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Conto Familiar, Mário Quintana

     Era um velho que estava na família há noventa e nove anos, há mais tempo que os velhos móveis, há mais tempo até que o velho relógio de pêndulo. Por isso estava ele farto dela, e não contrário, como poderiam supor. A família o apresentava aos forasteiros, com insopitado orgulho: "Olhem! Vocês estão vendo como 'nós 'duramos?!". 

     Caduco? Qual nada! Tinha lá suas  ideias. Tanto que, numa dessas grandes comemorações domésticas, o pobre velho envenenou o barril de chope.

     No entanto, como era obviamente impraticável - a não ser em novelas policiais- deitar veneno nas bebidas engarrafadas, apenas sobreviveram os inveterados bebedores de Coca-Cola.

     - Mas como é possível - lamentava-se agora tardiamente o pobre velho - como é possível passar o resto da vida com esses? Com gente assim? Porque a Coca-Cola não é verdadeiramente uma bebida - concluiu ele - a Coca-Cola é um estado de espírito...

     E, assim pensando, o sábio ancião se envenenou também.




Em: Um Fio de Prosa, vários autores, São Paulo, Ed. Global 2004, Págs. 7-9.
Ilustração: Spacca.

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