O tijolo bruto à vista, pintado com uma cor que em nada se parece com algo acabado.
-Hoje vai acabar…
Acho que meu pai sabe que a vida é feita muito mais de coisas não terminadas do que concluídas. Ou de coisas secundárias que vão se concluindo aos poucos, antes da principal. Um quartinho, um salão…
Dei-me conta de uma coisa. O quarto era para mim. O salão para minha mãe. Devidamente rebocados, concluídos, a casa principal, que era seu sonho terminar, continua inacabada.
Meu pai, um homem inacabado, mas que conseguiu construir memórias em seus filhos. Mesmo que também inacabadas, ainda assim, é possível habitá-las.
Terceiro Pedaço - Coqueiros
Se não me engano, hoje é o décimo segundo dia que estamos aqui, nesta casa alugada, que tem um gramado extenso na frente e um coqueiro de verdade, carregado de cocos, no quintal. Será que a água dentro deles é boa? A gente nem sempre sabe com exatidão sobre as coisas. Meu pai, por exemplo, dia sim e outro também pergunta:
-Onde é aqui?
-Caraguatatuba, pai.
-O que tô fazendo aqui?
Posso responder que estamos de férias, que mais tarde vamos à praia. Posso falar que a gente está experimentando aquele lugar, para ver se vale a pena comprar a casa. Ou dizer que não estamos fazendo nada.
-O senhor está fazendo um tratamento aqui, pai.
-Tratamento de quê? Eu não tô doente.
-É um tratamento para o senhor ficar mais bonito
-Não precisa. Quero ir embora pra Taubaté.
Minha irmã e eu compramos uma poltrona para meu pai ficar na garagem da casa dele, porque ele tinha levado uma cadeira de plástico desconfortável e ficava ali, sentado sobre o desconforto.
-Mas, pai, vai fazer o quê em Taubaté? Aqui é melhor, olha lá, o coqueiro carregado.Não é bonito de se ver?
-Em Taubaté também tem coqueiro. Tem dois.
O vizinho da frente tem mesmo dois coqueiros plantados na calçada. Pelo que me lembre, nunca deram coco. Mas posso estar enganado.
-Lá não tem essa montanha bonita aí - aponto para a serra do mar.
-Vou pintar o muro. Vou pedir pra seu amigo maluco pintar uma praia.
-Mas pai, o muro é do vizinho. Não pode sair aí pintando a casa dos outros.
-Ele não fica vendo o muro. Ele fica dentro de casa. Eu fico vendo.
-Então, é a mesma coisa aqui, né? O senhor não fica se vendo, a gente fica. Tem que ajudar a gente e fazer tratamento de beleza - brinquei.
Ele quis fazer a barba. No dia seguinte, perguntou de novo:
-Onde é aqui?
Levei meu pai de volta para Taubaté, aproveitando que ele tinha que fazer uma tomografia. Exame feito, levo-o de volta pra casa, para passarmos o feriado prolongado. Ele se senta em sua poltrona.
-É. Se pudesse vender metade só da casa, podia comprar outra na praia, né?
-Quer morar na praia, pai?
-Ah, não precisa. Vou pintar o muro aí. Manda seu amigo maluco pintar uma praia.
Ele levanta o dedo e aponta para a casa do vizinho da frente.
-Tá bom, pai.
-Ah, tem coqueiro. Parece praia já.
Na segunda bem cedo voltamos para Caraguatatuba, para retomar o tratamento. Dias depois, um coco caiu do coqueiro.
-O que a gente está fazendo aqui.
-A gente veio beber água de coco.
Ele olha para o coqueiro carregado.
Toma um gole, enquanto diz que vai pintar muros. E que era para lembrá-lo de plantar mais coqueiros na calçada do vizinho em Taubaté… Porque ele não queria se esquecer disso. Não queria se esquecer…
Comentários
Postar um comentário
comentários ofensivos/ vocabulário de baixo calão/ propagandas não são aprovados.