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O Pastor Gabriel, Miguel Torga.


     Nunca houve em toda a montanha pastor como Gabriel.
     - Merecia outras olvelhas, homem! - disse-lhe um dia o Prior, desanimado da anarquia dos seus paroquiamos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.
     - Deus me livre! Já me vejo maluco com estas...
     Mentira. O padre tinha razão.Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural, ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos do Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.
     -Que fazes tu ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!
     - Nada. Dou-lhe monte, como a outra gente.
     Sorria. E lá continuava a educar os malatos com gestos e palavras que ninguém sabia fazer nem dizer. Nunca batia numa rês. O castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeiçào mal humorada. Mas bastava. Ao fim de algum tempo, cada cabeça como que porfiava em não desagradar ao dono, em viver em sintonia com aquele governo sem cajado. E dava gosto de ver a disciplina com que o rebanho deixava o redil e atravessava o povo.
     - Não há dúvida! nem o mestre na escola!
     Continuava a rir-se por dentro. Espantavam-se com pouco. Com a pequenina amostra do muito que estava por detrás.
     Na verdade, toda aquela disciplina tinha um fim, e era muito mais apertada do que parecia. Como os pastos no verão escasseavam, só havia uma solução: aceivar os nabais de noite, pela cidade, pela calada. Ora, para Áfricas dessas, o Gabriel necessitava de gado mudo e lesto, cegamente obediente ao comando. Por isso, sem dizer porquê nem por que não, exigia sistematicamente dos patrões que vendessem os carneiros mancos ou rebeldes, e ninguém ouvia o balido de nenhum.
      - O teu gado não berra?
      -Pergunta-lhe
     É o berras! Ou não se chamasse ele Gabriel e não capitaneasse um bando de salteadores. No meio da escuridão abria a porta do curral e punha-se a andar. O rebanho atrás como um cão rafeiro. À entrada da melhor sementeira, para, perscrutava os horizontes e arrombava o tapume. Depois em silêncio, deixava entrar os famintos e esperava que cada boca se fartasse em silêncio.
      Se por acaso ouvia vozes ou passos de gente que se aproximava, subia acima da parede, descalçava os socos, batia com um no outro e largava a fugir com quantas pernas tinha. Não era preciso mais: quando chegava ao redil, já o rebanho lá estava.
     - Não, tu has-de ter qualquer segredo, qualquer mistério... - insinuava o Languna, a sondar.
     - Palavra de honra que não há.
     E realmente não havia. A coisa vinha-lhe espontaneamente, duma maneira directa, rápida, infalível, de entender e de se fazer entender por todos os seres vivos. Via um coelho na cama, falava-lhe e punha-lhe a mão em cima.
     Acalmava um cão açulado - a sorrir-lhe.
     Mas essa comunhão institiva com a natureza dos bichos não tentava o Gabriel alargá-la à natureza dos homens. Desses arredava-se doscretamente, sem querer passar, nas relações com eles, do plano amorfo de neutralidade. Alugava o suor. Enjeitado, sem vintém, servia este e aquele. A indústria de Ferrede era comprar gado magro engordá-lo e vendê-lo. Portanto, quem tinha dinheiro tinha o poder, e não valia a pena discutir. Que interessava a ele perder tempo com palavreado ou mendigar intimidades que sabia impossíveis de antemão? O que os donos de qualquer rebanho queriam já o sabia: era que lho entroirisse de qualquer maneira. Recebia, pois, o farnel pela manhã, e ala que se faz tarde. Cada qual para o que nasce.
     No verão em que fez vinte e dois anos, não pôde, contudo, ficar indiferente a um apelo que, muito embora fosse de cordeira no cio, vinha duma criatura cristã, com quem, de resto, acabou por casar.
     Foi assim: como a serra inteira ardia na fornalha do Agosto, certo dia, no pino do sol, resolver assestar o gado na loja. Servia então o Silvano, o maior proprietário da terra. E enquanto o rebanho, sonolento, ruminada, estendeu-se também no catre, igualmente sonolento e a ruminar. Era a hora do jantar, e lá em cima os patrões comiam e bebiam à tripa-forra. Ele, coitado, teria uma malga de caldo no fim do banquete, e viva o velho!
     Nisto, sente passos pela escada abaixo, abre-se a porta, e a filha da casa, bonitona, mas de pêlo na venta, que nunca dera conta que o olhasse como homem e nunca lhe consentira que a olhasse como mulher, aparece de cântara na mão, ao vinho.
     Em silêncio e sem se mexer, deixou-a passar para a adega, que era ao fundo, numa loja contígua. Mas apenas sentiu desandar a torneira da pipa e a espuma do tinto a ferver dentro do barro lhe fez cócegas na garganta, pediu humildemente:
     - Minha ama, dê-me uma pinga!
     - Dou. Anda cá bebê-la...
     Ergueu-se num pronto, saltou por cima do gado, entrou no armazém, recebeu a pichorra, levou-a à boca e começou a consolar a alma. De repente, sem mais nem para quê, a moca, calada, dá-lhe um empurrão à vasilha com a ponta do dedo. De respiração afogada e ainda engasgado, a tossir, relanceou-a toda. Ao machio, a senhora morgada!
     E nada mais simples: pousou a caneca e dobrou a rapariga sobre a facha de palha.


Em: Novos Contos da Montanha, Miguel Torga. Ed. Nova Fronteira 1996, págs.39-42

Imagem:  Paisagem com um rebanho de ovelha - Charles emile Jacque - 1872

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