No romance, Júlia Lopes de Almeida constrói um retrato da sociedade carioca do período, que se sobressai dentre suas demais obras ao evidenciar questões econômicas e morais (como o feminismo e o racismo). A narrativa se passa durante a República Velha, descrevendo as ações e os hábitos da família de Francisco Teodoro, um comerciante português que imigrou para o Brasil e construiu sua fortuna a partir de seu árduo trabalho, prosperando principalmente pelo comércio de café. Embora os integrantes da família Teodoro tenham posição central na narrativa — em especial, Francisco e sua esposa, Camila —, os amigos e os empregados que frequentavam seu círculo social são personagens importantes para que a trama seja desenvolvida; deles destacam-se: Nina, sobrinha de Camila que se tornou agregada na casa da família; o Dr. Gervásio e o Capitão Rino, ambos apaixonados por Camila (que mantém um caso com Gervásio); Noca, a leal empregada da família; Catarina, irmã mais nova do Capitão Rino; as tias idosas de Camila, Itelvina e Joana; e outros amigos de Teodoro que o visitam em seu escritório.
A construção dessa trama é feita a partir de um viés crítico e sensível que aborda temas importantes da sociedade da época, presentes ainda nos dias atuais. Isso se dá por meio de um olhar incomum e de um posicionamento feminino — muito cerceado na época. Alguns desses temas são: adultério, racismo, diferenças sociais e econômicas, a situação das mulheres solteiras de classe média e intolerância religiosa.
Analisando primeiramente a questão da pobreza e da diferença social, é possível colocar em contraponto Francisco Teodoro e o Dr. Gervásio. Francisco é um homem rico, mas já foi pobre e passou por diversas dificuldades até chegar à sua riqueza. Em muitos momentos, ele se lembra de sua antiga vida, algumas vezes com tristeza, outras com nostalgia: ele entende o contexto da pobreza e a reconhece. Gervásio, por sua vez, vê a miséria com ares de flâneur e desconhece completamente o lado miserável da cidade onde vive. Quando visita pela primeira vez esse espaço distinto de sua realidade, fica encantado com as coisas que vê, mas não se aproxima delas; mantém o olhar distante e observador, e logo em seguida, sua mente se distrai com outras questões e ele se esquece completamente do que havia visto. Em outro momento, o descaso e a alienação da classe alta manifestam-se no excerto abaixo, ficando evidente como uma questão social é convertida em problema religioso:
“Já me têm pedido para organizar festas em benefício de escolas e de hospitais para pobres, como se na nossa América houvesse pobreza… Creia minha amiga, no Brasil não há miseráveis, há ateus. Precisamos regenerar o povo com exemplos de fé cristã”.
Ademais, há as questões de feminicídio e de adultério, representadas pela figura da mãe da personagem Catarina e do Capitão Rino, assassinada pelo marido após ele ter descoberto sua traição. O posicionamento da autora se revela pela oposição entre as reações do filho homem e da filha mulher, diferentes em razão da realidade vivida por cada um. João Rino não condena o adultério da mãe, mas aceita que o pai possa ser absolvido, pois o que ela fez era considerado crime. Sua condição de homem fez com que ele viajasse por todo o Brasil e fosse independente. Ao sair de um lar desestruturado, seu mundo desloca-se para longe do ambiente familiar e, por isso, ele pôde superar o assassinato de sua mãe. Enquanto Catarina, presa em casa com a segunda esposa do pai, rejeita completamente a figura paterna, mas, não tendo melhores opções, é obrigada a ficar e aceitar a situação.
O adultério, segundo Regina Zilberman, só atinge as mulheres, mais especificamente as pobres. Enquanto a mãe de Capitão Rino e de Catarina é assassinada, nada é feito a respeito do caso entre Camila e o Dr. Gervásio, do qual várias pessoas têm conhecimento.
A questão feminina é uma das mais tocadas pela obra. A quase impossibilidade de autonomia financeira aparece principalmente para as jovens de classe social mais baixa, para quem o matrimônio é a única saída quando não dispõem de familiares mais velhos que as ajudem. Não é apenas um problema de gênero, mas também de condição social.
A filha mais velha de Teodoro, Ruth, é uma esperança para essa situação, pois seus pais se dedicaram a sua educação e ela teve a oportunidade de focar-se no que amava, a música. Em nenhum momento da história ela apresenta alguma pretensão de casamento e, no final da trama, torna-se uma trabalhadora autônoma. Mesmo quando pobre, sua educação se mostra útil. Na apresentação da obra, Regina Zilberman reflete que Ruth possa representar Júlia Lopes de Almeida e sua paixão pela arte, no caso a literatura, utilizando sua criatividade como uma forma de sustento. Dessa forma, Ruth apresenta-se ao mesmo tempo como exceção e como alternativa.
Em outro plano, não menos importante, há a questão do racismo. Sancha, a maior representante desse assunto no enredo, é uma criança negra, torturada por Dona Itelvina, tia de Camila. Embora os pensamentos e falas dos personagens tenham muitos elementos racistas ao se referir a Sancha, o narrador toma o partido da criança. Um exemplo disso é o momento em que Ruth compara Sancha a si mesma, “que direitos teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?”. Nesse momento, há uma crítica tanto ao racismo quanto aos cristãos fundamentalistas (as tias avós, Dona Joana e Itelvina), que passam todos os dias de suas vidas “servindo a Deus” e que, no entanto, agem de forma abominável com uma criança.
De grande importância para nossa literatura, A falência é uma produção original. Rejeita os determinismos vigentes em tantas outras obras da época ao apresentar personagens femininas com voz e determinação. As mulheres de Júlia Lopes de Almeida não dependem das figuras masculinas para destacarem-se; são complexas e corajosas. Durante a história, elas se transformam e amadurecem para começar a prover o sustento da família, já sem um homem que o faça. Mesmo que tenham se passado 100 anos desde sua publicação, o romance continua causando impacto com suas reflexões sociais e morais.
Teatro
1909 - A herança (peça em um ato)
1917 - Teatro
O caminho do céu
A última entrevista
A senhora marquesa
O dinheiro dos outros
Vai raiar o sol
Laura
Diversos
O livro das noivas, Typographia da Companhia Nacional, 1896
Livro das donas e donzelas, 1906.
Jardim florido, Editora Livraria Leite Ribeiro,1922
Jornadas no meu País, Editora Francisco Alves, 1920.
Eles e elas
Oração à Santa Doroteia, Francisco Alves, 1923.
Maternidade (obra pacifista).
Brasil, 1922. (conferência).
Escolares
- Histórias da nossa terra, 1907.
- Contos Infantis (com Adelina Lopes Vieira), 1886.
- A Árvore (com Afonso Lopes de Almeida)
Eu li desta autora "A Intrusa".
ResponderExcluirEstou conhecendo agora, justamente por causa da polêmica causada pela Fuvest. A Falência tem sido uma agradável surpresa.
ExcluirDela eu li A viúva Simões e este, A Falência. Mas confesso que não me marcaram muito.
ResponderExcluirCreio que tenha sido impactante quando do lançamento em 1901.
Excluir