Pular para o conteúdo principal

A Ferro e Fogo, Josué Guimarães

     Esta história começa com a chegada, no Rio Grande do Sul, do bergantim Protetor, em julho
de1824,trazendo no seu precário bijo de madeira 38 colonos alemães destinados à extinta Real Feitoria do Linho Cânhamo, no Faxinal da Courita, hoje São Leopoldo. Depois deles, outros tomaram o mesmo caminho, trazidos a tanto por cabeça, por um aventureiro internacional, o Major Jorge Antônio Schaeffer. Muitos conseguiram sobreviver. Bem, mas então temos a história de homens e mulheres em solidão que plantaram as suas raizes a ferro e fogo, nas fronteiras movediças dominadas por castelhanos, índios, tigres, caudilhos e portugueses.  

( A Ferro e Fogo, Josué Guimarães, vol.1 Ed. José Olympio 1973)

     Qual teria sido, na realidade, a participação dos alemães na formação do Rio Grande do Sul? Este extraordinário romance nos dá a primeiro painel de uma conturbada época rio-grandense, sempre às voltas com o entrechocar de espadas e de lanças na demarcação des fronteiras nacionais.

     São os imigrantes alemães vivendo as sias misérias e desencantos, suas conquistas, seus momentos de ternura e de saudade, seu trabalho de sol a sol, suas desavenças, rancores e ódios. É o desespero de quem se vê, de uma hora para outra, jogado em terras distantes. Castelhanos e índios, caudilhos e politiqueiros, soldados e prostitutas, formando o grande pano de fundo da vida dos que chegaram ao Brasil atraídos por promessas e garantias fugazes.  Conseguiram afinal concretizar os seus sonhos: basta olhar o Rio Grande do sul de hoje, manusear catálogos de indústria, do comércio, das artes, dos esportes, da política. Mas tudo obtido a ferro e fogo.

     Sem datas ou minúcias históricas que o tornassem enfadonhamente didático, é uma das páginas mais vibrantes da nossa História, na forma de romance denso, ágil e fascinante. ( orelha do vol 1- tempo de solidão).


Nota: os dois volumes estão disponíveis para o Clube de leitoras LivroErrante.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

Mãe É Quem Fica, Bruna Estrela

           Mãe é quem fica. Depois que todos vão. Depois que a luz apaga. Depois que todos dormem. Mãe fica.      Às vezes não fica em presença física. Mas mãe sempre fica. Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver. Uma parte sempre fica.      Fica neles. Se eles comeram. Se dormiram na hora certa. Se brincaram como deveriam. Se a professora da escola é gentil. Se o amiguinho parou de bater. Se o pai lembrou de dar o remédio.      Mãe fica. Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou. Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.      É quando a gente fica que nasce a mãe. Na presença inteira. No olhar atento. Nos braços que embalam. No colo que acolhe.      Mãe é quem fica...

Vamos pensar? (18)

Será que às vezes o melhor não é se deixar molhar?