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Com Licenca Poética, poema de Adélia Prado


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Em: Bagagem
Imagem: tela de Françoise Gilot


A poeta mineira faz referência ao Poema das Sete Faces do também mineiro Carlos Drummond de Andrade:

"Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombre
Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida..."

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