"Sempre adorei coisas antigas. Especialmente coisas velhas, gastas e remendadas que mostram vestígios de mãos, corações e mentes há muito desaparecidas, coisas que contam histórias. Como uma boneca de porcelana com um braço de madeira esculpido à mão, ou meias cerzidas uma e outra vez, usadas certamente por pés que outrora percorreram muitos quilómetros.
É fácil, então, perceber a minha emoção ao comprar uma velha quinta em cuja casa, que se encontrava em ruínas, tinham nascido e crescido doze crianças - uma casa cheia de restos e fragmentos que me ajudaram a imaginar as vidas vividas dentro das suas paredes.
Explorei a casa pela primeira vez num dia de final de primavera.
Sobre um órgão ornamentado havia cascas de nozes e páginas enroladas de canções de amor. Na cozinha, jornais com reportagens sobre os preços do leite e a guerra, fitavam as prateleiras todas da despensa cheia de latas ferrugentas. Ninguém vivia ali há muito tempo.
Estava convencida de que precisava de honrar esta velha casa. Ainda que não passasse de uma ruína sem hipótese de recuperação. Ainda que , alguns meses depois, uma ruidosa escavadora fosse estender sobre ela o seu longo pescoço para derrubar as suas paredes e enterrar os escombros três metros abaixo do solo. Mas, antes disso, havia histórias para colecionar.
Salvei um ninho de passarinho, um lenço e um vestido de noiva e uma velha chave de latão e um botão que fora em tempos uma concha no mar.
Separei páginas bolorentas de livros escolares e aprendi algo sobre a personalidade das crianças nascidas nessa casa.
Depois da escavadora enterrar a casa, a clareira ficou silenciosa e eu agachei-me no meio da terra calcada e tirei dos bolsos mancheias de sementes. Tinha esperança de que na primavera seguinte flores silvestres - papoilas, tremoços e cenouras-bravas - despontassem naquele solo rico , feito de camadas de histórias que remontavam ao início dos tempos."
Imagem: Sophie Blackall

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