Pular para o conteúdo principal

Casa de Família, nota da autora Sophie Blackall


"Sempre adorei coisas antigas. Especialmente coisas velhas, gastas e remendadas que mostram vestígios de mãos, corações e mentes há muito desaparecidas, coisas que contam histórias. Como uma boneca de porcelana com um braço de madeira esculpido à mão, ou meias cerzidas uma e outra vez, usadas certamente por pés que outrora percorreram muitos quilómetros.
É fácil, então, perceber a minha emoção ao comprar uma velha quinta em cuja casa, que se encontrava em ruínas, tinham nascido e crescido doze crianças - uma casa cheia de restos e fragmentos que me ajudaram a imaginar as vidas vividas dentro das suas paredes.
Explorei a casa pela primeira vez num dia de final de primavera.
Sobre um órgão ornamentado havia cascas de nozes e páginas enroladas de canções de amor. Na cozinha, jornais com reportagens sobre os preços do leite e a guerra, fitavam as prateleiras todas da despensa cheia de latas ferrugentas. Ninguém vivia ali há muito tempo.
Estava convencida de que precisava de honrar esta velha casa. Ainda que não passasse de uma ruína sem hipótese de recuperação. Ainda que , alguns meses depois, uma ruidosa escavadora fosse estender sobre ela o seu longo pescoço para derrubar as suas paredes e enterrar os escombros três metros abaixo do solo. Mas, antes disso, havia histórias para colecionar.
Salvei um ninho de passarinho, um lenço e um vestido de noiva e uma velha chave de latão e um botão que fora em tempos uma concha no mar.
Separei páginas bolorentas de livros escolares e aprendi algo sobre a personalidade das crianças nascidas nessa casa.
Depois da escavadora enterrar a casa, a clareira ficou silenciosa e eu agachei-me no meio da terra calcada e tirei dos bolsos mancheias de sementes. Tinha esperança de que na primavera seguinte flores silvestres - papoilas, tremoços e cenouras-bravas - despontassem naquele solo rico , feito de camadas de histórias que remontavam ao início dos tempos."
Imagem: Sophie Blackall

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

Mãe É Quem Fica, Bruna Estrela

           Mãe é quem fica. Depois que todos vão. Depois que a luz apaga. Depois que todos dormem. Mãe fica.      Às vezes não fica em presença física. Mas mãe sempre fica. Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver. Uma parte sempre fica.      Fica neles. Se eles comeram. Se dormiram na hora certa. Se brincaram como deveriam. Se a professora da escola é gentil. Se o amiguinho parou de bater. Se o pai lembrou de dar o remédio.      Mãe fica. Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou. Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.      É quando a gente fica que nasce a mãe. Na presença inteira. No olhar atento. Nos braços que embalam. No colo que acolhe.      Mãe é quem fica...

Vamos pensar? (18)

Será que às vezes o melhor não é se deixar molhar?